Grito interno

Contos
20d atrás

Naquela tarde, eu só queria chegar em casa. Tinha saído da faculdade mais tarde do que de costume e ainda precisava passar no mercado. Minha mãe havia mandado mensagem antes mesmo de eu atravessar o portão: — Compra o café, minha filha. O nosso acabou. Eu respondi com um “tá” e guardei o celular no bolso da calça. O sol ainda estava alto, desses que fazem a gente apertar os olhos para enxergar a rua. Caminhei pela calçada segurando a bolsa junto ao corpo. Havia gente por toda parte. Uma senhora esperando o ônibus, dois meninos disputando espaço na calçada, um vendedor anunciando alguma coisa que eu não consegui entender. Foi quando ouvi: — Ei, gostosa! Não olhei. Continuei andando. — Estou falando contigo. Ouvi uma risada atrás de mim. Meu primeiro impulso foi acelerar o passo. O segundo foi olhar para trás e perguntar qual era o problema daquele homem. O terceiro — o que venceu — foi continuar andando. Eu já conhecia aquela conta: mulher + rua + homem desconhecido + resposta = problema. Minha mãe havia me ensinado isso sem nunca precisar dizer exatamente assim: “Não dá confiança.” “Não olha.” “Se estiver tarde, liga.” “Se alguém mexer contigo, entra em algum lugar.” “E não responde, porque homem não gosta de ser contrariado.” Eu era menina quando comecei a aprender essas coisas. Antes de saber o nome do medo, já sabia como evitá-lo. A voz veio outra vez: — Está se achando, é? Dessa vez, outras pessoas riram. Foi isso que doeu. Não apenas a voz dele, mas a risada. A facilidade com que aquilo cabia na tarde dos outros. Para eles, talvez fosse só uma brincadeira. Para mim, meu corpo inteiro havia ficado atento. As mãos apertaram a alça da bolsa. A garganta secou. Eu senti vontade de desaparecer dentro da própria roupa. Continuei. Um passo. Depois outro.

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O Papagaio que Nunca Aprendeu a Parar

Contos
24d atrás

Havia, naquela época, uma menina que ainda não sabia que algumas coisas que chegam à nossa vida como presentes podem permanecer por muito mais tempo do que imaginamos. Era uma menina alegre, curiosa e encantada por tudo aquilo que tivesse vida, movimento ou pudesse lhe contar alguma novidade. Gostava de observar os pássaros na janela, de ouvir seus cantos e de imaginar que, se pudesse conversar com eles, certamente teria muito o que perguntar. Foi por isso que, certa manhã, sua mãe apareceu em casa carregando uma pequena caixa de madeira, cuidadosamente coberta por um pano. A menina percebeu imediatamente que havia alguma coisa diferente. O que é? — perguntou, aproximando-se. A mãe sorriu e pediu que ela esperasse. Quando retirou o pano, apareceu um pequeno papagaio. Era ainda jovem, de penas vistosas, olhos vivos e curiosos e um bico que parecia grande demais para o tamanho do corpo. Movia a cabeça de um lado para o outro, observando tudo ao redor com uma atenção que encantou a menina. Ela ficou alguns segundos em silêncio. Depois, abriu um sorriso tão grande que quase não conseguiu esconder a surpresa. Era seu presente. A menina se aproximou devagar, como se tivesse medo de assustá-lo. Estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, tocou de leve suas penas. O papagaio inclinou a cabeça e a observou. Ela riu. Naquele instante, decidiu que os dois seriam grandes amigos. Nos primeiros dias, porém, o papagaio ainda não dizia palavra alguma. Limitava-se a observar a casa e as pessoas que passavam por ela. Foi assim que começou a prestar atenção no pai da menina. O homem trabalhava muito e, quando chegava em casa, frequentemente continuava falando sobre o trabalho. Falava ao telefone, comentava os acontecimentos do dia, reclamava quando as coisas não saíam como esperava e comemorava quando os resultados eram bons. Havia uma palavra que aparecia com uma frequência especial em suas conversas. Meta. O papagaio ouvia. A meta foi atingida. O papagaio observava.

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Foi a melhor coisa que eu fiz

Contos
33d atrás

Laura sempre foi uma observadora atenta, do tipo que nota as nuances dos lugares e das pessoas. Vivia em São Paulo, uma cidade que parecia mastigar os dias com pressa. Aos 28 anos, sua vida seguia uma rotina previsível. Trabalhando como analista em uma firma de contabilidade, sua existência era ordenada, planejada até o menor detalhe. Cada dia parecia uma cópia do anterior: planilhas intermináveis, sorrisos educados, almoços apressados, o trajeto de ônibus até o pequeno apartamento que dividia com Daniel, seu namorado de muitos anos. Daniel era bom, gentil, mas seu amor parecia tão desgastado quanto o sofá da sala. A relação, inicialmente vibrante e cheia de promessas, havia se tornado um lugar de conforto, um pacto silencioso contra a solidão. Os silêncios entre eles, que antes eram confortáveis, agora pesavam como uma verdade não dita. Uma vez, em uma noite particularmente silenciosa, Daniel, deitado ao lado dela, suspirou e murmurou: – Acho que estamos bem assim, não acha? Laura concordou, mas no fundo sentiu uma fisgada. A vida não deveria ser apenas "bem assim". Foi em um almoço de fim de semana com amigos que tudo começou a mudar. A conversa girava em torno de trabalho, casamentos e filhos. Ana, uma amiga de infância, revelou sua decisão de abandonar a carreira sólida como advogada para abrir uma pousada em uma praia isolada. Todos riram, surpresos com a audácia, mas Laura sentiu que algo havia despertado dentro dela. Uma espécie de inveja, uma inveja boa, daquelas que sacodem a gente. Era como se uma janela se abrisse dentro dela, deixando entrar uma brisa fresca. Naquela noite, deitada ao lado de Daniel, ela ficou acordada, contemplando o teto. A ideia de mudança começou a tomar forma em sua mente. “E se eu fizesse diferente?”, pensou. Não houve um momento de súbita ruptura. Foi um acúmulo, um gotejar constante de insatisfação. No começo, era apenas uma sensação de inquietação, mas rapidamente cresceu, ganhando forma e cor. Ela começou a investigar possibilidades em segredo, como se estivesse traindo a vida que havia construído. Pesquisou cursos de escrita criativa, leu sobre mulheres que reinventaram suas vidas. Ao mesmo tempo, começou a questionar suas próprias escolhas, sua própria história. Cada decisão parecia estar marcada pela expectativa alheia – a carreira estável, o relacionamento confortável, a vida previsível. E se ela pudesse escolher de novo?

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CLAUDIA MARIA CHIARION
CLAUDIA MARIA CHIARION
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3 obras
21d atrás

o pescador e a sereia

Contos

Essa é a história de um pescador, homem matuto, bruto, do interior, rústico, sem instrução, nem diploma. Trabalhava de sol a sol na lavoura da sua roça. Era baixo, troncudo, olhos pretos como duas jabuticabas, usava chapéu de palha já velho pelo tempo; suas mãos eram calejadas pela enxada e a pele muito queimada pelo sol. Vivia solitário no mato, nunca se casara. Quando criança ouvia muitas histórias de assombração, a mula sem cabeça, Saci-Pererê, a Cuca, mas a que mais o seduzia era a história da sereia. O povo da roça dizia que no fundo do rio vivia uma linda sereia. E diziam que sua voz melodiosa seduzia e matava os homens de amor. Ela os hipnotizava e os arrastava para o fundo e os matava. Era tarde da noite, o matuto estava no bar, bebendo com três amigos, faziam seresta com violão, fumavam cigarro de palha, quando de repente ouviram uma doce melodia. A princípio eles pensaram que poderia se tratar de uma sereia, mas como estavam embriagados resolveram que era hora de ir para casa. Assim, os três foram caminhando pela estrada de terra batida, os dois amigos logo chegaram a suas casas, e o pescador seguiu o resto do caminho sozinho. A lua iluminava a estrada vazia, só ouvia o pio de uma coruja, e logo o silêncio tomara conta do ar. O pescador continuou caminhando quando de repente ouviu uma canção. Era uma melodia triste, que o comoveu, sentiu-se que precisava encontrar aquela voz...

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Descobrindo o amor

Contos
66d atrás

As risadas ecoavam altas pelo quarto. Lily e Jack estavam deitados na cama, lado a lado, conversando sobre assuntos aleatórios, como faziam sempre que tinham tempo. Aos poucos, Jack foi parando de rir, mas sem deixar o sorriso desaparecer. Ele se deixou olhar a garota que ainda dava uma risada gostosa, chegando a colocar até as mãos na barriga pelo provável incômodo de ter rido demais. Jack se perdia em pensamentos em momentos como aquele. Era tão bom sempre ter Lily por perto. Eram amigos há anos e ele sentia que o laço que os unia só vinha aumentando a cada dia que passava. Às vezes discutiam por bobeiras, mas logo estavam rindo juntos do ocorrido. Ficou a olhando: os olhos fechados, os lábios agora entreabertos em busca de ar pela risada contínua de segundos atrás. Os lábios. Tão vermelhos e que aparentavam ser macios. Ficou olhando-os enquanto tentava entender por que, de repente, eles lhe pareciam tão convidativos. Lily, após recuperar o fôlego perdido, abriu os olhos ao sentir o olhar tão intenso sobre si. Por que Jack estava a olhando daquela forma? Sentiu como se houvesse um bloco de gelo na barriga. Ela o viu se virar para si, apoiando-se em um dos braços, enquanto levava o outro com cuidado até o seu rosto. Logo sentiu uma leve carícia no rosto, que a fez fechar os olhos e soltar um baixo suspiro de aprovação. Jack sempre era tão carinhoso com ela. Abriu os olhos vendo que ele estava consideravelmente mais perto do que segundos atrás. Seus olhos se encontraram. Olhos carregados de sentimentos que não conseguiam decifrar. Lily sentiu o polegar do melhor amigo passando pelos seus lábios em uma leve carícia, que a fez arrepiar. Sentia o coração batendo incrivelmente acelerado agora. E Jack estava a olhando de uma maneira tão intensa, que sentia as bochechas começarem a esquentar. A carícia em seus lábios ainda continuava e agora os olhares do amigo alternavam entre seus olhos e os dela, fazendo-a ficar com a respiração descompassada. — Jack, o que... O que você está fazendo...? — sua voz era sussurrada devido ao turbilhão de sentimentos que estava sentindo — Até parece que quer... me beijar. — terminou com uma risadinha um tanto nervosa pela vergonha.

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Você já me amou

Contos
37d atrás

No início, foi apenas um detalhe. Pequeno, insignificante. Uma lembrança que escapuliu entre os dedos da mente, como um grão de areia levado pelo vento. Um nome que sempre esteve na ponta da língua, mas que, de repente, sumiu. Depois, um número de telefone que ele jurava conhecer. E então, um rosto. Lourenço percebeu que alguma coisa estava errada na terceira semana. Enquanto tomava café, tentou lembrar-se da cor dos olhos de sua mãe. Azul, marrom, verde? Nenhuma resposta veio. Vasculhou álbuns antigos, revirou gavetas em busca de cartas, de pistas, mas encontrou apenas rostos borrados, palavras sem forma. Seu coração pulsou rápido. Como alguém podia esquecer algo tão essencial? No trabalho, os problemas começaram a se acumular. Relatórios esquecidos, reuniões perdidas, compromissos que desapareciam de sua memória como se nunca tivessem existido. Colegas o olhavam com estranheza quando ele se desculpava, alegando não se lembrar de conversas que, segundo eles, haviam acontecido dias antes. A desconfiança começou a se instalar. Com o tempo, a situação piorou. Primeiro, foram as memórias. Depois, os objetos. Suas chaves não estavam onde as deixara na noite anterior. A blusa que usara na semana passada não existia mais em seu guarda-roupa. O tempo parecia escapar de suas mãos. Dias passavam e ele não sabia o que havia feito. E por fim, seu reflexo no espelho começou a falhar. No vidro embaçado do banheiro, seu rosto parecia menos nítido, como se a realidade estivesse apagando-o aos poucos, uma borracha invisível desfazendo traços que um dia haviam sido seus. Lourenço tentou falar sobre isso, mas as pessoas o olhavam com estranheza. — Você deve estar cansado — diziam. — Coisas assim acontecem.

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SOLIDÃO

Contos
963d atrás

As primeiras sombras hostis da noite se revelavam. Numa exigua casinha ao extremo sul da cidade, braços sentiam as consequências de um trabalho exaustivo afim de preparar a mesa para os convidados que receberia. Meia hora havia se passado do combinado, checava a cada segundo o relógio aguardando o tocar da campainha. Os miúdos olhos escondidos por detrás do óculos miravam os pratos vazios. Por vezes espantava algumas moscas. Duas horas de completo silencio se passaram, a esse ponto já desistira de conferir o relogio, a temperatura da comida e de espantar os mosquitos. Impaciente levantou-se pronto para tirar a mesa, quando de repente, a campainha tocou. Um pico de adrenalina tomou todo seu corpo, os pés puseram-se virados para a entrada, sem perceber derrubou sobre a mesa os pratos que segurava e atirou-se em direção a porta, tropeçou nas escadas quase indo ao chão. Era compreensível sua euforia, depois que perdera o emprego, o casamento e quase a casa, seus dias tornaram-se vazios e sem sentido. Nas semanas que antecederam seu aniversario, os amigos que restaram de seu convivio disseram que o visitariam e uma lágrima de esperança escorreu embalando seu coração febril, como se raios de sol espantassem as nuvens escuras de seus dias. Soltou um grunhido de ao se levantar, não podia demorar, talvez fossem os convidados e ele precisava servi-los, servi-los bem para que voltassem. Ele chegou até a porta, girou a massaneta e em seguida um enorme estrondo se fez seguido de um forte feixe de luz, sentiu seu corpo despencar bruscamente, não era possível enxergar nada a sua volta, porém os pelos de sua pele se arrepiavam ao sentir a forte rajada de vento que o entrecortava, não demorou muito para que avistasse uma luz, e mais adiante um enorme chão de concreto. Já estava em posição fetal, sem esperanças preparando-se para o impacto, quando, por fim, acordou. E viu ali, a mesma casa, a mesma mesa vazia e a tão familiar solidão.

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