Ela tinha nome?
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Ela tinha nome?

Desde pequena ela foi exposta a muita coisa: violência, bebidas, pressão estética, o sexo como moeda de troca.

 

Talvez por isso ela também se sentia exposta, como um pedaço de carne no açougue do supermercado:

"Eu quero um peso muciço, sem gordura"

"Carne de vaca velha é diferente, dá pra perceber que é inferior!"

"Hoje eu quero carne de vitela..."

 

Ela cresceu assim, sendo avaliada pela qualidade da sua casca.

Naquele dia confidenciou-me que talvez sua cabeça também não fosse boa, ela via aquilo tudo como comum, normal, as vezes até gostava (ou achava que gostava). E aceitava esse destino como quem tem sede e saboreia um bom copo d'água.

 

Jogamos conversa fora por mais alguns minutos e então vimos um ônibus lá embaixo, na rua.

-Meu ônibus tá chegando, finalmente!

A "carruagem" parou e com aquele barulho estridente de porta velha abrindo ela olhou pra trás e acenou pra mim, com um verdadeiro sorriso de adeus.

Ela devia ter uns 17 anos, alguns machucados nos braços, vestido rasgado.

Me arrependo por não ter perguntado seu nome, ter oferecido minha marmita, perguntado se tinha família.

 

Ela foi embora e nem posso imaginar o que aconteceu depois. O que aqueles olhos escuros viriam depois?

Pego minha condução imaginando quantas iguais a ela encontrarei novamente em algum ponto de ônibus por aí.