SOLIDÃO

Contos0h atrás

As primeiras sombras hostis da noite se revelavam. Numa exigua casinha ao extremo sul da cidade, braços sentiam as consequências de um trabalho exaustivo afim de preparar a mesa para os convidados que receberia. Meia hora havia se passado do combinado, checava a cada segundo o relógio aguardando o tocar da campainha. Os miúdos olhos escondidos por detrás do óculos miravam os pratos vazios. Por vezes espantava algumas moscas. Duas horas de completo silencio se passaram, a esse ponto já desistira de conferir o relogio, a temperatura da comida e de espantar os mosquitos. Impaciente levantou-se pronto para tirar a mesa, quando de repente, a campainha tocou. Um pico de adrenalina tomou todo seu corpo, os pés puseram-se virados para a entrada, sem perceber derrubou sobre a mesa os pratos que segurava e atirou-se em direção a porta, tropeçou nas escadas quase indo ao chão. Era compreensível sua euforia, depois que perdera o emprego, o casamento e quase a casa, seus dias tornaram-se vazios e sem sentido. Nas semanas que antecederam seu aniversario, os amigos que restaram de seu convivio disseram que o visitariam e uma lágrima de esperança escorreu embalando seu coração febril, como se raios de sol espantassem as nuvens escuras de seus dias. Soltou um grunhido de ao se levantar, não podia demorar, talvez fossem os convidados e ele precisava servi-los, servi-los bem para que voltassem. Ele chegou até a porta, girou a massaneta e em seguida um enorme estrondo se fez seguido de um forte feixe de luz, sentiu seu corpo despencar bruscamente, não era possível enxergar nada a sua volta, porém os pelos de sua pele se arrepiavam ao sentir a forte rajada de vento que o entrecortava, não demorou muito para que avistasse uma luz, e mais adiante um enorme chão de concreto. Já estava em posição fetal, sem esperanças preparando-se para o impacto, quando, por fim, acordou. E viu ali, a mesma casa, a mesma mesa vazia e a tão familiar solidão.

Leia Mais

REUNIÃO

Contos0h atrás

As crianças correndo pela casa. Os homens sentados em volta de uma mesa com copos cheios de felicidade, enquanto as mulheres, de aventais e risadas nos rostos ajeitam panelas para mais um almoço em família. São primos escondidos nos quartos com vergonha dos parentes que só aparecem de vez em quando. É o vô e a vó que estão sentados em frente da televisão assistindo Sílvio Santos. Dá para ouvir o chiado da cebola e do alho refogando na panela, dá para ouvir o barulho de uma tampa de panela caindo e de alguém gritando truco lá fora. A toalha na mesa, mas não tem espaço para todos; é preciso improvisar banquinhos. O cheiro cada vez mais forte. O macarrão com molho, a carne assada no forno, o arroz com legumes, e a gelatina colorida na geladeira. Vão lavar as mãos, alguém diz. Todos vão, alguns a contragosto. Disputa por lugares, por pratos mais fundos, o que são poucos. Eu fico com um raso, não me importo. Meto os dedos gorduchos na coxa do frango; devoro, o arroz, a carne assada, enfim, como um pouco de tudo. Vou um pouco para o quintal e volto assim que a mãe chama pra comer gelatina. Sento com meu potinho de plástico bem cheio, e a colheradas bem cheios vou me lambuzando. As barrigas cheias, a louça lavada. Na sala a família reunida pra assistir ao jogo do Palmeiras. Os palmeirenses da família sofrem enquanto os outros torcedores riem de mais uma derrota, mas a maior vitória é a família reunida mais uma vez.

Leia Mais

RESTAURAÇÃO

Contos0h atrás

Eram duas horas da madrugada, um vento frio batia no vidro da janela. Léa dormia nua, aquecida sob as pesadas cobertas, Quinn vestia um short solto e olhava a rua deserta. Não conseguia dormir. Olhou para as próprias mãos, suspirou, vestiu o casaco, o jeans e amarrou a bandana na cabeça, o tênis branco calçado e saiu. Acendeu um Seven Stars e seguiu solitário pela rue De La Cité. Rumo à catedral de Notre Dame. Usou a entrada lateral na rue du Cloître-Notre-Dame. Com certa desconfiança o Monsenhor Chauvet lhe dera as chaves das portas laterais. Quinn não havia estabelecido um horário de trabalho. Algumas vezes entrava na catedral antes das 7 da manhá e saía depois das 18 horas, outras vezes ficavam toda uma madrugada por lá e não aparecia durante o dia. A desconfiança do Monsenhor só desapareceu quando um dia, passado duas semanas do prazo dado pelo Monsenhor, ele entrou na saleta onde Quinn restaurava o quadro e viu o trabalho bem feito. Não era possível que o próprio Blanchard havia descido dos céus e refeito a tela. Quinn nada disse. Ele entrou na saleta e no silêncio, acendeu as luzes especiais, descobriu o carrinho com as tintas e se pôs a admirar a tela. Quinn olhava a tela com as mãos atrás do corpo, um pincel girando entre os dedos. Havia cuidado do rasgo na tela, e depois se dedicou no ardo trabalho de retirar a fuligem, poeiras e sujeiras provocadas pelo incêndio. Concluído, ele trabalhou na remoção do verniz amarelado e ainda mais danificado. Usou uma quantidade diluída de solvente para isso. O verniz, danificado, atrapalhava a pintura da tela. Deixa as cores frias demais ou quentes em exageros e perdia a essência do pintor. Agora faltava apenas frazer uns retoques de tinta e cobrir com o verniz. Levou um mês inteiro para estudar o estilo de pintura de Jacques Blanchard. Mas apesar do desafio e dificuldade, havia tido um excelente mestre. Colou em prática seu trabalho. Usando uma bandeja de isopor combinou as cores e se concentrou, mergulhou no silêncio de catedral e na tela na sua frente. Terminou por volta das nove da manhã. Era uma pena algumas coisas não poderem ser reparadas como a essa tela. Pensou.

Leia Mais