O dia começa antes que o sol tenha decidido nascer por inteiro. Há corpos que despertam com o barulho do despertador; outros, com uma inquietação antiga, dessas que não se resolvem com uma noite de sono. O cansaço, às vezes, chega antes mesmo dos compromissos. Já está sentado à beira da cama, esperando.
Lá fora, a cidade cumpre seus horários. Os ônibus seguem lotados, as pessoas atravessam as ruas apressadas, os estudantes carregam mochilas, livros e expectativas. Tudo parece obedecer a uma ordem silenciosa: levantar, produzir, aprender, vencer. Como se viver fosse uma competição em que ninguém pudesse pedir alguns minutos de descanso sem correr o risco de ficar para trás.
No caminho até a universidade, repetem-se as mesmas paisagens, os mesmos rostos, as mesmas músicas nos fones de ouvido. Há dias em que uma canção abre uma fresta por onde escapa tudo aquilo que se passou semanas tentando conter. Os olhos marejam sem autorização. Não é exatamente tristeza. Ou talvez seja. Há sentimentos que se acumulam tanto que já não sabem por qual nome responder.
Em algum lugar dentro de si, alguém procura Deus. Não necessariamente o Deus das respostas prontas, das frases penduradas nas paredes ou das promessas de que tudo acontece por uma razão. Procura-se uma presença. Um sinal de que o sofrimento não tornou o mundo completamente indiferente. E, quando nem a fé consegue silenciar as perguntas, resta o espanto de continuar perguntando: Senhor, estás aí?
A doença tem uma maneira cruel de alterar o tamanho das coisas. O que para muitos é apenas mais uma manhã, para alguém pode ser uma negociação difícil com o próprio corpo. Levantar, tomar os medicamentos, controlar os efeitos colaterais, suportar a dor, organizar os horários, comparecer às aulas. Tudo isso antes mesmo de começar a tarefa que os outros verão.
Ninguém costuma colocar essas horas no currículo. Não há certificado para quem atravessa uma crise sem abandonar a sala de aula. Não existe pontuação para quem estuda com o corpo exausto, pesquisa entre consultas e aprende a sorrir enquanto calcula quanto tempo ainda consegue suportar em pé. O esforço invisível não costuma ser reconhecido. Espera-se apenas o resultado. E, no entanto, cobram-se resultados.
É preciso ser a melhor. A mais dedicada, a mais produtiva, a mais preparada. É preciso transformar dificuldades em histórias inspiradoras, fazer da escassez uma oportunidade e da exaustão uma prova de competência. A sociedade admira quem vence, mas raramente pergunta quanto custou a vitória. Sobretudo quando se trata de mulheres, educadas desde cedo para cuidar de tudo, suportar quase tudo e não fazer do próprio sofrimento um inconveniente.
Há ainda a desigualdade, essa velha conhecida que distribui os pesos de maneira injusta. Algumas pessoas podem adoecer e descansar. Outras adoecem e continuam. Algumas encontram amparo, dinheiro, tempo e alguém que pergunte como foi a consulta. Outras precisam escolher entre cuidar da saúde e cumprir uma obrigação que não pode esperar. Nem toda mulher dispõe do luxo de interromper a vida quando o corpo pede socorro.
Por isso, às vezes, a grama do vizinho parece tão verde. Não porque se desconheça a beleza da própria vida, mas porque é difícil não desejar a leveza que parece tão natural nos outros. Há quem consiga planejar o futuro sem calcular o custo de cada crise, fazer planos sem consultar a resistência do próprio organismo, passar um dia inteiro sem pensar na doença. E sentir inveja disso também é humano. Não se trata de desejar a infelicidade alheia, mas de querer, por algumas horas, não precisar ser forte. Mas sempre aparece alguém disposto a explicar a dor dos outros.
É falta de namorado. É falta de ocupação. É drama. É mágoa acumulada. É pensar demais. Para cada sofrimento, uma explicação apressada; para cada corpo adoecido, uma suspeita de exagero. Como se a dor precisasse apresentar documentos, testemunhas e justificativas para merecer respeito.
Quem convive com uma doença crônica conhece a solidão particular de não parecer doente o suficiente para ser compreendido e estar doente demais para viver como se nada estivesse acontecendo. Aprende a esconder sintomas para não cansar os outros, a minimizar crises para não ser chamado de difícil, a pedir desculpas por limitações que não escolheu. Há quem passe tanto tempo provando que sente dor que já não encontra palavras para falar sobre ela.
E existe o abandono. Nem sempre aquele que fecha uma porta ou vai embora de casa. Às vezes, ele permanece sentado à mesa, atende pelo nome de família e se manifesta na ausência de uma pergunta, na impaciência diante de uma crise, no incômodo provocado pela fragilidade de quem deveria poder descansar em segurança. Há pessoas cercadas de parentes que precisam enfrentar sozinhas os dias mais difíceis. O parentesco, afinal, nem sempre sabe ser abrigo.
Enquanto isso, a vida continua exigindo presença. Os trabalhos têm prazos, as provas têm datas, as pesquisas precisam avançar. Os sonhos, mesmo quando cansados, não desaparecem. E talvez seja essa uma das contradições mais dolorosas de existir: desejar muito uma vida que, em determinados dias, parece exigir mais forças do que se tem para oferecê-la. Não é falta de vontade. Não é ingratidão. Não é fraqueza.
Há uma diferença entre desistir e simplesmente não conseguir mais sustentar, sem ajuda, o peso de tudo aquilo que se colocou sobre os ombros de alguém. Talvez seja necessário reaprender a olhar para as pessoas. A estudante silenciosa pode estar atravessando uma batalha que não cabe nas páginas de seus cadernos. A mulher que deixou de comparecer talvez não tenha deixado de se importar. Aquela que parece distante pode estar tentando reunir os pedaços de uma rotina que o corpo já não consegue acompanhar. Nem toda ausência é desinteresse. Nem todo silêncio é paz.
E talvez seja necessário reaprender a olhar para a própria vida também. Há dias em que sobreviver não se parece com nenhuma das imagens grandiosas que inventaram para a palavra superação. Não há música triunfal, aplausos ou grandes revelações. Há apenas o esforço de chegar ao fim da tarde. De tomar água. De responder a uma mensagem. De admitir que hoje não foi possível fazer tudo.
Talvez a fé também more nesse espaço imperfeito: não na obrigação de agradecer pela dor, nem na certeza de que tudo terminará bem, mas na possibilidade de continuar procurando sentido sem precisar fingir que não dói.
Até quando um corpo aguenta? A pergunta permanece, sem resposta fácil. Talvez porque não devesse ser o corpo, sozinho, a encontrar uma maneira de suportar tudo. Talvez porque existam sofrimentos que não precisam de mais resistência, mas de cuidado; não de julgamentos, mas de escuta; não de discursos sobre força, mas de condições reais para viver.
Amanhã, os ônibus voltarão a circular. Os corredores estarão cheios. Os relógios continuarão exigindo pontualidade, e alguém colocará os fones de ouvido para percorrer, mais uma vez, o mesmo caminho.
Tomara que, em algum momento, essa pessoa encontre menos razões para esconder a dor. Que a vida não lhe peça heroísmo todos os dias. Que haja um lugar onde possa repousar sem culpa, falar sem precisar provar nada e ser acolhida sem ter de transformar o sofrimento em uma lição para ninguém. Porque há uma crueldade particular em exigir que alguém floresça enquanto lhe falta até mesmo água. E ninguém deveria precisar adoecer em silêncio para merecer o direito de descansar.
