AUTONOMIAS TEMPORÁRIAS

AUTONOMIAS TEMPORÁRIAS

Fomos convencidos por nossa leitura de Hakim Bey e dos discos do Joy Division de que deveríamos comprar toca-discos raros e abrir nossas próprias bibliotecas. Também de que deveríamos saber a trajetória dos recentes cometas em observatórios astronômicos. Fechamos nossos laptops acidentados. Eu e minha amiga de trabalho, então, abrimos a porta do chefe, que nos serviu cápsula de café amargo e, na sua tela, que tomava conta da maior parede, nos apresentou a beleza dos gráficos de desempenho. Nossos índices de desempenho estavam tachados e avermelhados. Na entrega dos processos, não havia nosso nome no nobre ranking mensal; nos relatórios tecnológicos, havia recomendações técnicas e sugestões de capacitações emergenciais. Enquanto o chefe redigia alguma espécie de declaração técnica laboral e verbalizava com seriedade para o que iria escrever, no fundo, um casal de colegas trocava carícias que ultrapassavam a barreira do som. Seus gemidos comprimiam as falas do chefe, e suas declarações mútuas causavam no chefe recorrentes correções ortográficas.

 

Já mal conseguíamos ouvir e nos concentrar.