Até quando o corpo aguenta?

Crônicas
10d atrás

O dia começa antes que o sol tenha decidido nascer por inteiro. Há corpos que despertam com o barulho do despertador; outros, com uma inquietação antiga, dessas que não se resolvem com uma noite de sono. O cansaço, às vezes, chega antes mesmo dos compromissos. Já está sentado à beira da cama, esperando. Lá fora, a cidade cumpre seus horários. Os ônibus seguem lotados, as pessoas atravessam as ruas apressadas, os estudantes carregam mochilas, livros e expectativas. Tudo parece obedecer a uma ordem silenciosa: levantar, produzir, aprender, vencer. Como se viver fosse uma competição em que ninguém pudesse pedir alguns minutos de descanso sem correr o risco de ficar para trás. No caminho até a universidade, repetem-se as mesmas paisagens, os mesmos rostos, as mesmas músicas nos fones de ouvido. Há dias em que uma canção abre uma fresta por onde escapa tudo aquilo que se passou semanas tentando conter. Os olhos marejam sem autorização. Não é exatamente tristeza. Ou talvez seja. Há sentimentos que se acumulam tanto que já não sabem por qual nome responder. Em algum lugar dentro de si, alguém procura Deus. Não necessariamente o Deus das respostas prontas, das frases penduradas nas paredes ou das promessas de que tudo acontece por uma razão. Procura-se uma presença. Um sinal de que o sofrimento não tornou o mundo completamente indiferente. E, quando nem a fé consegue silenciar as perguntas, resta o espanto de continuar perguntando: Senhor, estás aí? A doença tem uma maneira cruel de alterar o tamanho das coisas. O que para muitos é apenas mais uma manhã, para alguém pode ser uma negociação difícil com o próprio corpo. Levantar, tomar os medicamentos, controlar os efeitos colaterais, suportar a dor, organizar os horários, comparecer às aulas. Tudo isso antes mesmo de começar a tarefa que os outros verão.

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Segunda a Laura...

Crônicas
37d atrás

Olha, se o destino quiser colocar um abismo gigante entre nós e a distância virar uma parede que eu não consigo quebrar; se os meus dias virarem um deserto completo onde a única coisa que eu consigo ouvir seja o sol gritando comigo, onde eu não escuto a sua voz e onde esse silêncio parece que nunca vai ter fim, eu juro que a minha alma não vai se perder de você. Mesmo que o tempo me castigue e exija uma paciência que eu mal tenho, mesmo que eu sinta um aperto absurdo no peito vendo as horas passarem devagar, quase parando, enquanto eu enfrento essa sua ausência... eu vou aguentar. Eu preciso de você de um jeito que nem sei explicar, é uma necessidade que consome cada pensamento meu. Posso ter que esperar o momento que for, até você finalmente me aceitar por inteiro, mas saiba que cada batida do meu coração no meio desse desespero vai ser um grito para o mundo de que eu não vou te esquecer. Porque o que eu sinto por você não é algo que o tempo leva ou que a calmaria apaga. É uma paixão avassaladora, daquelas que mudam a vida da gente para sempre, escrita na minha própria história. Não existe distância no universo capaz de mudar essa verdade, nem tempo no relógio que consiga fazer o que eu sinto diminuir. Que o mundo continue girando doido aí fora, cheio de incertezas, porque a minha única certeza absoluta nessa vida é você. Ainda que eu tenha que te esperar por uma vida inteira, ou por cem vidas, eu; para sempre, Laura, vou te amar. Ass: Abidiel V.

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A primeira vez que meu silêncio falou

Crônicas
44d atrás

Eu não sabia que o silêncio também podia ser lembrança. Mas a primeira vez que vi o meu, ele veio pesado, como se carregasse anos que eu nunca tinha vivido — e, ainda assim, me pertenciam. Aconteceu numa roda de conversa, num sábado abafado, quando me convidaram para um encontro comunitário no bairro vizinho. Eu fui achando que seria só troca de ideias, algo simples. Cheguei com meu caderno de anotações, minhas palavras prontas e aquela confiança que a gente aprende a ter quando sempre foi ouvida. Mas bastou eu me sentar no círculo para sentir que havia algo diferente. As pessoas ali falavam com uma verdade que não cabia em estatísticas, nem em frases de impacto. Eram histórias abertas como feridas recentes e, ao mesmo tempo, tão antigas quanto a rua de terra onde o encontro acontecia. Uma mulher contou que o filho tinha sido parado pela polícia mais vezes do que tinha idade para entender injustiça. Um rapaz disse que atravessava a cidade como quem atravessa um campo minado — qualquer movimento podia ser interpretado como ameaça. Outra contou que estudava com medo do olhar dos professores, porque parecia que esperavam sua queda antes do seu acerto. Enquanto eles falavam, eu sentia algo em mim se deslocar. Como se uma peça interna, colocada desde sempre no lugar errado, finalmente estivesse tentando se ajustar. Eu quis dizer algo bonito. Quis apoiar, comentar, mostrar que eu estava ali por inteiro. Mas as palavras, antes tão prontas, travaram na garganta. E naquele silêncio — naquele instante absoluto — eu vi, pela primeira vez, o tamanho do espaço que sempre ocupei sem perceber. Percebi que eu caminhava em ruas abertas enquanto eles respiravam entre muros. Que eu vivia distraída num terreno onde eles precisavam calcular cada passo. Que a minha liberdade, confortável e tranquila, era o sonho distante de tanta gente. A vergonha veio primeiro — uma vergonha mansa, não humilhante, mas lúcida. Depois veio uma espécie de luto, como se eu estivesse me despedindo de uma versão ingênua de mim mesma. E, por fim, veio o entendimento: às vezes, o mais justo é sair do centro da frase. O silêncio era o meu lugar naquela hora. Não porque eu não tivesse o que dizer, mas porque, pela primeira vez, eu entendi que não precisava ser a dona da resposta. Eu ouvi. E ouvir doeu mais do que falar. Mas também me abriu. Quando o encontro acabou, voltamos todos caminhando pela rua de terra. Eu reparei em coisas que nunca tinha reparado: a casa com as janelas sempre fechadas, o terreno onde crianças brincavam com latinhas, o cachorro que seguia cada grupo como quem guarda histórias. Percebi que o mundo deles tinha cor, cheiro, ritmo — e que, mesmo tão perto do meu, eu nunca tinha realmente visto. Naquela noite, escrevi no meu caderno, com a mão trêmula: "Hoje, meu silêncio falou. E o que ele disse não foi conforto. Foi verdade." Desde então, tenho aprendido o que ninguém me ensinou nos livros: que escutar também é verbo de ação, que humildade é uma forma profunda de coragem, e que há mudanças que só acontecem quando a gente cala para ouvir a vida dos outros.

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CLAUDIA MARIA CHIARION
CLAUDIA MARIA CHIARION
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3 obras
24d atrás

O Magrelinho e o pernilongo

Crônicas

Essa é a história de um pernilongo que declarou guerra a um rapaz, o magrelinho. Era um rapaz matreiro, veloz, gostava de comer fruta no pé, tinha fama de valentão entre a meninada do bairro e ainda vivia com os joelhos ralados de tanto jogar bola com os amigos no terreno ao lado da mercearia do seu Zezinho. Um dia, cansado de tanto brincar na rua, magrelinho voltou para casa. Resolveu deitar-se mais cedo naquele dia e ficou na cama esperando o sono chegar. Rolou, rolou e nada do sono chegar, até que conseguiu dormir. De repente acordou com um zumbido na orelha. “Ah, maldito pernilongo, me deixa dormir!”, aparentemente o pernilongo cessara o zumbido e magrelinho dormiu a noite toda tranquilo. Ao acordar percebeu que estava todo picado e sentiu-se doente. Logo ouviu da cozinha a mãe gritando: “Levanta menino! Vai perder a hora da escola!”, como não levantava a mãe foi chamá-lo no quarto: “Magrelinho, larga de preguiça menino! Levanta que está atrasado para a escola!”. O menino cobriu a cabeça com a coberta e disse com a voz entrecortada: “Não me sinto bem mãe, estou doente”! A mãe conhecendo o filho disse: “AH, seu menino manhoso! Se tu estiveres mentido te darei uma corsa para aprender a lição!”. Ouvindo isso, magrelinho ficou com muita raiva do pernilongo e resolveu também declarar uma guerra. À noite antes de deitar-se magrelinho ficou à espreita, verificou com muito cuidado todo arsenal que montou para eliminar o seu rival: veneno e um chinelo.

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Medos e fracassos

Crônicas
39d atrás

O medo mora no espaço entre o querer e o ser. Às vezes, aparece justamente quando chega a hora de fazer aquilo que se desejou por tanto tempo. Não avisa. Apenas está ali. As cortinas se abrem, as luzes se acendem e, por alguns segundos, não existe mais nada além do palco e dos olhos voltados para ele. Foi assim em um pequeno teatro, muitos anos atrás. Era uma primeira grande apresentação. O palco parecia maior do que nos ensaios. As luzes eram fortes, a plateia silenciosa, e havia uma expectativa difícil de explicar. Bastava olhar para frente para perceber que todas aquelas pessoas estavam esperando alguma coisa. A personagem estava pronta. As falas também. Tinham sido repetidas tantas vezes que pareciam conhecidas até demais. Mas, quando chegou a hora, as palavras desapareceram. A primeira fala demorou a sair. Depois veio a tentativa de lembrar a seguinte. Quanto mais se procurava pela frase, mais distante ela parecia. O silêncio, que antes fazia parte da apresentação, passou a pesar. As luzes pareciam mais fortes. Os rostos, mais próximos. Era como se o corpo tivesse esquecido aquilo que a memória sabia. Não havia acontecido nenhuma tragédia. Ninguém havia saído da plateia. O mundo não tinha acabado. Ainda assim, naquele pequeno espaço, parecia que um erro seria suficiente para transformar toda aquela apresentação em fracasso. É estranho como o medo consegue aumentar as coisas. Uma palavra esquecida pode parecer uma sentença. Um tropeço pode parecer definitivo. Um momento de silêncio pode ganhar o tamanho de uma vida inteira. O palco não é apenas um lugar de desempenho. Às vezes, é um espelho que devolve aquilo que se tenta esconder: a insegurança, a dúvida, o medo de não ser suficiente. E talvez seja justamente por isso que o fracasso assuste tanto. Ele não precisa ser grande. Às vezes, cabe em uma palavra esquecida, em uma prova que não saiu como esperado, em uma oportunidade perdida ou em uma porta que não se abriu. O fracasso é uma palavra pequena e fria. Aninha-se nos pensamentos e permanece ali por mais tempo do que deveria. Depois de um erro, é comum que a memória repita a cena inúmeras vezes, procurando o momento exato em que tudo poderia ter sido diferente. Como se voltar ao passado pudesse mudar alguma coisa. Mas não muda. O que pode mudar é o que se faz depois.

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Enquanto a cura não vem

Crônicas
35d atrás

Há um momento em que a doença deixa de ser uma notícia. No começo, ela chega como chegam as coisas que assustam: interrompendo tudo. Muda planos, horários, conversas. Faz a gente aprender palavras que nunca quis conhecer. No início, ainda existe a expectativa de que aquilo seja apenas uma passagem. Uma fase ruim. Um intervalo. Depois, os dias passam. E a doença começa a ocupar lugares que antes pertenciam à vida. Ela está no café da manhã que você não consegue tomar. No compromisso que precisa ser desmarcado. Na roupa que você escolhe pensando se o corpo vai aguentar. No calendário, que já não é organizado apenas por aniversários, provas, viagens ou domingos, mas também por consultas, exames, sintomas e dias bons. É estranho quando o sofrimento aprende a rotina da casa. Mais estranho ainda é quando as pessoas ao redor começam a se acostumar com ele. Você também se acostuma. Não porque deixa de doer, mas porque o ser humano aprende a continuar vivendo até mesmo quando não sabe mais como. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de explicar para quem olha de fora: existem sofrimentos que não fazem barulho. Há dias em que você não está chorando. Não está desesperada. Não está sequer pensando na doença. Está apenas cansada. Cansada de esperar. Cansada de acreditar que agora vai. Cansada de ouvir que é preciso ter paciência quando a sua paciência já parece ter sido usada até a última gota. E então você vê alguém receber aquilo que você tanto pediu. Uma cura. Um milagre. Uma resposta. E você se alegra por aquela pessoa, porque a dor do outro não deveria diminuir a nossa capacidade de celebrar. Mas, depois, quando fica sozinho, alguma coisa dentro de você pergunta baixinho: “E eu, Deus?” Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis que alguém possa fazer. Não porque Deus não possa ouvi-la. Mas porque às vezes nós fazemos essa pergunta esperando uma resposta imediata, e o céu permanece em silêncio. Você vê testemunhos de pessoas dizendo que oraram e foram curadas. Pessoas contando que o exame mudou, que a doença desapareceu, que o impossível aconteceu. E você continua ali. Com o mesmo corpo. A mesma espera. O mesmo medo. A mesma oração. É nesse lugar que a fé começa a ficar miúda. Não necessariamente acaba. Fica pequena. Às vezes ela já não consegue levantar os braços para o céu. Às vezes não consegue formular uma oração bonita. Às vezes tudo o que sobra é uma frase curta, quase um sussurro: “Deus, fica comigo.” E talvez exista uma honestidade muito grande nessa oração. Porque chega um momento em que a gente percebe que não consegue mais sustentar a própria esperança.

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O MEU ENCONTRO COM ELA

Crônicas
1918d atrás

Eu comentei, por curiosidade, o status dela. Ela postou algo dizendo que era Fake News, o que não é hoje em dia? Mas o assunto fluiu, ela super educada! Eu, como não sou bobo, disse que era escritor e entendia um pouco de português! Ela como estava estudando para concursos, logo se interessou! Trocamos o número do telefone e viramos amigos! Eu, como muitos sabem, não tenho amigas! Mas, para sair do óbvio, aceitei a amizade. Não falei, mas ela é a verdadeira obra de arte esculpida em Carrara. Uau, o sorriso dela se compara ao pôr do sol, pois, depois da luz, vem o brilho proveniente duma estrela, que, na verdade, pode ser ela! Uma estrela deusa entre os mortais. A amizade fluiu, nós percebemos muitas coisas em comum e ficávamos horas conversando sobre tudo! Eu nunca disse a ela, mas eu já a admirava há tempos! Quase bati num carro por olhar para ela! Mas a vida me pôs ali com ela, a deusa moça esculpida em Carrara! Sabe aquela moça que todos olham? Então, é ela! Quem sou eu na fila do pão, né? Mas, como escritor, percebi sua beleza adjetiva em cada detalhe, cada gesto e falar! Nossa, ela é o amor da vida de qualquer homem, mas eu estava ali o dia inteiro conversando com ela. Eu, naquele momento, era um privilegiado, o mais sortudo dos homens, eu tinha o sorriso dela, pois ela sorria com minhas brincadeiras! Nós, às vezes, somos felizes por um instante em momentos que são únicos! Eu tenho a percepção disto. Por isso, eu sou escritor, vim à vida para registrar momentos únicos e raros, belos e poéticos. O meu encontro com ela foi isto que acabei de falar. O meu encontro com ela foi poesia bela a registrar. Rustic writer Russiann_poet

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