Grito interno

Grito interno

Naquela tarde, eu só queria chegar em casa. Tinha saído da faculdade mais tarde do que de costume e ainda precisava passar no mercado. Minha mãe havia mandado mensagem antes mesmo de eu atravessar o portão: — Compra o café, minha filha. O nosso acabou. Eu respondi com um “tá” e guardei o celular no bolso da calça.

O sol ainda estava alto, desses que fazem a gente apertar os olhos para enxergar a rua. Caminhei pela calçada segurando a bolsa junto ao corpo. Havia gente por toda parte. Uma senhora esperando o ônibus, dois meninos disputando espaço na calçada, um vendedor anunciando alguma coisa que eu não consegui entender.

Foi quando ouvi: — Ei, gostosa! Não olhei. Continuei andando. — Estou falando contigo. Ouvi uma risada atrás de mim. Meu primeiro impulso foi acelerar o passo. O segundo foi olhar para trás e perguntar qual era o problema daquele homem. O terceiro — o que venceu — foi continuar andando. Eu já conhecia aquela conta: mulher + rua + homem desconhecido + resposta = problema.

Minha mãe havia me ensinado isso sem nunca precisar dizer exatamente assim: “Não dá confiança.” “Não olha.” “Se estiver tarde, liga.” “Se alguém mexer contigo, entra em algum lugar.” “E não responde, porque homem não gosta de ser contrariado.” Eu era menina quando comecei a aprender essas coisas. Antes de saber o nome do medo, já sabia como evitá-lo.

A voz veio outra vez: — Está se achando, é? Dessa vez, outras pessoas riram. Foi isso que doeu. Não apenas a voz dele, mas a risada. A facilidade com que aquilo cabia na tarde dos outros. Para eles, talvez fosse só uma brincadeira. Para mim, meu corpo inteiro havia ficado atento. As mãos apertaram a alça da bolsa. A garganta secou. Eu senti vontade de desaparecer dentro da própria roupa. Continuei. Um passo. Depois outro.

No vidro de uma loja, vi meu reflexo passando depressa. Por um instante, não reconheci a mulher que caminhava ali. Era eu, mas parecia menor. Lembrei de quando tinha doze anos e minha mãe puxou minha blusa para baixo antes de sairmos de casa.

— Assim está melhor. Eu perguntei por quê. Ela não respondeu. Só ajeitou a barra e disse: — Vamos. Talvez ela também tivesse aprendido cedo demais que certas ruas não eram feitas para nós. Talvez tivesse aprendido antes de mim que, quando um homem decide olhar, a culpa costuma chegar primeiro no corpo da mulher.

Naquela tarde, porém, alguma coisa mudou. Não foi uma grande coisa. Não houve grito. Não houve discurso. Não houve homem pedindo desculpas. Eu apenas parei diante da faixa de pedestres. Por alguns segundos, fiquei olhando o sinal vermelho. O homem já estava longe. E eu pensei que era estranho. Ele havia dito uma frase e continuado o dia. Eu havia recebido a frase e levado comigo. Para casa. Para o banho. Para a cama. Para dentro.

Então atravessei a rua. Comprei o café. Voltei para casa. Minha mãe estava na cozinha quando entrei.

— Demorou, ela disse. Coloquei o pacote sobre a mesa.

— Um homem mexeu comigo na rua.

Ela ficou em silêncio. Depois perguntou:

— Você respondeu? Eu olhei para ela. Pela primeira vez, não tive vontade de dizer que não.

— Não. Ela respirou fundo, como quem procurava alguma coisa dentro de si.

— Fez bem.

Eu quase concordei. Quase. Mas alguma coisa dentro de mim, que havia passado a tarde inteira apertada contra as paredes da garganta, finalmente se mexeu.

— Mãe... Ela levantou os olhos.

— Eu não quero mais que a gente tenha que fazer tudo certo para que eles parem de fazer errado. Ela não respondeu. Ficamos as duas em silêncio. O café estava sobre a mesa. A panela fervia no fogão. Lá fora, a cidade continuava fazendo barulho.

E eu entendi que talvez o meu grito não precisasse sair pela boca naquele dia. Talvez bastasse eu não ensinar à menina que um dia eu teria que ser pequena para caber no medo. Talvez fosse assim que começasse. Não com uma voz alta. Mas com uma mulher dizendo, pela primeira vez: Não foi culpa minha.

Publicidade
PATROCINADO