O velho urso

O velho urso

Abrindo a porta que descia para o porão, uma corajosa menininha respirou fundo antes de acender a luz e descer. A mãe havia falado que ele estava ali embaixo no meio da bagunça. Precisava encontrá-lo o mais rápido possível!

 

O velho urso de sua avó, que um dia já havia sido de sua mãe, estava perdido por algum lugar ali. Queria muito encontrá-lo. Ela e a mãe estavam vendo as velhas fotos de família quando se deparou com uma foto de sua avó ainda jovem abraçada a ele. E, numa seguinte, a própria mãe o segurando. "Por que eu não o conheci também?", foi o que perguntou à mãe. "Eu já nem me lembrava dele", foi a resposta com uma pitada de espanto da mãe.

 

Foi o que precisou para a menina começar a encher a mãe de perguntas sobre o paradeiro do velho urso. Queria tanto poder brincar com ele também! E, após ouvir as palavras "tralha" e "porão", saiu correndo já sabendo onde poderia encontrá-lo.

 

E, no meio de um monte de bagunça, ali estava ele!

 

O velho urso marrom mostrava as marcas do tempo, como era de se esperar. A pequena menina não se importou com seu estado. Apesar do cheiro de poeira que lhe irritava o nariz, pegou o urso da caixa velha e o abraçou, vendo que cabia perfeitamente em seus braços. Sentando-se no chão sujo, começou a analisar o bichinho.

 

A textura embolada dos pelos artificiais deixava o toque áspero. O laço que o envolvia — que um dia já havia sido bege — agora estava encardido e quase irreconhecível. Numa das patas, mesmo através das manchas, estava escrito o nome da pelúcia: Teddy. Ele um dia havia sido o companheiro de sua avó e de sua mãe.

 

Percebeu, com uma tristeza no coração, que agora ele estava ali jogado e sozinho no escuro. Não entendeu o porquê disso. A mãe falava que esse era o cantinho das coisas sem utilidade. Como poderia falar isso daquele ursinho?

 

Abraçando o urso, a pequena criança tomou uma decisão: o levaria consigo e mostraria ao novo companheiro como era sentir-se importante de novo. Agora que o havia encontrado, não poderia deixá-lo ali só, pegando poeira e solitário!

 

Só precisava convencer a mãe a deixá-la ficar com ele, claro. Sabia que seria difícil devido às condições em que o ursinho se encontrava, mas valeria a pena. Só precisaria, urgentemente, arrumar uma banheira com bastante água e sabão para lhe dar um banho caprichado! Não desistiria dele.

 

Aquele pequeno brinquedo esquecido no tempo tinha uma coisa que ela adorava: histórias! Com certeza ele não se importaria de lhe contar como era ser o melhor amigo de sua avó e de sua mãe. E, além do mais, lhe mostraria como eram as coisas agora e escreveria novas histórias com ela!

 

O velho urso voltaria a fazer parte de um mundo totalmente novo! Já conseguia até imaginar as histórias que criariam juntos! Tinha uma de que ela gostava, sobre poder voar, ou então aquela que tinha uma princesa! Não via a hora de começar!

 

E assim como havia sido há anos atrás, cada nova história seria entalhada no velho urso, fazendo-o ser esse pedacinho de histórias vividas, acumuladas com o passar dos dias e reescritas através do tempo, como deveria ser.

 

E, como não poderia faltar, colocaria sua própria foto junto com ele na caixinha de lembranças. A diferença seria que jamais o deixaria no porão. Ele seria seu companheiro até o dia em que seria repassado para uma nova amiga no futuro.