SOLIDÃO
As primeiras sombras hostis da noite se revelavam. Numa exigua casinha ao extremo sul da cidade, braços sentiam as consequências de um trabalho exaustivo afim de preparar a mesa para os convidados que receberia. Meia hora havia se passado do combinado, checava a cada segundo o relógio aguardando o tocar da campainha. Os miúdos olhos escondidos por detrás do óculos miravam os pratos vazios. Por vezes espantava algumas moscas. Duas horas de completo silencio se passaram, a esse ponto já desistira de conferir o relogio, a temperatura da comida e de espantar os mosquitos. Impaciente levantou-se pronto para tirar a mesa, quando de repente, a campainha tocou. Um pico de adrenalina tomou todo seu corpo, os pés puseram-se virados para a entrada, sem perceber derrubou sobre a mesa os pratos que segurava e atirou-se em direção a porta, tropeçou nas escadas quase indo ao chão. Era compreensível sua euforia, depois que perdera o emprego, o casamento e quase a casa, seus dias tornaram-se vazios e sem sentido. Nas semanas que antecederam seu aniversario, os amigos que restaram de seu convivio disseram que o visitariam e uma lágrima de esperança escorreu embalando seu coração febril, como se raios de sol espantassem as nuvens escuras de seus dias. Soltou um grunhido de ao se levantar, não podia demorar, talvez fossem os convidados e ele precisava servi-los, servi-los bem para que voltassem. Ele chegou até a porta, girou a massaneta e em seguida um enorme estrondo se fez seguido de um forte feixe de luz, sentiu seu corpo despencar bruscamente, não era possível enxergar nada a sua volta, porém os pelos de sua pele se arrepiavam ao sentir a forte rajada de vento que o entrecortava, não demorou muito para que avistasse uma luz, e mais adiante um enorme chão de concreto. Já estava em posição fetal, sem esperanças preparando-se para o impacto, quando, por fim, acordou. E viu ali, a mesma casa, a mesma mesa vazia e a tão familiar solidão.
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