O Papagaio que Nunca Aprendeu a Parar

O Papagaio que Nunca Aprendeu a Parar

Havia, naquela época, uma menina que ainda não sabia que algumas coisas que chegam à nossa vida como presentes podem permanecer por muito mais tempo do que imaginamos. Era uma menina alegre, curiosa e encantada por tudo aquilo que tivesse vida, movimento ou pudesse lhe contar alguma novidade. Gostava de observar os pássaros na janela, de ouvir seus cantos e de imaginar que, se pudesse conversar com eles, certamente teria muito o que perguntar. Foi por isso que, certa manhã, sua mãe apareceu em casa carregando uma pequena caixa de madeira, cuidadosamente coberta por um pano. A menina percebeu imediatamente que havia alguma coisa diferente.

O que é? — perguntou, aproximando-se. A mãe sorriu e pediu que ela esperasse.

Quando retirou o pano, apareceu um pequeno papagaio. Era ainda jovem, de penas vistosas, olhos vivos e curiosos e um bico que parecia grande demais para o tamanho do corpo. Movia a cabeça de um lado para o outro, observando tudo ao redor com uma atenção que encantou a menina. Ela ficou alguns segundos em silêncio. Depois, abriu um sorriso tão grande que quase não conseguiu esconder a surpresa. Era seu presente. A menina se aproximou devagar, como se tivesse medo de assustá-lo. Estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, tocou de leve suas penas. O papagaio inclinou a cabeça e a observou. Ela riu. Naquele instante, decidiu que os dois seriam grandes amigos. Nos primeiros dias, porém, o papagaio ainda não dizia palavra alguma. Limitava-se a observar a casa e as pessoas que passavam por ela. Foi assim que começou a prestar atenção no pai da menina. O homem trabalhava muito e, quando chegava em casa, frequentemente continuava falando sobre o trabalho. Falava ao telefone, comentava os acontecimentos do dia, reclamava quando as coisas não saíam como esperava e comemorava quando os resultados eram bons. Havia uma palavra que aparecia com uma frequência especial em suas conversas.

Meta. O papagaio ouvia.

A meta foi atingida. O papagaio observava.

Precisamos alcançar a meta. O papagaio inclinava a cabeça.

Se não batermos a meta...

E, de tanto ouvir aquela palavra, um dia o pequeno papagaio resolveu experimentá-la. — Meta. O papagaio observava.

Precisamos alcançar a meta. O papagaio inclinava a cabeça. — Se não batermos a meta...

E, de tanto ouvir aquela palavra, um dia o pequeno papagaio resolveu experimentá-la.

Meta.

A menina, que estava por perto, arregalou os olhos.

Você falou!

 

Foi uma descoberta maravilhosa. A partir daquele momento, ela passou a acreditar que o papagaio finalmente aprenderia a falar. Passou a conversar com ele todos os dias.

Contava o que havia acontecido na escola, falava sobre as pessoas que conhecia, inventava histórias e tentava ensiná-lo palavras novas. Queria que ele dissesse seu nome. Depois tentou ensinar “bom dia”. Em seguida, “boa tarde”. Ensinou nomes de frutas, de flores, de pessoas e até algumas pequenas frases que repetia pacientemente diante da gaiola. O papagaio escutava tudo. Pelo menos, era o que parecia. Ele permanecia atento, inclinava a cabeça, piscava os olhos e, de vez em quando, abria o bico como se finalmente fosse responder. A menina esperava. Mas o que saía era sempre a mesma palavra:

Meta.

Ela achava graça. Tentava novamente.

Vamos falar outra coisa. Diga: casa. O papagaio olhava para ela.

Meta.

A menina ria.

Não. Casa.

Meta.

Amigo. — Meta.—

Papagaio! — Meta. No começo, aquilo parecia apenas uma curiosidade engraçada. A menina acreditava que, com o tempo, ele aprenderia. E o tempo passou... A menina cresceu. A pequena gaiola deixou de ocupar o quarto de criança e passou a fazer parte da casa. Vieram os estudos, os primeiros trabalhos, novas amizades, novas responsabilidades e os muitos acontecimentos que transformam uma menina em mulher. O papagaio continuava ali. Também crescera. E continuava falando. Na verdade, falava cada vez mais. Só havia um pequeno problema: continuava dizendo exatamente a mesma palavra. — Meta. O tempo, entretanto, não passou apenas para o papagaio. Mais tarde, mudou-se para outro cômodo. Depois, para um canto. E, finalmente, encontrou seu lugar mais definitivo: um canto da casa por onde quase ninguém passava. O papagaio parecia não se importar. Continuava falando.

Meta.

Falava pela manhã.

Meta.

Falava à tarde.

Meta.

Falava quando alguém passava.

Meta.

E, quando ninguém passava, falava sozinho. Os anos também levaram algumas das pessoas que haviam feito parte daquela casa. O pai da menina morreu. A mãe envelheceu e já não tinha condições de cuidar do papagaio como antes. A filha percebeu então que o velho pássaro passava cada vez mais tempo sozinho, dentro de uma gaiola que já parecia grande demais para uma vida tão pequena. Ele havia sido um presente. Um dia, fora motivo de alegria. Agora, porém, era um compromisso que ninguém sabia mais como carregar. A mulher sentia pena dele. Mas também precisava admitir uma verdade que durante muito tempo havia evitado: o papagaio estava envelhecendo, estava sozinho e, para completar, continuava falando sem parar sobre a mesma coisa.

Meta.

Foi então que ela decidiu procurar alguém que pudesse ficar com ele. Talvez outra casa. Talvez outra pessoa. Talvez alguém que ainda tivesse paciência para ouvi-lo. E, pela primeira vez em muitos anos, a gaiola saiu daquele canto esquecido da casa. O papagaio não sabia, mas estava prestes a conhecer novamente o mundo. Ou, pelo menos, outra gaiola. A loja ficava numa rua antiga, espremida entre outras construções que pareciam ter esquecido de acompanhar o tempo. Era uma daquelas lojas em que nunca se sabia exatamente o que estava à venda. Havia gaiolas, vasos, brinquedos antigos, objetos sem utilidade aparente, ferramentas enferrujadas, pequenas estátuas, caixas empilhadas e tantas quinquilharias que até a poeira parecia ter encontrado ali um lugar permanente para morar. Atrás do balcão ficava o proprietário. Era um homem igualmente antigo.

Tinha o cabelo ralo, os óculos sempre escorregando pelo nariz e um avental que provavelmente já havia pertencido a outro dono da loja — talvez até a outro século. Conhecia cada objeto daquele lugar, embora ninguém soubesse explicar exatamente para que servia a maioria deles. Quando a mulher entrou carregando a gaiola, ele levantou os olhos do jornal. Olhou para o papagaio. Depois, para a mulher.

Velho? — perguntou.

Bastante.

Fala?

Muito.

O homem se aproximou. O papagaio inclinou a cabeça.

Meta.

O proprietário ficou alguns segundos em silêncio. — Só isso? A mulher deu de ombros. — Basicamente. O homem olhou novamente para o animal. Depois para a gaiola. Por fim, abriu a porta.

Pode deixar. Ela agradeceu.

O papagaio entrou para o novo estabelecimento sem saber que havia acabado de mudar de dono. O proprietário também não sabia que acabara de adquirir gratuitamente o animal mais caro que aquela loja já teria mantido: aquele que lhe custaria a paciência.

Durante os primeiros dias, o dono da loja acreditou ter feito um excelente negócio. Afinal, havia recebido um papagaio sem pagar nada por ele. Mandou limpara gaiola, colocou o velho pássaro na vitrine e esperou. Talvez aparecesse alguém procurando um papagaio. Nos primeiros dias, algumas pessoas pararam diante da vitrine. Olharam. Comentaram sobre a idade. Algumas riram ao perceber que o pobre animal tinha poucas penas na cabeça. Mas ninguém perguntou quanto custava. E o papagaio, sempre que alguém se aproximava, fazia questão de participar da conversa.

Meta.

O dono da loja tentou explicar algumas vezes:

Ele fala.

Meta.

Fala bastante.

Meta.

É um papagaio muito comunicativo.

Meta.

Com o passar dos dias, o entusiasmo do proprietário começou a diminuir. O papagaio foi deixando a vitrine. Primeiro, foi colocado perto da porta. Depois, em uma prateleira lateral. Como continuava sem despertar interesse, acabou sendo levado para uma parte mais afastada da loja. Ali ficou por algum tempo, entre caixas antigas, gaiolas vazias e objetos que ninguém comprava havia anos. Mas havia um problema. A loja era pequena. E, por mais que o proprietário tentasse afastá-lo, a voz do papagaio parecia encontrar todos os cantos.

Meta.

O homem continuava trabalhando.

Meta.

Tentava ler o jornal.

Meta.

Fazia contas.

Meta.

Almoçava.

Meta.

Fechava os olhos por alguns minutos.

Meta.

Até que, depois de tantas tentativas de esconder o velho papagaio, ele acabou cometendo um erro de cálculo: colocou a gaiola justamente perto de seu próprio balcão. A partir daquele dia, o proprietário passou a trabalhar acompanhado. Muito acompanhado.

Meta.

De manhã.

Meta.

Antes do almoço.

Meta.

Depois do almoço.

Meta.

No fim da tarde. O homem começou a responder ao papagaio.

Eu sei!

Meta.

Não quero saber da meta!

Meta.

Você não conhece outra palavra?

Meta.

O proprietário passou a desconfiar de que o papagaio fazia aquilo de propósito. Talvez fosse vingança. Talvez fosse loucura. Talvez fosse simplesmente um papagaio velho. Depois de algumas semanas, chegou à conclusão de que não importava. Precisava se livrar dele. O proprietário era um homem de velhos hábitos. Todas as manhãs, antes de abrir a loja, sentava-se atrás do balcão com uma xícara de café e lia o jornal de ponta a ponta. Foi justamente numa dessas manhãs que teve uma ideia. Depois de ouvir “meta” pela enésima vez, abriu a seção de classificados. Pegou uma caneta. Escreveu: “DOA-SE PAPAGAIO VELHO”. Olhou para a frase. Riscou. Tentou novamente. “PAPAGAIOCOM POUCAS PENAS PROCURA NOVO DONO”. Riscou também. Aquilo parecia pouco comercial. Pensou mais um pouco. Então escreveu: “PAPAGAIO MADURO, DE EXCELENTE INTELIGÊNCIA E GRANDE CAPACIDADE DE COMUNICAÇÃO”. Parou. Gostou. Acrescentou: “LONGA EXPERIÊNCIA EM AMBIENTES DE TRABALHO E GRANDE FAMILIARIDADE COM METAS E RESULTADOS”. Leu novamente. Agora sim. Não era um papagaio velho. Era um papagaio maduro e experiente. Não tinha poucas penas. Tinha uma aparência distinta e respeitável. Não repetia uma única palavra. Tinha excelente capacidade de comunicação. E, principalmente, não falava obsessivamente sobre trabalho. Era um papagaio com experiência em metas e resultados. Mandou o anúncio para o jornal. O papagaio inclinou a cabeça. O proprietário terminou de escrever.— Pronto.

Meta.

O homem respirou fundo. Talvez tivesse finalmente encontrado uma maneira de se livrar dele. Ou, como preferia pensar, uma maneira de encontrar o dono certo para um papagaio tão inteligente. Alguns dias depois, uma mulher parou diante da vitrine. Era bonita, bem-arrumada e vinha acompanhada da filha, uma menina pequena que imediatamente se encantou com o velho papagaio. A mulher leu o anúncio com atenção. “PAPAGAIO MADURO, DE EXCELENTE INTELIGÊNCIA E GRANDE CAPACIDADE DE COMUNICAÇÃO.” Olhou para a filha. Depois, para a gaiola. Parecia uma ótima oportunidade. Um bichinho para a menina sem custo, e ainda por cima descrito como inteligente, experiente e comunicativo. — Podemos levar?— perguntou a menina. A mãe sorriu. Pouco depois, o papagaio deixava a loja. O proprietário ficou parado na porta, acompanhando a gaiola até desaparecer na esquina. Sentiu uma alegria que não experimentava havia semanas. Finalmente, silêncio. Voltou para dentro da loja, respirou fundo e, pela primeira vez em muito tempo, conseguiu tomar seu café sem ouvira palavra “meta”. Naquela casa, o papagaio foi recebido como um verdadeiro presente. A menina ficou encantada. Lembrou-se, sem saber, de tantas outras crianças que um dia haviam recebido aquele mesmo papagaio com a esperança de encontrar um companheiro divertido e falante. Colocou a gaiola perto de seu quarto e passou a conversar com ele todos os dias. Tentou ensinar seu nome. Depois, “bom dia”. “Amigo”. "Casa”. “Brincar”. O papagaio escutava.

— Amigo.

Meta.

A menina riu na primeira vez. Na segunda, achou estranho. Na terceira, já não teve tanta graça. Ela insistiu durante alguns dias. Inventava palavras, fazia perguntas, contava histórias. Mas recebia sempre a mesma resposta.

Meta.

Até que deixou de tentar. O que antes parecia um presente divertido começou a ocupar um espaço que ninguém sabia mais muito bem como preencher. A gaiola saiu do quarto. Depois foi para outro cômodo. Até encontrar, mais uma vez, um lugar distante da casa. O papagaio permaneceu ali. Mais velho. Com menos penas. E com a mesma palavra. — Meta. A primeira mulher tentou devolver o papagaio depois de algum tempo. Não foram alguns dias. Durante meses, tentou fazer com que ele se adaptasse à nova casa. No começo, ainda tinha esperança. Conversava com ele, colocava a gaiola em lugares diferentes, chamava-o pelo nome e procurava novas maneiras de entretê-lo. A menina também insistia. Tentava ensinar palavras novas, como aquela primeira menina havia feito tantos anos antes. Mas o resultado era sempre o mesmo. — Meta. Com o passar dos meses, a menina perdeu o interesse. O papagaio deixou de ser novidade e passou a ser apenas mais uma presença dentro da casa. A gaiola saiu do quarto. Depois foi para outro cômodo. Até acabar novamente em um canto mais afastado. Foi então que a mulher percebeu que não conseguiria fazê-lo diferente. Voltou à loja com a gaiola nas mãos.

Ele não deu certo.

O proprietário olhou para o papagaio. Depois, para a mulher.

Mas a senhora o levou por livre e espontânea vontade.

Eu sei.

E ele estava “funcionando” quando saiu daqui. A mulher respirou fundo. — Funcionando?

Falando. O papagaio, como se quisesse confirmar o diagnóstico, inclinou a cabeça.

Meta.

O proprietário fechou os olhos por um instante. — Não posso aceitar de volta. Sem saber muito bem o que fazer, a mulher voltou para casa com o papagaio. Naquela mesma noite, abriu o jornal e procurou a seção de classificados. Se o anúncio havia conseguido tirar o papagaio daquela loja, talvez conseguisse tirá-lo também de sua casa. Escreveu: “DOA-SE PAPAGAIO”. Pensou um pouco e acrescentou: “Papagaio velho, manso e falante. Gratuito”. Depois de alguns minutos, acrescentou ainda: “Ideal para companhia”. Leu o anúncio. Parecia suficientemente convincente. Na manhã seguinte, alguém telefonou.

Era uma mulher. Morava sozinha. Já havia passado dos quarenta e, na opinião dela, aquela idade começava a carregar um peso que ninguém mencionava quando se era mais jovem. Durante a vida, tivera algumas decepções. No trabalho. Nas amizades. E, principalmente, no amor. Nenhuma das histórias havia terminado como imaginara.

Talvez por isso tivesse aprendido a não esperar muito. Era uma mulher alta e esbelta, de movimentos delicados e mãos habilidosas. A pele, de um tom moreno suave, contrastava com a delicadeza dos gestos e com a luz que entrava pela janela. Tinha a paciência que parecia existir apenas para as coisas que podiam ser consertadas, costuradas ou transformadas. Os cabelos escuros permaneciam quase sempre presos em um coque alto, cuidadosamente arrumado. Mas havia algo nela que nenhum cuidado conseguia esconder. Os olhos eram fundos e tristes. Não exatamente cansados. Vazios. Como se, depois de tantas decepções, tivesse deixado de esperar que alguma coisa realmente nova pudesse acontecer.

Quando chegou para buscar o papagaio, olhou demoradamente para ele.

A primeira impressão não foi das melhores. Era velho. Muito velho. Tinha poucas penas e uma aparência que estava longe daquela imagem de companheiro alegre que ela havia imaginado. Por alguns instantes, ficou em dúvida. Será que aquele papagaio serviria mesmo como companhia? Será que teria paciência? E, principalmente, será que ainda haveria tempo para ensinar a ele algumas palavras novas? Olhou novamente para a gaiola. Talvez fosse justamente disso que ela precisasse: de alguma coisa que ainda pudesse aprender. Aceitou o papagaio. A mulher ficou com o papagaio por alguns meses.

No começo, tentou tratá-lo como companhia. A gaiola foi colocada em um espaço intermediário da casa, onde ele pudesse vê-la passar e onde ela pudesse conversar com ele sem precisar se aproximar o tempo todo. Não era o quarto. Também não era exatamente o lugar mais importante da casa. Era apenas um espaço entre os cômodos, um lugar onde o papagaio pudesse ficar sem atrapalhar. Mas não demorou muito para que até aquele lugar começasse a parecer grande demais para a voz dele.

— Meta. Pela manhã. — Meta. Enquanto ela preparava o café. — Meta. Quando saía para o trabalho. E, quando voltava, depois de um dia inteiro de trabalho, cansada, exausta e querendo apenas alguns minutos de silêncio:

Meta.

A princípio, ela ainda tentava conversar.

Você não sabe dizer outra coisa?

Meta.

Não existe outra palavra nesse seu bico?

Meta.

Pelo amor de Deus...

Meta.

Foi entãoque a gaiola começou a ser deslocada. Primeiro, alguns metros.Depois, para um canto mais distante.Mais tarde, para uma parte da casa onde ela pudesse fechar uma porta e, por alguns instantes, não ouvir aquelavoz. Mas o papagaio continuava. — Meta. Ela trabalhava o dia inteiro.Chegava em casa exausta. tentavamexer nas suas costuras, algumas começadas, outras inacabadas.

Meta. Tentava assistirtelevisão.

Meta. Tentava ler.

Meta. Tentava dormir.

Meta.

Depois de alguns meses, já começava a desconfiar que estava perdendo a razão. O problema não era apenas o papagaio falar demais. Era falar demais dizendo sempre a mesma coisa. Ela já sabia que ele era velho. Já sabia que tinha poucas penas. Já sabia que provavelmente não aprenderia muitas palavras novas. Mas não havia imagina do que uma única palavra pudesse ocupar tanto espaço dentro de uma casa. Até que, certa noite, chegou ao limite. Parou diante da gaiola e ficou olhando para ele. O papagaio inclinou a cabeça. — Meta. Ela fechou os olhos. Respirou fundo. Pela primeira vez, pensou seriamente em devolvê-lo. Na manhã seguinte, pegou a gaiola e foi até a loja. Queria apenas deixar o papagaio novamente com o dono. Mas o proprietário não pareceu nem um pouco disposto a recebê-lo.

De novo?

Ela confirmoucom a cabeça.

Eu não posso ficar com ele.

A senhora sabia que ele era velho.

Eu sabia.

E que falava.

Sabia.

O homem olhou para o papagaio. — Então qual é o problema? A mulher respondeu, quase sem forças: — Ele fala demais. O papagaio inclinou a cabeça. — Meta. Ela fechou os olhos. O proprietário apontou para a porta. — Não posso aceitar. A mulher saiu dali com a gaiola nas mãos. E foi nesse momento que percebeu que tinha um problema muito maior do que imaginava. Não sabia para onde levar aquele papagaio.

Quem iria querer um animal velho, quase sem penas, que falava o tempo inteiro e conhecia apenas uma palavra? Ela olhou para a gaiola.

O papagaio olhou para ela. — Meta.

Naquele instante, teve certeza de que precisava encontrar outra pessoa. E rápido. Foi depois de muitos anos que o papagaio encontrou sua próxima casa. A mulher que o recebeu era diferente das outras. Ainda era jovem. Tinha uma vida movimentada, trabalhava, fazia planos, gostava de sair, de viajar, de conversar e de imaginar que sempre havia alguma coisa nova esperando por ela.

Era daquelas pessoas que dificilmente permaneciam muito tempo paradas. Durante muitos anos, havia acreditado que a vida seguiria exatamente o caminho que imaginara. Mas nem tudo aconteceu como planejado. Alguns sonhos se realizaram. Outros mudaram de forma. E alguns simplesmente desmoronaram pelo caminho. Com o passar dos anos, a casa antes bagunçada, com vida, risadas, brigas foi ficando mais silenciosa. Não de uma vez. Primeiro, desapareceram alguns sons. Depois, alguns hábitos. Depois, algumas presenças. Até que ela percebeu que havia espaços demais dentro de casa. Espaços que antes eram preenchidos por planos, conversas, risadas e expectativas. Agora estavam apenas ali. Vazios. Ela continuava vivendo.

Trabalhava, saía, encontrava pessoas, fazia seus projetos e mantinha a rotina. Mas havia dia sem que, ao voltar para casa, percebia o silêncio antes mesmo de tirar os sapatos. Foi numa dessas noites que encontrou o anúncio. Estava entre tantos outros classificados do jornal. “DOA-SE PAPAGAIO”. Ela quase passou adiante. Depois voltou. Leu novamente. Papagaio velho. Manso. Falante. E o melhor, gratuito. Ficou alguns segundos olhando para o anúncio. Não precisava de um papagaio.

Na verdade, nunca havia pensado em ter um. Mas havia alguma coisa naquela pequena descrição que lhe despertou curiosidade. Talvez fosse a ideia de companhia. Talvez fosse simplesmente o fato de que, naquele momento, ela também não queria que sua casa permanecesse tão silenciosa. Ligou. E, alguns dias depois, foi conhecer o papagaio. Quando finalmente viu o papagaio, a mulher precisou conter um pequeno Sorriso.

O anúncio havia sido generoso. Ele era mais velho do que imaginara. Tinha poucas penas na cabeça, algumas falhas pelo corpo e uma aparência que não combinava exatamente com a ideia de um animal alegre e cheio de vida. Era, na verdade, um papagaio bastante gasto pelo tempo.

Ela ficou alguns instantes observando-o. Ele também a observou. Inclinou a cabeça.

— Meta. A mulher sorriu. Não porque tivesse achado graça. Mas porque, naquele momento, percebeu que já conhecia a única palavra que ele sabia dizer.

Então é você.

O papagaio permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois: — Meta. Ela riu. — Está bem.

Vamos começar por aí. E levou o papagaio para casa. Ao contrário das outras mulheres, não procurou um canto onde pudesse deixá-los em atrapalhar. Também não o colocou no quarto. Escolheu para ele um dos melhores lugares da casa. A gaiola ficou em um espaço amplo, iluminado, próximo às janelas e às plantas, onde recebia luz durante o dia e podia acompanhar o movimento da casa. Era quase um destaque na decoração. Um visitante que ninguém esperaria encontrar ali.

A gaiola era bonita. O papagaio, nem tanto. Velho, depenado e com aquele ar de quem já havia passado tempo demais dentro de outras gaiolas, parecia uma peça antiga cuidadosamente colocada entre objetos muito mais novos. Ainda assim, ela gostava da presença dele. Achava curioso aquele contraste. Uma criatura tão velha ocupando um lugar tão nobre. E, talvez por isso mesmo, decidiu que não iria tratá-lo como um animal condenado a repetira mesma palavra para sempre. Ela tinha estudado. Lido muito. Conhecido lugares diferentes.

Viajava sempre que podia. Gostava de aprender coisas novas e acreditava que quase tudo podia ser transformado quando alguém tivesse paciência suficiente para tentar. Se aquele papagaio havia aprendido uma palavra, então poderia aprenderoutras. Talvez ninguém tivesse encontrado a maneira certa de ensiná-lo. Talvez tivesse faltado tempo. Ou paciência. Ou simplesmente alguém disposto a começar de onde ele estava. E ele estava ali. A única palavraque conhecia era: — Meta.Ela não tentoutirá-la dele. Ao contrário. Começou por ela. — Meta — repetiu.O papagaio inclinoua cabeça. — Meta.

Muito bem. Ela apontou para uma flor.

Flor.

Meta.

Ela tentou novamente.

Flor.

Meta.

A mulhersorriu. Não se irritou. Tentououtra vez.

Viagem.

Meta.

Música.

Meta.

Livro.

Meta.

Ela riu. Talvez fosse mais difícil do que imaginara. Mas não desistiu. Naquela noite, enquanto fechava as janelas da casa, olhou para o velho papagaio instalado no melhor lugar da sala. Ele parecia perfeitamente satisfeito. — Você vai aprender — disse ela. O papagaio olhou para ela. E respondeu:

Meta.

Ela sorriu. Talvez aquela fosse a primeira vez que alguém não tivesse ouvido aquela palavra como uma resposta. Para ela, era apenas o começo de uma conversa. A mulher passou alguns dias pensando no velho papagaio. Talvez tivesse cometido um erro. Talvez ele não fosse incapaz de aprender. Talvez tivesse passado tempo demais preso. Durante toda a vida, havia sido levado de uma casa para outra, de um cômodo para outro, de um canto para outro. Sempre dentro de uma gaiola. Sempre ouvindo as mesmas vozes.

Sempre vendo praticamente as mesmas coisas.E se o problema não estivesse nele? E se fossea falta de mundo? A ideia começoua parecer tão simples que ela se perguntou por queninguém havia tentadoantes. Talvez o papagaio precisasse sair. Precisasse ouvir outras pessoas. Conhecer outros lugares. Descobrirque existiam palavrasalém daquelas que aprendera nos primeiros anos de vida.Foi assim que, certa manhã,ela abriu a porta da gaiola. O papagaio permaneceu parado. Olhou para fora. Depois olhou para ela.

Meta.

Ela riu. — Não. Hoje não. Levou-o consigo.Nos primeiros passeios,as pessoas achavam graça. Um papagaio velho, quase sem penas, andando por aí com uma mulher que parecia ter saído de uma revistade viagens. Alguns paravam. Outros perguntavam sua idade. Alguns tentavam conversar.

Como você se chama? O papagaio inclinava a cabeça.

Meta.

As pessoasriam. A mulhertambém. E, pela primeira vez, ela percebeuque talvez estivesse certa. Quanto mais pessoas encontravam o papagaio, mais palavras ele ouvia. Em uma praça, alguém disse:

Flor. O papagaiorepetiu:

Flor. A mulher quase não acreditou.

Você ouviu? O papagaio respondeu:

Meta flor.

Ela sorriu.Era pouco. Mas era algumacoisa. Em outro passeio, uma criança ensinou:

Bola.

Bola.

Depois:

Cachorro.

Cachorro.

Rua.

Rua.

A mulher voltou para casa naquela tarde encantada. Ele estava aprendendo. Devagar, muito devagar, mas estava. Nos dias seguintes, novas palavras começaram a aparecer. Algumas vinham das pessoas. Outras dos lugares. Outras simplesmente dos sons que ele ouvia pelo caminho. O vocabulário crescia. Pequeno. Desajeitado. Mas crescia. Ela começou a anotar as palavras nova sem um caderno.

Flor. Bola. Rua. Cachorro. Viagem. Música. Livro.

Ela estava orgulhosa. Talvez, afinal, o velho papagaio só precisasse de uma oportunidade. Até que percebeu uma coisa. Por mais palavras que aprendesse, por mais lugares que conhecesse e por mais pessoas que encontrasse, havia uma palavra que aparecia no final de quase todas as frases. Aquela que ele aprendera primeiro.

Aquela que nunca haviaesquecido. Aquela que parecia ter sobrevivido a todas as casas, todas as gaiolas e todos os anos.

Meta.

O progresso continuou. Devagar, o papagaio passou a aprender pequenas frases. Nada muito elaborado. Primeiro, repetia aquilo que ouvia das pessoas.

Bom dia.

Depois: — Que bonito. E, certa vez, depois de ouvir alguém comentarsobre uma viagem:

Quero viajar. A mulher quase bateu palmas.

Muito bem!

O papagaio parecia orgulhoso de si mesmo. Mas então acrescentou:

— Quero viajar. Meta. Ela ficou alguns segundos em silêncio. Depois começou a rir. — Não era isso que eu queria dizer.

O papagaio inclinou a cabeça.

— Não era isso que eu queria dizer. Meta.

Ela riu novamente. No começo, aquilo era divertido.

Ele começava a construir pequenas frases, mas sempre encontrava uma maneira de colocar a palavra no final.

Que dia bonito. Meta.

— Vou tomar café. Meta.

— Quero conhecer o mar. Meta.

— Gosto dessa música. Meta.

— Vamos passear. Meta.

Às vezes, a palavra aparecia no meio. — Eu quero meta viajar. Ou simplesmente surgia onde não fazia sentido algum.

A flor é muito bonita meta. A mulher corrigia.

Sem “meta”.

Sem meta.

Ela sorria.— Isso! O papagaio esperavaalguns segundos.

Sem meta. Meta. Ela ria. Ele aprendia. E ela ensinava.Ensinava nomes de lugares, comidas,

músicas, animais, objetos, sentimentos. Quando viajavam, fazia questão de apresentar coisas novas.

Montanha.

Montanha.

Mar.

Mar.

Museu.

Museu.

Liberdade.

O papagaio ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu:

— Liberdade. Meta.

Ela parou. Olhou para ele. E, dessa vez, não riu imediatamente. Havia alguma coisa naquela resposta que parecia mais difícil de ensinar. Mas não desistiu. Ao contrário. Quanto mais palavras ele aprendia, mas ela acreditava que conseguiria fazê-lo abandonar aquela velha palavra.

Passou a transformar o aprendizado em brincadeira. Depois, em exercício. Depois, em hábito. Tinha cadernos. Listas. Pequenas frases escritas em cartões espalhados pela casa. Ela apontava para uma palavra. Ele repetia. Ela fazia uma pergunta. Ele respondia. Ela corrigia. Ele tentava novamente. Às vezes acertava. Às vezes inventava. E, quase sempre, terminava com:

Meta.

Com o passar do tempo, a mulher percebeu que estava dedicando ao velho papagaio muito mais tempo do que havia imaginado. Mas ainda tinha esperanças. Acreditava que, se ele havia passado tantos anos aprendendo apenas uma palavra, talvez precisasse de muitos anos para aprendera deixá-la para trás. E ela tinha paciência. Ou pelo menos acreditava que tinha. Por enquanto... Com o tempo, o papagaio realmente aprendeu.

Aprendeu palavras novas, pequenas frases, nomes de lugares, objetos, pessoas e até algumas expressões que ouvia nas conversas. No começo, aquilo encantava. A mulher tinha orgulho de mostrar o que ele havia aprendido. Mas havia uma consequência que ela não havia previsto. O papagaio também estava aprendendo com as pessoas. E, entre uma palavra e outra, parecia ter aprendido algo que não estava em nenhum dos exercícios dela: a inconveniência. Começou a falar em momentos inadequados.

Interrompia conversas. Comentava o que ouvia. Repetia frases que alguém havia dito minutos antes. Às vezes, fazia perguntas que ninguém havia feito a ele. Outras vezes, simplesmente falava. Falava muito. No começo, todos achavam engraçado.

Que papagaio esperto!

Olha como ele conversa!

Ele entende tudo!

A mulher sorria. Explicava que ele havia aprendido muitas palavras depois que começara a sair de casa. Mas, pouco a pouco, a novidade foi perdendo a graça. O que parecia inteligência começou a parecer falta de noção. Em uma conversa mais séria, ele interrompia. Em um jantar, comentava. Quando chegava alguém novo, fazia questão de participar. E, quando alguém tentava ignorá-lo, falava ainda mais.

Você viu?

Viu o quê?

Eu vi.

O quê?

Meta.

A mulher começou a se sentir constrangida. Primeiro, deu uma chance. Depois, outra. Tentou ensiná-lo que nem toda conversa precisava da participação dele. Que algumas perguntas não precisavam de resposta. Que havia momentos para falar e momentos para simplesmente ouvir. Mas até para ensinar silêncio era preciso fazê-lo parar de falar. E isso parecia impossível. O que antes fazia as pessoas rirem agora fazia algumas delas trocarem olhares.

A mulher começou a perceber que precisava pensar duas vezes antes de levá-lo a algum lugar. Não porque tivesse vergonha dele. Mas porque já não sabia o que ele poderia dizer. E foi então que tomou uma decisão que lhe custou admitir. Talvez fosse melhor tirá-lo de circulação por algum tempo. Não abandoná-lo. Não devolvê-lo.

Apenas protegê-lo — e proteger também a paz das pessoas ao redor.

O velho papagaio havia finalmente aprendido muitas palavras. O problema era que ninguém havia conseguido ensiná-lo quando usá-las. Durante algum tempo, a mulher deixou o papagaio mais afastado da casa. Não o colocou em uma gaiola esquecida, como havia acontecido tantas vezes antes.

Meta.

O papagaio continuava envelhecendo. As poucas penas que ainda tinha iam ficando mais ralas. Passava mais tempo parado. Às vezes, dormia durante a tarde. E, pela primeira vez, ela percebeu que aquele velho animal não ficaria para sempre. Isso a entristeceu. Afinal, entre tantas casas, tantas gaiolas e tantas pessoas que haviam tentado mudá-lo, ele havia encontrado nela alguém que permanecera. E ela também havia encontrado nele uma companhia que, de um jeito torto, havia preenchido parte daquele vazio. Certa manhã, abriu a gaiola e sentou-se ao lado dele. Não levou cartões. Não levou livros. Não levou listas de palavras. Não tentou ensinar nada. Apenas ficou ali.

Você sabe que eu tentei muito, não sabe? O papagaio olhou para ela.

Sim.

Ela sorriu. Era uma palavra simples. Sem meta. — E você aprendeu bastante. O papagaio permaneceu quieto. O olhar vazio, tinha perdido o brilho curioso de outrora. Ela passou a mão delicadamente sobre suas poucas penas.— Só não aprendeu a hora de parar de falar. Ele inclinou a cabeça.

Aprendi.

Ela riu. Foi uma risada pequena, quase triste. — Aprendeu mesmo. Ficaram em silêncio por alguns minutos. Então o papagaio olhou pela janela. Havia árvores do lado de fora. O vento movimentava as folhas. E, pela primeira vez, ele não disse nada. A mulher pensou que talvez aquele fosse o melhor aprendizado de todos. Não era preciso falar o tempo inteiro para estar presente.

Alguns dias depois, o velho papagaio morreu. Ela encontrou a casa estranhamente silenciosa naquela manhã. Silenciosa demais. Durante algum tempo, permaneceu parada diante da gaiola vazia. Depois abriu a janela. O vento entrou. Ela olhou para o lugar onde ele costumava ficar e percebeu que, apesar de todas as dificuldades, não se arrependia de tê-lo levado para casa. Ele havia aprendido palavras. Ela havia aprendido paciência. E os dois, de alguma maneira, haviam aprendido que companhia não significa necessariamente concordar, corrigir ou mudar alguém. Às vezes, significa apenas permanecer. Ela fechou os olhos por um instante. E, quase esperando ouvir aquela voz pela última vez, murmurou: — Meta. Nada respondeu. A mulher sorriu. Talvez, finalmente, o velho papagaio tivesse encontrado uma palavra nova: silêncio.

 

 

13/09/2026 Claudia M. Chiarion

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