Enquanto a cura não vem

Enquanto a cura não vem

Há um momento em que a doença deixa de ser uma notícia. No começo, ela chega como chegam as coisas que assustam: interrompendo tudo. Muda planos, horários, conversas. Faz a gente aprender palavras que nunca quis conhecer. No início, ainda existe a expectativa de que aquilo seja apenas uma passagem. Uma fase ruim. Um intervalo. Depois, os dias passam. E a doença começa a ocupar lugares que antes pertenciam à vida. Ela está no café da manhã que você não consegue tomar. No compromisso que precisa ser desmarcado. Na roupa que você escolhe pensando se o corpo vai aguentar. No calendário, que já não é organizado apenas por aniversários, provas, viagens ou domingos, mas também por consultas, exames, sintomas e dias bons.

É estranho quando o sofrimento aprende a rotina da casa. Mais estranho ainda é quando as pessoas ao redor começam a se acostumar com ele. Você também se acostuma. Não porque deixa de doer, mas porque o ser humano aprende a continuar vivendo até mesmo quando não sabe mais como. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de explicar para quem olha de fora: existem sofrimentos que não fazem barulho.

 

Há dias em que você não está chorando. Não está desesperada. Não está sequer pensando na doença. Está apenas cansada. Cansada de esperar. Cansada de acreditar que agora vai. Cansada de ouvir que é preciso ter paciência quando a sua paciência já parece ter sido usada até a última gota. E então você vê alguém receber aquilo que você tanto pediu. Uma cura. Um milagre. Uma resposta.

E você se alegra por aquela pessoa, porque a dor do outro não deveria diminuir a nossa capacidade de celebrar. Mas, depois, quando fica sozinho, alguma coisa dentro de você pergunta baixinho: “E eu, Deus?” Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis que alguém possa fazer. Não porque Deus não possa ouvi-la. Mas porque às vezes nós fazemos essa pergunta esperando uma resposta imediata, e o céu permanece em silêncio. Você vê testemunhos de pessoas dizendo que oraram e foram curadas. Pessoas contando que o exame mudou, que a doença desapareceu, que o impossível aconteceu.

E você continua ali. Com o mesmo corpo. A mesma espera. O mesmo medo. A mesma oração. É nesse lugar que a fé começa a ficar miúda. Não necessariamente acaba. Fica pequena. Às vezes ela já não consegue levantar os braços para o céu. Às vezes não consegue formular uma oração bonita. Às vezes tudo o que sobra é uma frase curta, quase um sussurro: “Deus, fica comigo.” E talvez exista uma honestidade muito grande nessa oração. Porque chega um momento em que a gente percebe que não consegue mais sustentar a própria esperança.

A gente queria acreditar que Deus está presente porque recebeu uma resposta. Mas e quando a resposta não vem? E quando a cura demora? E quando a espera atravessa meses, anos, aniversários, planos? Quem é Deus quando Ele não faz aquilo que pedimos? Essa pergunta me assusta. Mas também foi ela que me fez compreender que talvez eu tivesse colocado Deus no lugar errado. Eu queria Deus como resposta. E, aos poucos, precisei aprender a querer Deus como presença. Não apenas o Deus do milagre, mas o Deus do quarto silencioso.

O Deus que permanece quando o resultado do exame não muda. O Deus que continua sendo Deus quando a oração termina e a dor continua. O Deus que não precisa transformar imediatamente a minha história para continuar sendo o centro dela. Talvez fé não seja nunca sentir medo. Talvez fé seja sentir medo e ainda assim deixar uma pequena parte de nós dizer: “Deus, eu não sei o que fazer, mas não quero atravessar isso sem Ti.” Porque eu já descobri que existe uma diferença entre acreditar que tudo vai acontecer como queremos e acreditar que Deus continuará conosco quando não acontecer.

A primeira coisa depende da certeza. A segunda exige entrega. E eu não sei se existe coisa mais difícil para um ser humano do que entregar a Deus aquilo que ele mais deseja controlar. Eu queria a cura. Ainda quero. Não aprendi a romantizar a dor. Não quero chamar sofrimento de presente só porque ele me ensinou alguma coisa. Há dores que eu teria escolhido nunca conhecer. Mas, se preciso atravessar esse caminho, quero pelo menos não perder Deus de vista. Porque quando a doença tenta ocupar tudo, eu preciso me lembrar de que ela pode fazer parte da minha história sem se tornar o nome inteiro dela.

Eu sou mais do que aquilo que dói. Mais do que os dias ruins. Mais do que os exames. Mais do que aquilo que ainda não foi curado. E talvez seja isso que eu esteja aprendendo enquanto espero: que a fé não precisa ser enorme para existir. Às vezes ela cabe numa frase. Num suspiro. Num “fica comigo”. Num levantar da cama quando o medo dizia para não levantar. Num dia em que a oração não foi bonita, mas foi sincera. Num coração que, mesmo cansado, ainda procura Deus.

Talvez o milagre que eu esperava fosse uma porta que se abrisse imediatamente. Mas talvez, enquanto eu bato nessa porta, exista outro milagre acontecendo em silêncio: eu ainda não desisti de conversar com Aquele que está do outro lado. E isso não resolve a dor. Não diminui a espera. Não substitui a cura que eu continuo pedindo. Mas muda uma coisa. Eu já não quero atravessar a minha vida apenas esperando o dia em que finalmente vou ficar bem. Quero aprender a viver também no intervalo. Porque talvez Deus não esteja somente no dia em que a cura chegar.

Talvez Ele esteja aqui. Agora. No meio da espera. No meio do medo. No meio da minha fé pequena. E, se a minha fé hoje é apenas uma chama quase apagada, talvez eu não precise transformá-la num incêndio. Talvez eu só precise protegê-la do vento. E dizer, mais uma vez: “Deus, eu ainda estou aqui. E, mesmo sem entender o que estás fazendo, quero que continues sendo o centro de tudo.”

Publicidade
PATROCINADO