A autora que não cabe em caixas

A autora que não cabe em caixas

Hoje, caro leitor, não teremos um narrador. Hoje somos eu e você.

Sim, você entendeu certo. Serei a narradora dos meus conflitos. Vou me apresentar. Pode me chamar de autora, jovem senhora... ou será senhora velha? Não sei. Deixo para você, meu leitor, descobrir.

Estava pensando em escrever um continho, uma novelinha sem complexidade, sem a necessidade de que meus leitores precisem recorrer a contextos, memórias... apenas uma historinha com começo, meio e fim. E, meu caro, este será meu desafio: depreender de minhas próprias indagações, da minha personalidade e, por que não, da minha teimosia em não me encaixar em padrões, sejam sociais ou pessoais.

Mas já estou divagando, ou seria filosofando?

Hoje não teremos Freud, tampouco Goethe, nem qualquer filósofo que possa aparecer.

Você, seja meu fiel amigo, minha régua. Quando eu estiver atravessando a linha da simplicidade, pare-me. Não me incentive.

Continuando, sem a divagação de sempre, pensei em escrever uma novelinha. Criar personagens simples, descrevê-los com muitos adjetivos, aquele lugar lindo com uma família feliz... Ah, meu Deus, quero — vou fazer um parêntese: eu talvez não acredite em felicidade assim...

Mas seu papel hoje é ajudar-me nesse desafio: escrever uma história com a qual eu mesma não me identifico. Será mesmo uma tarefa tão fácil assim?

Vamos lá... Imaginei uma cena. Vou descrevê-la e você me dá sua opinião. Seja franco, não levarei para o lado pessoal. Afinal, estamos aqui para que eu aprenda uma lição: parar de ser complexa ou, melhor, diminuir a intensidade.

Vamos para a cena. Primeiro, devo escolher o narrador. Pensei em algo simples, em terceira pessoa, ou talvez em primeira. Não sei. Vamos deixar minha imaginação decidir na hora.

As personagens devem ser simples, mas com muitas qualidades ou defeitos, ou tudo junto. Seria muito complexo juntar tudo assim? Acha que daria? Deixemos as respostas para o final da história... ou melhor, nem esperar muito, porque já sabemos o fim: “viveram felizes para sempre”.

Ah, estou rindo aqui. Desculpe-me, mas eu mesma não acredito em contos de fadas. Uma novelinha com um final assim seria muito clichê. Será que combinaria comigo? Acho que não. Mas quem decide é você, não cabe a mim. Hoje estou à mercê da sua humilde opinião. Espero não estar ofendendo-o ao chamá-lo de humilde. Afinal, poderia pensar que estou sendo irônica, ou pior, que o considero arrogante ou presunçoso. Longe de mim.

Deparei-me a pensar em Bauman, em como hoje a fluidez, a rapidez com que as relações mudam e a individualização parecem fazer parte da nossa vida. E você, gosta desse filósofo? Eu o acho complexo. Acho que, por essa razão, me identifico...

Mas voltemos ao foco: nossa novelinha tem que sair da imaginação para o papel, para a vida. Será isso possível?

De onde paramos, caro leitor? Essa jovem senhora — ou senhora jovem, como quiser — já não tem a memória como dantes. Preciso estar a todo tempo me observando, e olha que esse papel era seu.

Voltemos. Acho que teremos que pôr um conflito nessa história. Ela mal começou e já fiquei entediada. Talvez uma briga? Ou diria um suspense? Mas talvez não fosse prudente para nossos leitores, que esperam uma “historinha” “água com açúcar”, melada, quase pegajosa. Eca! Só de pensar me deu arrepios.

Vamos lá, já estou divagando de novo! Sem complexidade, com foco total na “novelinha”, precisamos fechar o elenco todo. Estou ficando já sem ideias — ou estaria com muitas e não consigo organizá-las?

Amigo leitor, estou chegando à conclusão de que escrever algo descomplicado não seja para mim... Acho complexo demais para uma autora que não cabe em caixas.

Sinto muito decepcioná-lo.

Eu transbordei.

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