Se lhe perguntassem há quanto tempo estava ali, jogada no chão encarando o teto, não conseguiria responder. Segundos? Minutos? Horas? Sentia como se tudo à sua volta fosse um enorme borrão. As palavras ditas momentos antes ainda ecoavam na sua mente como um vinil arranhado. Ensurdecedor, constante, irritante.
“Não é você, sou eu.”
Uma risada amargurada deixou seus lábios enquanto encarava aquele que achou que costumava conhecer um dia.
“Está de sacanagem comigo? É só isso o que tem a me dizer?”
“Sinto muito.”
Não foi choro o que lhe acometeu naquele momento. Nem tristeza. Durante minutos, que pareciam horas, o que lhe passava na mente era um grande nada. Deveria estar se sentindo assim? O que seria aquele vazio enorme no peito?
Os olhos tentavam se acostumar ao quarto escuro enquanto procurava pela bolsa que sabia estar jogada em um canto. Passou pelos corredores escuros enquanto se dirigia à saída.
Sem olhar para trás desceu os degraus ainda levando as chaves consigo. Um vento gelado lhe beijou o rosto quando saiu do prédio. Seus cabelos voavam em direção a história que deixaria para trás. Seu olhar e seus pés seguiram em frente, rumo ao único caminho possível.
A lua era sua única companhia naquela estrada vazia. E enquanto contava seus passos pelo chão ela lhe fornecia seu brilho intenso. Tomou aquilo como uma lição. Mesmo sozinha naquele imenso céu, ela continuava a brilhar, sem se deixar apagar.
O cigarro agora aceso entre seus lábios jogava fumaça aos céus. Uma tragada, um passo adiante. Duas tragadas, uma história deixada para trás. Três tragadas, e enquanto a fumaça lhe queimava os pulmões jurou a si mesma que o acontecido agora seria passado.
À sua frente o mar era banhado por cores pálidas em tons frios. O vento junto ao cheiro predominante e o quebrar das ondas lhe fez sentir-se momentaneamente em casa.
Os sapatos esquecidos junto à bolsa ficaram para trás. Um arrepio percorreu o corpo ao sentir a água fria em contato com a pele. Em uma mão havia a chave e em outra, o caderno onde costumava eternizar o tempo de mais uma história que ficaria sem um final feliz.
Com toda a força jogou tudo fora. A chave após levantar respingos afundou com um leve barulho e sumiu de vista. O caderno ainda ficou um tempo ali, boiando, enquanto suas folhas eram consumidas pela água.
A chave representava seu coração. Agora fechado e enterrado em si mesmo, pesado e perdido. O caderno que finalmente afundava era seu sentimento. Atordoados, tentando em vão ficar a superfície, implorando que lhe salvasse.
— Um dia quem sabe, serei feliz. – sua voz carregada pelo vento se tornou um desejo, tendo como espectador a lua.
Enquanto sentia a areia entre os dedos, um novo cigarro lhe fazia companhia. O vento rapidamente secava cada lágrima derramada. Cada momento vivido, cada lembrança em sua memória. Torcendo para o turbilhão de sentimentos confusos secarem assim como suas lágrimas, deixou se sentir.
O que lhe aquecia no momento era ver que no horizonte as novas cores que despontavam lhe traziam a promessa de um novo dia.
De um novo recomeço.
Uma nova página a ser escrita.
O início de um novo capítulo da sua vida.

