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Dyuvania Mara

@dyuvania

“Talvez escrever seja apenas a minha maneira de não deixar certas coisas morrerem.”

Dyuvania Mara é escritora e estudante de Ciências Biológicas da UFMA. Escreve poemas, contos e crônicas. Entre seus reconhecimentos, estão o 1º lugar em Conto e Crônica no FESTMACPU/UEMA, o 3º lugar no Concurso de Contos Hilda Koller e o 2º lugar em Poema no Prêmio Carcará/UNESP.

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Até quando o corpo aguenta?

Crônicas
10d atrás

O dia começa antes que o sol tenha decidido nascer por inteiro. Há corpos que despertam com o barulho do despertador; outros, com uma inquietação antiga, dessas que não se resolvem com uma noite de sono. O cansaço, às vezes, chega antes mesmo dos compromissos. Já está sentado à beira da cama, esperando. Lá fora, a cidade cumpre seus horários. Os ônibus seguem lotados, as pessoas atravessam as ruas apressadas, os estudantes carregam mochilas, livros e expectativas. Tudo parece obedecer a uma ordem silenciosa: levantar, produzir, aprender, vencer. Como se viver fosse uma competição em que ninguém pudesse pedir alguns minutos de descanso sem correr o risco de ficar para trás. No caminho até a universidade, repetem-se as mesmas paisagens, os mesmos rostos, as mesmas músicas nos fones de ouvido. Há dias em que uma canção abre uma fresta por onde escapa tudo aquilo que se passou semanas tentando conter. Os olhos marejam sem autorização. Não é exatamente tristeza. Ou talvez seja. Há sentimentos que se acumulam tanto que já não sabem por qual nome responder. Em algum lugar dentro de si, alguém procura Deus. Não necessariamente o Deus das respostas prontas, das frases penduradas nas paredes ou das promessas de que tudo acontece por uma razão. Procura-se uma presença. Um sinal de que o sofrimento não tornou o mundo completamente indiferente. E, quando nem a fé consegue silenciar as perguntas, resta o espanto de continuar perguntando: Senhor, estás aí? A doença tem uma maneira cruel de alterar o tamanho das coisas. O que para muitos é apenas mais uma manhã, para alguém pode ser uma negociação difícil com o próprio corpo. Levantar, tomar os medicamentos, controlar os efeitos colaterais, suportar a dor, organizar os horários, comparecer às aulas. Tudo isso antes mesmo de começar a tarefa que os outros verão.

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Grito interno

Contos
20d atrás

Naquela tarde, eu só queria chegar em casa. Tinha saído da faculdade mais tarde do que de costume e ainda precisava passar no mercado. Minha mãe havia mandado mensagem antes mesmo de eu atravessar o portão: — Compra o café, minha filha. O nosso acabou. Eu respondi com um “tá” e guardei o celular no bolso da calça. O sol ainda estava alto, desses que fazem a gente apertar os olhos para enxergar a rua. Caminhei pela calçada segurando a bolsa junto ao corpo. Havia gente por toda parte. Uma senhora esperando o ônibus, dois meninos disputando espaço na calçada, um vendedor anunciando alguma coisa que eu não consegui entender. Foi quando ouvi: — Ei, gostosa! Não olhei. Continuei andando. — Estou falando contigo. Ouvi uma risada atrás de mim. Meu primeiro impulso foi acelerar o passo. O segundo foi olhar para trás e perguntar qual era o problema daquele homem. O terceiro — o que venceu — foi continuar andando. Eu já conhecia aquela conta: mulher + rua + homem desconhecido + resposta = problema. Minha mãe havia me ensinado isso sem nunca precisar dizer exatamente assim: “Não dá confiança.” “Não olha.” “Se estiver tarde, liga.” “Se alguém mexer contigo, entra em algum lugar.” “E não responde, porque homem não gosta de ser contrariado.” Eu era menina quando comecei a aprender essas coisas. Antes de saber o nome do medo, já sabia como evitá-lo. A voz veio outra vez: — Está se achando, é? Dessa vez, outras pessoas riram. Foi isso que doeu. Não apenas a voz dele, mas a risada. A facilidade com que aquilo cabia na tarde dos outros. Para eles, talvez fosse só uma brincadeira. Para mim, meu corpo inteiro havia ficado atento. As mãos apertaram a alça da bolsa. A garganta secou. Eu senti vontade de desaparecer dentro da própria roupa. Continuei. Um passo. Depois outro.

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Foi a melhor coisa que eu fiz

Contos
33d atrás

Laura sempre foi uma observadora atenta, do tipo que nota as nuances dos lugares e das pessoas. Vivia em São Paulo, uma cidade que parecia mastigar os dias com pressa. Aos 28 anos, sua vida seguia uma rotina previsível. Trabalhando como analista em uma firma de contabilidade, sua existência era ordenada, planejada até o menor detalhe. Cada dia parecia uma cópia do anterior: planilhas intermináveis, sorrisos educados, almoços apressados, o trajeto de ônibus até o pequeno apartamento que dividia com Daniel, seu namorado de muitos anos. Daniel era bom, gentil, mas seu amor parecia tão desgastado quanto o sofá da sala. A relação, inicialmente vibrante e cheia de promessas, havia se tornado um lugar de conforto, um pacto silencioso contra a solidão. Os silêncios entre eles, que antes eram confortáveis, agora pesavam como uma verdade não dita. Uma vez, em uma noite particularmente silenciosa, Daniel, deitado ao lado dela, suspirou e murmurou: – Acho que estamos bem assim, não acha? Laura concordou, mas no fundo sentiu uma fisgada. A vida não deveria ser apenas "bem assim". Foi em um almoço de fim de semana com amigos que tudo começou a mudar. A conversa girava em torno de trabalho, casamentos e filhos. Ana, uma amiga de infância, revelou sua decisão de abandonar a carreira sólida como advogada para abrir uma pousada em uma praia isolada. Todos riram, surpresos com a audácia, mas Laura sentiu que algo havia despertado dentro dela. Uma espécie de inveja, uma inveja boa, daquelas que sacodem a gente. Era como se uma janela se abrisse dentro dela, deixando entrar uma brisa fresca. Naquela noite, deitada ao lado de Daniel, ela ficou acordada, contemplando o teto. A ideia de mudança começou a tomar forma em sua mente. “E se eu fizesse diferente?”, pensou. Não houve um momento de súbita ruptura. Foi um acúmulo, um gotejar constante de insatisfação. No começo, era apenas uma sensação de inquietação, mas rapidamente cresceu, ganhando forma e cor. Ela começou a investigar possibilidades em segredo, como se estivesse traindo a vida que havia construído. Pesquisou cursos de escrita criativa, leu sobre mulheres que reinventaram suas vidas. Ao mesmo tempo, começou a questionar suas próprias escolhas, sua própria história. Cada decisão parecia estar marcada pela expectativa alheia – a carreira estável, o relacionamento confortável, a vida previsível. E se ela pudesse escolher de novo?

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Enquanto a cura não vem

Crônicas
35d atrás

Há um momento em que a doença deixa de ser uma notícia. No começo, ela chega como chegam as coisas que assustam: interrompendo tudo. Muda planos, horários, conversas. Faz a gente aprender palavras que nunca quis conhecer. No início, ainda existe a expectativa de que aquilo seja apenas uma passagem. Uma fase ruim. Um intervalo. Depois, os dias passam. E a doença começa a ocupar lugares que antes pertenciam à vida. Ela está no café da manhã que você não consegue tomar. No compromisso que precisa ser desmarcado. Na roupa que você escolhe pensando se o corpo vai aguentar. No calendário, que já não é organizado apenas por aniversários, provas, viagens ou domingos, mas também por consultas, exames, sintomas e dias bons. É estranho quando o sofrimento aprende a rotina da casa. Mais estranho ainda é quando as pessoas ao redor começam a se acostumar com ele. Você também se acostuma. Não porque deixa de doer, mas porque o ser humano aprende a continuar vivendo até mesmo quando não sabe mais como. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de explicar para quem olha de fora: existem sofrimentos que não fazem barulho. Há dias em que você não está chorando. Não está desesperada. Não está sequer pensando na doença. Está apenas cansada. Cansada de esperar. Cansada de acreditar que agora vai. Cansada de ouvir que é preciso ter paciência quando a sua paciência já parece ter sido usada até a última gota. E então você vê alguém receber aquilo que você tanto pediu. Uma cura. Um milagre. Uma resposta. E você se alegra por aquela pessoa, porque a dor do outro não deveria diminuir a nossa capacidade de celebrar. Mas, depois, quando fica sozinho, alguma coisa dentro de você pergunta baixinho: “E eu, Deus?” Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis que alguém possa fazer. Não porque Deus não possa ouvi-la. Mas porque às vezes nós fazemos essa pergunta esperando uma resposta imediata, e o céu permanece em silêncio. Você vê testemunhos de pessoas dizendo que oraram e foram curadas. Pessoas contando que o exame mudou, que a doença desapareceu, que o impossível aconteceu. E você continua ali. Com o mesmo corpo. A mesma espera. O mesmo medo. A mesma oração. É nesse lugar que a fé começa a ficar miúda. Não necessariamente acaba. Fica pequena. Às vezes ela já não consegue levantar os braços para o céu. Às vezes não consegue formular uma oração bonita. Às vezes tudo o que sobra é uma frase curta, quase um sussurro: “Deus, fica comigo.” E talvez exista uma honestidade muito grande nessa oração. Porque chega um momento em que a gente percebe que não consegue mais sustentar a própria esperança.

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Você já me amou

Contos
37d atrás

No início, foi apenas um detalhe. Pequeno, insignificante. Uma lembrança que escapuliu entre os dedos da mente, como um grão de areia levado pelo vento. Um nome que sempre esteve na ponta da língua, mas que, de repente, sumiu. Depois, um número de telefone que ele jurava conhecer. E então, um rosto. Lourenço percebeu que alguma coisa estava errada na terceira semana. Enquanto tomava café, tentou lembrar-se da cor dos olhos de sua mãe. Azul, marrom, verde? Nenhuma resposta veio. Vasculhou álbuns antigos, revirou gavetas em busca de cartas, de pistas, mas encontrou apenas rostos borrados, palavras sem forma. Seu coração pulsou rápido. Como alguém podia esquecer algo tão essencial? No trabalho, os problemas começaram a se acumular. Relatórios esquecidos, reuniões perdidas, compromissos que desapareciam de sua memória como se nunca tivessem existido. Colegas o olhavam com estranheza quando ele se desculpava, alegando não se lembrar de conversas que, segundo eles, haviam acontecido dias antes. A desconfiança começou a se instalar. Com o tempo, a situação piorou. Primeiro, foram as memórias. Depois, os objetos. Suas chaves não estavam onde as deixara na noite anterior. A blusa que usara na semana passada não existia mais em seu guarda-roupa. O tempo parecia escapar de suas mãos. Dias passavam e ele não sabia o que havia feito. E por fim, seu reflexo no espelho começou a falhar. No vidro embaçado do banheiro, seu rosto parecia menos nítido, como se a realidade estivesse apagando-o aos poucos, uma borracha invisível desfazendo traços que um dia haviam sido seus. Lourenço tentou falar sobre isso, mas as pessoas o olhavam com estranheza. — Você deve estar cansado — diziam. — Coisas assim acontecem.

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Medos e fracassos

Crônicas
40d atrás

O medo mora no espaço entre o querer e o ser. Às vezes, aparece justamente quando chega a hora de fazer aquilo que se desejou por tanto tempo. Não avisa. Apenas está ali. As cortinas se abrem, as luzes se acendem e, por alguns segundos, não existe mais nada além do palco e dos olhos voltados para ele. Foi assim em um pequeno teatro, muitos anos atrás. Era uma primeira grande apresentação. O palco parecia maior do que nos ensaios. As luzes eram fortes, a plateia silenciosa, e havia uma expectativa difícil de explicar. Bastava olhar para frente para perceber que todas aquelas pessoas estavam esperando alguma coisa. A personagem estava pronta. As falas também. Tinham sido repetidas tantas vezes que pareciam conhecidas até demais. Mas, quando chegou a hora, as palavras desapareceram. A primeira fala demorou a sair. Depois veio a tentativa de lembrar a seguinte. Quanto mais se procurava pela frase, mais distante ela parecia. O silêncio, que antes fazia parte da apresentação, passou a pesar. As luzes pareciam mais fortes. Os rostos, mais próximos. Era como se o corpo tivesse esquecido aquilo que a memória sabia. Não havia acontecido nenhuma tragédia. Ninguém havia saído da plateia. O mundo não tinha acabado. Ainda assim, naquele pequeno espaço, parecia que um erro seria suficiente para transformar toda aquela apresentação em fracasso. É estranho como o medo consegue aumentar as coisas. Uma palavra esquecida pode parecer uma sentença. Um tropeço pode parecer definitivo. Um momento de silêncio pode ganhar o tamanho de uma vida inteira. O palco não é apenas um lugar de desempenho. Às vezes, é um espelho que devolve aquilo que se tenta esconder: a insegurança, a dúvida, o medo de não ser suficiente. E talvez seja justamente por isso que o fracasso assuste tanto. Ele não precisa ser grande. Às vezes, cabe em uma palavra esquecida, em uma prova que não saiu como esperado, em uma oportunidade perdida ou em uma porta que não se abriu. O fracasso é uma palavra pequena e fria. Aninha-se nos pensamentos e permanece ali por mais tempo do que deveria. Depois de um erro, é comum que a memória repita a cena inúmeras vezes, procurando o momento exato em que tudo poderia ter sido diferente. Como se voltar ao passado pudesse mudar alguma coisa. Mas não muda. O que pode mudar é o que se faz depois.

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A primeira vez que meu silêncio falou

Crônicas
45d atrás

Eu não sabia que o silêncio também podia ser lembrança. Mas a primeira vez que vi o meu, ele veio pesado, como se carregasse anos que eu nunca tinha vivido — e, ainda assim, me pertenciam. Aconteceu numa roda de conversa, num sábado abafado, quando me convidaram para um encontro comunitário no bairro vizinho. Eu fui achando que seria só troca de ideias, algo simples. Cheguei com meu caderno de anotações, minhas palavras prontas e aquela confiança que a gente aprende a ter quando sempre foi ouvida. Mas bastou eu me sentar no círculo para sentir que havia algo diferente. As pessoas ali falavam com uma verdade que não cabia em estatísticas, nem em frases de impacto. Eram histórias abertas como feridas recentes e, ao mesmo tempo, tão antigas quanto a rua de terra onde o encontro acontecia. Uma mulher contou que o filho tinha sido parado pela polícia mais vezes do que tinha idade para entender injustiça. Um rapaz disse que atravessava a cidade como quem atravessa um campo minado — qualquer movimento podia ser interpretado como ameaça. Outra contou que estudava com medo do olhar dos professores, porque parecia que esperavam sua queda antes do seu acerto. Enquanto eles falavam, eu sentia algo em mim se deslocar. Como se uma peça interna, colocada desde sempre no lugar errado, finalmente estivesse tentando se ajustar. Eu quis dizer algo bonito. Quis apoiar, comentar, mostrar que eu estava ali por inteiro. Mas as palavras, antes tão prontas, travaram na garganta. E naquele silêncio — naquele instante absoluto — eu vi, pela primeira vez, o tamanho do espaço que sempre ocupei sem perceber. Percebi que eu caminhava em ruas abertas enquanto eles respiravam entre muros. Que eu vivia distraída num terreno onde eles precisavam calcular cada passo. Que a minha liberdade, confortável e tranquila, era o sonho distante de tanta gente. A vergonha veio primeiro — uma vergonha mansa, não humilhante, mas lúcida. Depois veio uma espécie de luto, como se eu estivesse me despedindo de uma versão ingênua de mim mesma. E, por fim, veio o entendimento: às vezes, o mais justo é sair do centro da frase. O silêncio era o meu lugar naquela hora. Não porque eu não tivesse o que dizer, mas porque, pela primeira vez, eu entendi que não precisava ser a dona da resposta. Eu ouvi. E ouvir doeu mais do que falar. Mas também me abriu. Quando o encontro acabou, voltamos todos caminhando pela rua de terra. Eu reparei em coisas que nunca tinha reparado: a casa com as janelas sempre fechadas, o terreno onde crianças brincavam com latinhas, o cachorro que seguia cada grupo como quem guarda histórias. Percebi que o mundo deles tinha cor, cheiro, ritmo — e que, mesmo tão perto do meu, eu nunca tinha realmente visto. Naquela noite, escrevi no meu caderno, com a mão trêmula: "Hoje, meu silêncio falou. E o que ele disse não foi conforto. Foi verdade." Desde então, tenho aprendido o que ninguém me ensinou nos livros: que escutar também é verbo de ação, que humildade é uma forma profunda de coragem, e que há mudanças que só acontecem quando a gente cala para ouvir a vida dos outros.

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