UM PAR DE ARGOLINHAS PRATEADAS
0:00

UM PAR DE ARGOLINHAS PRATEADAS

Comecei com o de sempre: dobrando minhas roupas sujas e colocando-as numa sacola estampada com a logo do mercado da minha cidade. Primeiro minhas cuecas, depois minhas duas camisetas usadas durante todo o fim de semana e, por fim, meu short bege de tiozão.

 

Depois foi a vez dos meus pertences menores: alguns cabos de carregadores para os meus vários objetos eletrônicos, minha carteira extremamente minimalista (que é mais um porta-cartão), alguns remédios e o meu perfume, que enfeitava a prateleira do quarto, numa composição extremamente desordenada de livros, canetas, um mouse rosa claro e um mouse pad estampado de unicórnio com uma almofada para o punho.

Por fim, meu tênis verde militar que tem o cadarço já todo desfiado no pé esquerdo (sério, não sei como ainda essa cordinha branca consegue manter os laços que faço toda vez que eu o calço).

 

Tudo milimetricamente ajeitado na minha mochila para que eu tivesse a feliz experiência de viajar no maior conforto disponível.

 

Para a despedida, o nosso comum: beijos curtos sobrepostos a “eu te amo”, “já estou com saudades” e “você casa comigo, se eu pedir de novo?”. E, sim, a resposta a essa pergunta é “caso com você hoje, de madrugada, só nós dois e o padre. Caso com você sempre que me pedir”.

 

Dei tchau pro cachorro.

 

Desci as escadas.

 

Saí de casa apressado, com medo de chegar atrasado na rodoviária e perder o ônibus, mais uma vez, num intervalo de poucos dias.

 

Cheguei a tempo na rodoviária; não perdi o ônibus.

 

Algumas horas rumo ao sul do país e... “putz, esqueci meus brincos!”

 

Como vou agora sustentar minha imagem de professor descolado sem meus brincos de argola?

 

Chego em casa.

 

— Oi, vó! Bom dia! Tava com saudade.

 

Tomo meu café da manhã. Um ovo frito (gema mole, sempre!) dentro do pão francês e uma xícara de café coado do grão que meu pai torra no quintal de casa.

 

Preciso mandar mensagem para ela avisando que cheguei bem, fiz boa viagem e pedir que guarde meus brincos.

 

Desfaço a mochila.

 

Algumas cuecas limpas pra gaveta, as camisetas para lavar, meu short bege de tiozão e duas calças. Ah, e a camisa branca que usei quando fomos na missa.

 

Abro meu nécessaire.

 

Retiro algumas cartelas de remédio que nunca tomei, duas tiras de curativo que guardo como lembrança afetiva de uma viagem a Espanha, uma tesoura sem ponta (que sempre levo quando vou encontrá-la, para que ela apare meu bigode), um pente branco roubado de hotel, uma caixinha de fio dental horrível que toda vez desfia no dente...

 

E meus brincos.

 

Um parzinho de argolas prateadas, bem no fundo da bolsinha.

 

Sorrio.

 

Sim, ela lembrou de guardá-los para mim antes mesmo que eu pudesse esquecer.

 

Sorrio.

 

Lembro que a amo, hoje mais que ontem.

 

Lembro de todas as promessas feitas à meia luz antes do nosso “boa noite”.

 

Sorrio.

 

Coloco os brincos ao lado do meu relógio em cima da minha mesinha de cabeceira.

 

Uma bela maneira para viver a minha manhã de segunda-feira.