Grito interno
Naquela tarde, eu só queria chegar em casa. Tinha saído da faculdade mais tarde do que de costume e ainda precisava passar no mercado. Minha mãe havia mandado mensagem antes mesmo de eu atravessar o portão: — Compra o café, minha filha. O nosso acabou. Eu respondi com um “tá” e guardei o celular no bolso da calça. O sol ainda estava alto, desses que fazem a gente apertar os olhos para enxergar a rua. Caminhei pela calçada segurando a bolsa junto ao corpo. Havia gente por toda parte. Uma senhora esperando o ônibus, dois meninos disputando espaço na calçada, um vendedor anunciando alguma coisa que eu não consegui entender. Foi quando ouvi: — Ei, gostosa! Não olhei. Continuei andando. — Estou falando contigo. Ouvi uma risada atrás de mim. Meu primeiro impulso foi acelerar o passo. O segundo foi olhar para trás e perguntar qual era o problema daquele homem. O terceiro — o que venceu — foi continuar andando. Eu já conhecia aquela conta: mulher + rua + homem desconhecido + resposta = problema. Minha mãe havia me ensinado isso sem nunca precisar dizer exatamente assim: “Não dá confiança.” “Não olha.” “Se estiver tarde, liga.” “Se alguém mexer contigo, entra em algum lugar.” “E não responde, porque homem não gosta de ser contrariado.” Eu era menina quando comecei a aprender essas coisas. Antes de saber o nome do medo, já sabia como evitá-lo. A voz veio outra vez: — Está se achando, é? Dessa vez, outras pessoas riram. Foi isso que doeu. Não apenas a voz dele, mas a risada. A facilidade com que aquilo cabia na tarde dos outros. Para eles, talvez fosse só uma brincadeira. Para mim, meu corpo inteiro havia ficado atento. As mãos apertaram a alça da bolsa. A garganta secou. Eu senti vontade de desaparecer dentro da própria roupa. Continuei. Um passo. Depois outro.
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