Enquanto a realidade não bate à porta

Enquanto a realidade não bate à porta

Usada.

 

Desejada.

 

Tola.

 

Poderosa.

 

Havia uma parte de mim que se ressentia por se sentir assim. A parte que entrava em êxtase vivia em constante conflito com a parte racional, que sabia o quanto aquilo era errado e fazia mal. Mas a qual deveria ceder quando sentimentos tão conflitantes me deixavam viva?

 

O desejo, a adrenalina, o poder.

 

Um vício.

 

Enquanto a fumaça do cigarro deixa meus lábios, te olho pelo espelho gigante da parede e sinto-me novamente excitada. O tempo que passamos juntos é como um vício mal tratado.

 

Sem pudor, ando até onde está o dono da minha constante perdição.

 

Seu olhar em meu corpo é o bastante para saber que nosso próximo passo será em busca do êxtase. Enquanto o puxo para perto sinto sua ereção roçar em meu baixo ventre.

 

Eu amo me sentir assim.

 

Isso vai me levar ao inferno.

Enquanto sinto seus braços fortes me levantando, e me jogando contra a parede, sinto a necessidade novamente sendo saciada.

Por um tempo.

 

É a última vez, me prometo.

 

Nunca é o bastante, sussurra minha mente.

 

Enquanto sinto cada centímetro de você em mim, a única coisa que me passa pela cabeça é mais.

 

Mais de você.

 

Mais de mim.

 

Mais de nós.

 

Em meio aos sussurros de luxúria, o cuidado com cada palavra. Enquanto nos marcamos na alma, em nossos corpos o cuidado para não revelar nada.

 

Afinal, você ainda é dela.

 

E eu, sou dele.

 

Mas enquanto estamos juntos em quartos de motéis baratos, somos nós.

 

Nosso segredo sujo.

 

Nosso pecado.

 

Até onde poderemos levar tais mentiras e tal distanciamento – apesar da conexão carnal – é o grande prêmio de um milhão.

 

Enquanto me entrego a você e te recebo de volta, parece bastar.

 

Uma foda na semana.

 

Um dia de adrenalina.

 

Um dia baseado em mentiras.

 

Um dia para me sentir viva.

 

Enquanto sinto o gozo tomando conta do meu corpo junto ao seu, sei mais uma vez que estou perdida.

 

Toda vez dizemos que é a última.

 

Toda vez é uma mentira.

 

Uma história mal contada, fadada ao fracasso.

 

Uma história que mal começou e sempre esteve pontuada por um ponto final.

 

O que fazíamos ali não era comentado.

 

Éramos apenas dois amantes se curtindo, ocupados com um faz de contas onde a realidade não batia à porta.

 

Pelo menos não ali dentro.

 

Não enquanto não colocássemos o pé para fora da porta.

 

E quando saiamos por ela - cada um para o seu lado - éramos estranhos um ao outro.

 

E isso bastava.

 

Era o que sempre me dizia quando o via entrando no carro e ligando para ela.

 

Isso bastava.

 

Eu confirmava ao andar de volta para minha vida.

 

Bastava.

 

Até uma mensagem com coordenadas - e horário - chegar em uma mensagem na madrugada.