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Fernando Daniel

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REUNIÃO

Contos0h atrás

As crianças correndo pela casa. Os homens sentados em volta de uma mesa com copos cheios de felicidade, enquanto as mulheres, de aventais e risadas nos rostos ajeitam panelas para mais um almoço em família. São primos escondidos nos quartos com vergonha dos parentes que só aparecem de vez em quando. É o vô e a vó que estão sentados em frente da televisão assistindo Sílvio Santos. Dá para ouvir o chiado da cebola e do alho refogando na panela, dá para ouvir o barulho de uma tampa de panela caindo e de alguém gritando truco lá fora. A toalha na mesa, mas não tem espaço para todos; é preciso improvisar banquinhos. O cheiro cada vez mais forte. O macarrão com molho, a carne assada no forno, o arroz com legumes, e a gelatina colorida na geladeira. Vão lavar as mãos, alguém diz. Todos vão, alguns a contragosto. Disputa por lugares, por pratos mais fundos, o que são poucos. Eu fico com um raso, não me importo. Meto os dedos gorduchos na coxa do frango; devoro, o arroz, a carne assada, enfim, como um pouco de tudo. Vou um pouco para o quintal e volto assim que a mãe chama pra comer gelatina. Sento com meu potinho de plástico bem cheio, e a colheradas bem cheios vou me lambuzando. As barrigas cheias, a louça lavada. Na sala a família reunida pra assistir ao jogo do Palmeiras. Os palmeirenses da família sofrem enquanto os outros torcedores riem de mais uma derrota, mas a maior vitória é a família reunida mais uma vez.

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HAVERÁ TEMPO?

Artigos0h atrás

Dias trancados, dias sem sóis, céus sem nuvens e olhares carrancudos nas janelas. Pessoas de passos apressados tentando acelerar as vidas alheias. Doentes sem cama. Famílias sem pais nem mães, filhos sozinhos a mercê de um destino cruel e desolador. Vejo-me preso sem perspectivas, são poucas as expectativas de novos horizontes. Na televisão mais mortes, mais gente doente e assim mesmo a humanidade não enxerga. E são festejos sem sentido, músicas altas e carnes queimando enquanto pulmões mal conseguem respirar por conta própria. São indivíduos mascarados, que tentam se esconder no meio da multidão. São corações dilacerados por todos os cantos. Empregos desfeitos, amizades perdidas enquanto governantes inescrupulosos riem e debocham da sua dor, no entanto você continua aí a endeusa-los, a venerá-los e curti-los como se eles fossem salvar de fato as suas vidas, mas na verdade o interesse deles é eminentemente cruel. Para que poupar vidas se elas pouco importam? Morrem tantas pessoas diariamente na mesma velocidade que surgem novas raízes, novos laços, novos amanhãs. E assim prosseguimos. Acreditando em milagres. Crendo em palavras de conforto e em discursos vazios. Não precisamos de hospitais, pois não temos doentes. Vamos construir arenas, pois temos torcedores e esses mesmos adeptos dos espetáculos hoje clamam por uma cama de hospital, por uma chance de um dia, quem sabe, sair e poder abraçar quem eles amam. E quando isso é impossível, a gente reflete e chega uma conclusão sem desfecho. Nada vale a pena. Nunca amei, jamais serei amado. Mas para quê pensar nisso se me resta pouco tempo? No entanto existe o prazo do outro. Haverá tempo de ser feliz, de ver sóis nascendo, nuvens formando chuvas e semeando vidas. Haverá tempo de vermos flores desabrochando, de vermos crianças correndo, de vermos nossos pais sorrindo e de enxergamos a alegria das caras sujas dos nossos antepassados. 🤩🤩🤩😍😍😍✏️✏️✏️

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FORÇA, PAULO GUSTAVO!!!

Artigos0h atrás

Eu nunca gostei do Paulo Gustavo, não como pessoa, pois não o conheço, mas como humorista, o tipo de humor dele não me agrada, mas sabe de uma coisa, o cara é corajoso. Eu não faço essa afirmação só porque ele está lutando pela vida dele, mas pela luta diária de ser um homossexual, sim. Nos dias de hoje, onde o preconceito é tido como algo super normal para muitos ele serve de espelho para iguais como ele. Muitas vezes eu fico com um pé atrás na questão da minha sexualidade. Tem horas em que me aceito numa boa, mas tem momentos em que bate aquele sentimento de culpa, e uma pergunta vem à cabeça. - Por que eu fui nascer desse jeito? Todo errado e todo certo? A resposta eu não tenho e também não me interessa. O que importa é apenas a minha felicidade e dos que estão ao meu redor: amigos e família. Ontem eu vi uma postagem falando sobre o estado de saúde do humorista citado no início desse texto, estado crítico. Um comentário bastante infeliz dizia que ele estava como estava graças a um castigo dos céus. Ser gay é viver no limite do pré julgamento alheio. É ter de aguentar doses cavalares de ignorância. É ter de enfrentar as dores e os sabores de ser "diferente", muito embora de diferente a gente não tenha nada. Mas sabe como são as coisas. Um dia você é criticado pelo o que é, e/ou pelo que você faz, nunca vai agradar 100% da sua audiência; é igual ao Paulo Gustavo que não me agrada como humorista, mas como ser humano, lutador da causa LGBT, merece sim o meu respeito e a minha torcida.

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POBRE JOSÉ

Contos0h atrás

Quando José viu o filho de bruços na calçada, com o rosto grudado no meio fio, ele se desesperou. As esperanças de um futuro melhor tinham ido para o ralo. José que acorda todos os dias às quatro da manhã, que veste sua melhor roupa, penteia os cabelos para o lado e de estômago vazio sai para trabalhar. O ônibus lotado, um pisão no pé. Na mão apenas uma sacola, dentro dela o uniforme do trabalho, uma banana e um pedaço de pão com mortadela, o que restara do dia anterior, a única coisa que ele vai comer o dia inteiro. Em casa a mulher e só um filho, esse que há tempos não frequentava mais a escola. Dezesseis anos, bigode ralinho na cara, olhos tristes e vazios, sorriso inexpressivo. Ele que vivia perambulando pelas ruas do bairro periférico. Na paisagem casas de tijolos aparentes, roupas expostas em varais improvisados, crianças correndo desembestadas por ladeiras que parecem não ter fim, idosos que apoiam suas bengalas em calçadas desniveladas; tiroteio. Que risca o céu e arrisca vidas e as tira também, sem avisar, assim, sem mais nem menos. José que de uniforme no corpo e capacete na cabeça vai pra mais um dia. O sol rachando a pele, essa ressecada, pois a empresa não fornece protetor solar. Carrinho lotado de areia, José empurra o carrinho com toda força, parece que ali ele está deixando todas as suas energias. Finda o dia. José de barriga roncando vai embora pra casa. A rotina é a mesma da ida, um sufoco. Quando desce é um alívio. Lá de baixo vê o morro e luzes estranhas rodando numa valsa mortífera. Uma viatura da polícia tira uma fina de José, ele toma um susto. Ele não sabe ainda, mas infelizmente seu filho está morto. Um tiro certeiro na cabeça, sem dar chance pra nada.

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REFÉM

Contos0h atrás

Ela despertou do pior de seus últimos pesadelos. A camisola estava molhada de suor e sua respiração era agitada; parecia que um ataque cardíaco lhe tiraria a vida naquele instante. Sentou-se na beirada da cama, na esperança de que tudo melhorasse e o sono pudesse voltar. Lembrou-se do pai que abusava dela, da mãe que sabia, mas que por medo das agressões do marido, não denunciava à polícia. Era madrugada. Uma brisa leve entrava pelas frestas da janela e um arrepio na espinha fez Elisa se contrair. Estava assustada. O medo de sair do quarto era tão grande, que ela resolveu continuar ali mesmo, ao lado de suas coisas, suas bonecas, suas pelúcias, seu desespero. A porta começou a bater. Era o vento, mas poderia ser a mão de seu pai, tentando derrubar tudo só para lhe maltratar. Seu olhar era de um azul medonho, a cor da morte, a cor da fúria, a cor de quem quer se ver livre, ser livre, se libertar. Elisa saiu da cama, de dentro da gaveta do guarda roupa tirou um lençol cor de rosa. Embrulhou-o nos braços e o segurou igual se segura um bebê e saiu. O quintal era de terra, e um abacateiro cheio de frutos jazia resplandecente diante dela, era alto o bastante para fazer o que ela imaginava. O céu estava estrelado. A lua cheia iluminava todo o horizonte e um vento gelado cortava a carne de seu corpo. Sentia-se triste, envergonhada. Lágrimas correram por seu rosto. Com a destreza de um felino Elisa subiu na árvore com o lençol em mãos e lá no alto deu um nó forte o suficiente para não ser desmanchado. Ficou ali, na beirada do galho. O olhar distante, o pensamento mais ainda. Ao fechar os olhos se lembrou das mãos do pai tocando seu corpo, acariciando seu seio pequeno e dedilhando por suas coxas; chorou, gritou e engoliu o choro e o grito. Enrolou o lençol no pescoço e como um pássaro ferido que deseja sair da gaiola, pulou, saltou e suas asas de anjo se abriram. Elisa estava livre.

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ESPELHO: A DESCOBERTA DO AMOR E DA VERDADEIRA AMIZADE

Contos0h atrás

Murilo viu sua imagem refletida no espelho e se assustou. sem a camiseta e vestindo apenas a calça do uniforme da escola percebeu uma espinha próxima do nariz, ela era horrível. seu coração disparou só de pensar nas piadas que ouviria caso os outros garotos do colégio vissem seu rosto naquele estado. apavorado tateou na gaveta algum creme, pomada, enfim, qualquer coisa que servisse para tirar aquilo da cara, mas não tinha. na gaveta apenas uma escova de cabelo suja, uma caixa com grampos e um vidro cheio de cotonetes. nos armários nada além de pasta e escovas de dente, sabonetes e desodorantes; abaixou-se para olhar na parte de baixo, mas ali só encontrou toalhas; estava frito caso não resolvesse o problema. olhou-se no espelho mais uma vez e mais e mais. e a cada olhada parecia que a espinha aumentava de tamanho e mudava de forma; um alienígena parecia querer nascer, e isso deixou murilo aterrorizado, não havia outra maneira senão usar da maneira casual, os dedos. com as mãos trêmulas foi aproximando os indicadores da acne, com os olhos apertados de horror espremeu aquilo e viu um liquido amarelado voar e acertar o espelho e em seguida escorrer, sujando tudo. desceu correndo as escadas da casa, botou a mochila nas costas, fechou a porta atrás de si, montou na velha bicicleta sem pintura e partiu rumo à escola. durante o trajeto o visual de sempre; carros saindo das garagens, ônibus se enchendo de gente, mães levando os filhos menores para escola e murilo sonhando acordado. chegando lá viu a porta do colégio lotada de gente, a grande maioria de jovens, todos em rodas, rindo e conversando. murilo desmontou da magrela, colocou-a encostado a um poste de ferro e passou a corrente antes de partir. não tinha ninguém na sala de aula além dele. foi para o seu lugar e ficou ali sentado; a mão no queixo sustentando a cabeça, o olhar perdido no horizonte. quando a sala se encheu e a professora entrou estava quase dormindo, mas despertou rápido quando um colega de sala atrevido bateu com a mão em sua carteira, murilo deu um pulo batendo a perna e derrubando tudo no chão; caíram seus lápis, uma borracha e uma caneta de tinta preta. ficou de quatro patas no chão para recolher seus objetos e teve a mão pisada pelo mesmo garoto. murilo queria gritar, mas fazer escândalo seria uma péssima ideia. então se calou, recolheu suas coisas, voltou ao seu lugar e permaneceu em silêncio; ficaria ali até acabar a aula. quando o sino tocou os alunos saíram correndo com exceção de murilo que calmamente foi guardando os cadernos e os livros dentro da mochila. porém ao sair da sala tropeçou graças a um pé calçado com tênis velho colocado em seu caminho. caiu e bateu com a boca no chão; sentiu um dente se soltar e rolar feito bola de gude, saia sangue de sua boca. quando levantou a cabeça timidamente uma orquestra sinfônica de risadas pôde ser ouvida. na mesma hora murilo quis se esconder. como seria bom ser uma tartaruga e ter a possibilidade de enfiar a cabeça no casco, mas sem essa chance o que fez foi correr. acelerou seus passos e chegou à bicicleta, retirou o cadeado e saiu a toda pela rua, o rosto cheio de lágrimas. afundou-se na cama e enterrou a cabeça no travesseiro, chorou como nunca havia chorado antes e soluçou igual uma criancinha.

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OLHOS VIDRADOS

Contos0h atrás

– Volte aqui seu irresponsável!- Lucas correu o mais depressa que pôde. Atrás dele, o padrasto, armado de faca e com os olhos injetados de sangue e fúria. No rosto gotículas de sangue e um sorriso maquiavélico se desenhava fantasmagoricamente. Lucas tremia, respirava com dificuldade e mal sabia o que fazer naquele momento. Como poderia lutar contra aquele monstro se não tinha arma alguma para tal? Encaminhou-se para floresta. Esconder-se-ia detrás de árvores e ali esperaria o assassino ir embora. Pobre Lucas, quatorze anos, espinha enfeitando a cara e hormônios a flor da pele. Sonhava com meninas e pensava estudar arquitetura na universidade perto de casa. Mas o destino lhe fora cruel. Viu o pai ser assassinado quando tinha cinco anos de idade. De chupeta na boca não compreendeu quando uns homens vestidos de cinza derrubaram a porta de sua casa, tiraram o pai que assistia televisão na sala, o levaram para fora e sem explicações lhe deram três tiros. A mãe, uma dependente química ficou sabendo da notícia, mas lotada de cocaína pouco se importou; Lucas ficou sozinho em casa, chorando, enquanto o pai morto olhava pra ele com os olhos vidrados. E não demorou muito tempo para a mãe de Lucas surgir com outro homem. Lucas, agora com sete anos ganharia irmãos e sua vida se transformaria em um verdadeiro inferno. O padrasto, um bebum fedido e ignorante entraria na vida da família para castigar os filhos e espancar a mulher, e ai daquele que ousasse dedurar seus feitos horrendos a polícia. Por tantas vezes Lucas tentou fugir. Mas a pedido da mãe o padrasto ia atrás do enteado e o achava, e quando era encontrado levava uma surra, tão forte que o menino ia para escola cheio de hematomas. Como desculpa dizia ter caído em casa, infelizmente para ele todos acreditavam até mesmo os professores.

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ADEUS, MAMÃE

Contos0h atrás

Meti meus dedos em seus cabelos, tão poucos e fracos, e segurei em sua mão; tão frágil e quase sem vida, você estava indo. De camisola, deitada na cama me olhou, com seus olhos fraquinhos que forçavam apenas para ver os rostos magros de seus familiares. Seus braços outrora fortes capinavam o mato que crescia teimoso em volta da cerca, e suas pernas faziam você correr atrás da gente e das galinhas, essas que eram servidas em uma panela grande com batatas cortadas e cenouras em rodelas finas.Mas você estava ali, prostrada, esperando pelo fim. Na cabeceira da cama um retrato da família; papai e mamãe. Você de vestido e ele de calças compridas e uma camisa xadrez, com uma gravata pendurada no pescoço; e nós seus filhos, de calças curtas e descalços, com os pés pisando na terra e com as solas sujas de tanta felicidade.Estávamos todos lá, com exceção de papai, morto numa emboscada armada por um vizinho sem coração. Mamãe sofreu demais com isso. O barulho dela derrubando a vasilha com milho pras galinhas no chão, somado ao som da queda dela ajoelhada em cima daquele cereal, mais o choro sofrido de alguém que havia acabado de perder o amor de sua vida de uma forma tão bárbara.Desse dia em diante ela não foi mais a mesma. Alimentava-se com pouca frequência. Por tantas vezes, eu e meus irmãos insistíamos em fazê-la comer, mas ela não queria. Preferia ficar sentada e muitas das vezes deitada, metida em sua camisola azul com babados costurados no pescoço do que sentar-se à mesa conosco, com seus seis filhos.As refeições eram tristes e sem fim. Como era duro não ter a senhora com a gente na mesa, de avental na cintura e com a barriga encostada na pia ou no velho fogão a lenha. Poxa mãe, reaja! Não se dê por vencida! Eu sei o quanto que o pai faz falta. Eu penso nele todos os dias e em certos momentos chego a chorar. Meu desejo hoje é um só, ver-te bem, com saúde, rindo e correndo atrás das galinhas, mas você não quer.E você estava ali, vestida como santa e com os olhos fechados, parecia um anjo que descerá dos céus e retornava para os braços do pai. Você descansou mamãe. Teus dias de sofrimento, sem papai ao teu lado se findam aqui. Nós, seus seis filhos jamais nos esqueceremos de ti. Um beijo.

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RETRATOS, RELATOS

Contos0h atrás

Retratos, relatos, um tempo que se foi e não volta mais. Lembranças boas, de pés descalços, de calças dobradas até os joelhos e de risos de caras largas. Fotos de família: mamãe comigo no colo e vovó bem do lado, e eu de cabeça virada para o alto, mal prestando atenção para a câmera. Saudade dessa época, de festejos, de aniversários, de parabéns para você e de mesas lotadas de docinhos cuidadosamente preparados e de bolo com bastante glace e recheio de doce de leite com abacaxi, em volta de isso tudo, garrafas de tubaína. É pique, é pique, é pique. A alegria tomava conta do local, a luz elétrica apagada e a luz da vela acesa, uma só, bem pequenininha iluminava tudo, palmas empolgadas, e muitas bem tímidas. No natal era a mesma coisa, só que tinha mais gente. Os tios de copos nas mãos riam desembestados. As tias de aventais na cintura e barrigas encostadas no fogão. Já as crianças corriam sem rumo, gritavam riam, brincavam, eram felizes. Quando dava meia-noite fogos de artificio, o céu todo iluminado, e felizes natais eram distribuídos, assim como presentes, abraços e desejos de felicidade. Abri outro álbum, Logo no começo vi uma foto do meu pai, na mesma fotografia estavam meus irmãos e meu avô. Os quatro estavam se preparando para irem pescar; cada um segurando sua vara de pesca e uma lata lotada de minhocas. Retratos, relatos. Muitas pessoas viraram lembranças. Vovô e vovó já estão mais aqui, as festas em família, aos finais de ano, já não existem mais. O que me resta é olhar esses retratos e relembrar com saudosismo esse tempo bom.

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SEGUNDO ATO

Contos0h atrás

No escuro da noite, na penumbra do quarto, enfiado debaixo dos cobertores ele se esconde. Medroso, inútil, um sopro de vida, um resto de nada. Na rua apenas o som das vozes distantes, dos jovens, e a respiração dos velhos dormindo em suas casas, de janelas abertas, esperando nosso senhor virem busca-los para uma eternidade tão sonhada. Coração acelerado, respiração agitada. No calor intenso debaixo dos cobertores ele sua, gotas rolam pelo rosto e molham o travesseiro velho, sujo e já sem espuma. Forrando o colchão um lençol amarelo, não pela cor natural, mas devido à falta de lavagem, ao desleixo a imundície. Seu corpo é sujo, sua alma também. Seus dentes, os poucos que ainda sobram na boca são pretos e com pedaços de restos de comida. Os cabelos não conhecem mais tesouras, a barba, suja e esbranquiçada cobre o que ainda resta de seu rosto imundo. Suas roupas estão encardidas. A camisa de cores listradas, de vermelho e branco, de azul e cinza é ainda o que sobrara de um presente dado pela família, o último; de um natal longínquo e feliz. Um rato passa por sobre ele, ele não está nem aí. Sente o cheiro de podre do animal e isso não lhe causa repulsa, talvez um pouco de ânsia, mas isso passa rápido. O ruído do bicho lhe causa arrepios na espinha. Ele se levanta, joga os cobertores no chão e com passos trôpegos caminha em direção ao nada. A janela batendo com o vento, o som do silêncio, a luz de um puteiro piscando freneticamente enquanto seu coração pula descompassado, sem compromisso. Dia seguinte segundo ato. A porta aberta, o pão empedrado em cima da mesa, uma ponta de faca com as sobras de uma manteiga embolorada. Mordida azeda, gosto de coisa estragada na boca. Ele cospe o que acabara de mastigar enquanto a barriga ronca de três dias sem nada.

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O ANJO SUICIDA

Contos0h atrás

Aqui do alto eu vejo uma moça, bonita, morena, de cabelos compridos até a cintura; magra muito magra e de olhar triste. O verde do teu olhar me desperta certa curiosidade. A linha do trem, o movimento tresloucado dos vagões indo e vindo e eu preciso decidir o destino dela. No ouvido um chamado: decida logo de uma vez. A moça sofre, eu também, pois odeio o que faço, entretanto, não tenho escolha é o destino. As mãos suam e eu vejo a moça ajeitar os cabelos para o lado. Ela senta, cruza as pernas e espera. Plataforma lotada, trem parado, gente entrando e saindo. Aqui do alto eu observo homens se aproveitando da fragilidade alheia das meninas e vejo meninas, também desfrutando de suas meiguices, pura inocência. O trem parte, gente espremida tentando sorrir pelo vidro. A moça agora de pernas descruzadas se levanta e anda lentamente pela plataforma, parece perdida. De um lado para o outro, os braços caídos ao lado do corpo magricelo, o brinco de argola balançando para lá e para cá, o sorriso se desmanchando na cara e uma lágrima escorrendo do rosto, solidão. Pego a minha flecha e aponto. O trem se aproxima velocidade total. A moça olha para os lados e não enxerga ninguém ou pelo menos sua vista não permite, está tudo tão embaçado, sem nexo algum. O corpo cai, mas ela não é atingida. A dor na nuca é terrível, o joelho ralado e um pedaço da camiseta rasgada na altura do ombro. Respiração ofegante. Gente a volta dela formando um circulo. Ela olha, ela chora. Um senhor vestido de terno e gravata e maleta preta se abaixa perto dela. Os curiosos se afastam. Tudo parece confuso. A moça aos poucos vai se levantando. Ela parece aliviada e eu também; ela vai ter uma segunda chance.

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