Até quando o corpo aguenta?
O dia começa antes que o sol tenha decidido nascer por inteiro. Há corpos que despertam com o barulho do despertador; outros, com uma inquietação antiga, dessas que não se resolvem com uma noite de sono. O cansaço, às vezes, chega antes mesmo dos compromissos. Já está sentado à beira da cama, esperando. Lá fora, a cidade cumpre seus horários. Os ônibus seguem lotados, as pessoas atravessam as ruas apressadas, os estudantes carregam mochilas, livros e expectativas. Tudo parece obedecer a uma ordem silenciosa: levantar, produzir, aprender, vencer. Como se viver fosse uma competição em que ninguém pudesse pedir alguns minutos de descanso sem correr o risco de ficar para trás. No caminho até a universidade, repetem-se as mesmas paisagens, os mesmos rostos, as mesmas músicas nos fones de ouvido. Há dias em que uma canção abre uma fresta por onde escapa tudo aquilo que se passou semanas tentando conter. Os olhos marejam sem autorização. Não é exatamente tristeza. Ou talvez seja. Há sentimentos que se acumulam tanto que já não sabem por qual nome responder. Em algum lugar dentro de si, alguém procura Deus. Não necessariamente o Deus das respostas prontas, das frases penduradas nas paredes ou das promessas de que tudo acontece por uma razão. Procura-se uma presença. Um sinal de que o sofrimento não tornou o mundo completamente indiferente. E, quando nem a fé consegue silenciar as perguntas, resta o espanto de continuar perguntando: Senhor, estás aí? A doença tem uma maneira cruel de alterar o tamanho das coisas. O que para muitos é apenas mais uma manhã, para alguém pode ser uma negociação difícil com o próprio corpo. Levantar, tomar os medicamentos, controlar os efeitos colaterais, suportar a dor, organizar os horários, comparecer às aulas. Tudo isso antes mesmo de começar a tarefa que os outros verão.
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