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Dyuvania Mara

@dyuvania

Talvez escrever seja apenas a minha maneira de não deixar certas coisas morrerem.

Dyuvania Mara é escritora e estudante de Ciências Biológicas da UFMA. Escreve poemas, contos e crônicas. Entre seus reconhecimentos, estão o 1º lugar em Conto e Crônica no FESTMACPU/UEMA, o 3º lugar no Concurso de Contos Hilda Koller e o 2º lugar em Poema no Prêmio Carcará/UNESP.

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A primeira vez que meu silêncio falou

Crônicas4h atrás

Eu não sabia que o silêncio também podia ser lembrança. Mas a primeira vez que vi o meu, ele veio pesado, como se carregasse anos que eu nunca tinha vivido — e, ainda assim, me pertenciam. Aconteceu numa roda de conversa, num sábado abafado, quando me convidaram para um encontro comunitário no bairro vizinho. Eu fui achando que seria só troca de ideias, algo simples. Cheguei com meu caderno de anotações, minhas palavras prontas e aquela confiança que a gente aprende a ter quando sempre foi ouvida. Mas bastou eu me sentar no círculo para sentir que havia algo diferente. As pessoas ali falavam com uma verdade que não cabia em estatísticas, nem em frases de impacto. Eram histórias abertas como feridas recentes e, ao mesmo tempo, tão antigas quanto a rua de terra onde o encontro acontecia. Uma mulher contou que o filho tinha sido parado pela polícia mais vezes do que tinha idade para entender injustiça. Um rapaz disse que atravessava a cidade como quem atravessa um campo minado — qualquer movimento podia ser interpretado como ameaça. Outra contou que estudava com medo do olhar dos professores, porque parecia que esperavam sua queda antes do seu acerto. Enquanto eles falavam, eu sentia algo em mim se deslocar. Como se uma peça interna, colocada desde sempre no lugar errado, finalmente estivesse tentando se ajustar. Eu quis dizer algo bonito. Quis apoiar, comentar, mostrar que eu estava ali por inteiro. Mas as palavras, antes tão prontas, travaram na garganta. E naquele silêncio — naquele instante absoluto — eu vi, pela primeira vez, o tamanho do espaço que sempre ocupei sem perceber. Percebi que eu caminhava em ruas abertas enquanto eles respiravam entre muros. Que eu vivia distraída num terreno onde eles precisavam calcular cada passo. Que a minha liberdade, confortável e tranquila, era o sonho distante de tanta gente. A vergonha veio primeiro — uma vergonha mansa, não humilhante, mas lúcida. Depois veio uma espécie de luto, como se eu estivesse me despedindo de uma versão ingênua de mim mesma. E, por fim, veio o entendimento: às vezes, o mais justo é sair do centro da frase. O silêncio era o meu lugar naquela hora. Não porque eu não tivesse o que dizer, mas porque, pela primeira vez, eu entendi que não precisava ser a dona da resposta. Eu ouvi. E ouvir doeu mais do que falar. Mas também me abriu. Quando o encontro acabou, voltamos todos caminhando pela rua de terra. Eu reparei em coisas que nunca tinha reparado: a casa com as janelas sempre fechadas, o terreno onde crianças brincavam com latinhas, o cachorro que seguia cada grupo como quem guarda histórias. Percebi que o mundo deles tinha cor, cheiro, ritmo — e que, mesmo tão perto do meu, eu nunca tinha realmente visto. Naquela noite, escrevi no meu caderno, com a mão trêmula: "Hoje, meu silêncio falou. E o que ele disse não foi conforto. Foi verdade." Desde então, tenho aprendido o que ninguém me ensinou nos livros: que escutar também é verbo de ação, que humildade é uma forma profunda de coragem, e que há mudanças que só acontecem quando a gente cala para ouvir a vida dos outros.

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