Medos e fracassos

Medos e fracassos

O medo mora no espaço entre o querer e o ser. Às vezes, aparece justamente quando chega a hora de fazer aquilo que se desejou por tanto tempo. Não avisa. Apenas está ali.

As cortinas se abrem, as luzes se acendem e, por alguns segundos, não existe mais nada além do palco e dos olhos voltados para ele. Foi assim em um pequeno teatro, muitos anos atrás. Era uma primeira grande apresentação. O palco parecia maior do que nos ensaios. As luzes eram fortes, a plateia silenciosa, e havia uma expectativa difícil de explicar. Bastava olhar para frente para perceber que todas aquelas pessoas estavam esperando alguma coisa.

A personagem estava pronta. As falas também. Tinham sido repetidas tantas vezes que pareciam conhecidas até demais. Mas, quando chegou a hora, as palavras desapareceram. A primeira fala demorou a sair. Depois veio a tentativa de lembrar a seguinte. Quanto mais se procurava pela frase, mais distante ela parecia. O silêncio, que antes fazia parte da apresentação, passou a pesar. As luzes pareciam mais fortes. Os rostos, mais próximos. Era como se o corpo tivesse esquecido aquilo que a memória sabia. Não havia acontecido nenhuma tragédia. Ninguém havia saído da plateia. O mundo não tinha acabado. Ainda assim, naquele pequeno espaço, parecia que um erro seria suficiente para transformar toda aquela apresentação em fracasso.

É estranho como o medo consegue aumentar as coisas. Uma palavra esquecida pode parecer uma sentença. Um tropeço pode parecer definitivo. Um momento de silêncio pode ganhar o tamanho de uma vida inteira. O palco não é apenas um lugar de desempenho. Às vezes, é um espelho que devolve aquilo que se tenta esconder: a insegurança, a dúvida, o medo de não ser suficiente. E talvez seja justamente por isso que o fracasso assuste tanto. Ele não precisa ser grande. Às vezes, cabe em uma palavra esquecida, em uma prova que não saiu como esperado, em uma oportunidade perdida ou em uma porta que não se abriu.

O fracasso é uma palavra pequena e fria. Aninha-se nos pensamentos e permanece ali por mais tempo do que deveria. Depois de um erro, é comum que a memória repita a cena inúmeras vezes, procurando o momento exato em que tudo poderia ter sido diferente. Como se voltar ao passado pudesse mudar alguma coisa. Mas não muda. O que pode mudar é o que se faz depois.

O processo de reconstrução raramente é bonito. Não acontece de uma vez, nem segue uma linha reta. Há dias em que levantar parece suficiente. Há outros em que o medo de repetir o erro faz qualquer tentativa parecer arriscada demais. É nesse ponto que o fracasso deixa de ser apenas uma queda e passa a revelar alguma coisa. Ele mostra limites, mas também mostra onde ainda existe vontade. Mostra aquilo que não funcionou, aquilo que precisa ser refeito e, principalmente, aquilo que não pode continuar sendo carregado como uma sentença.

Talvez seja por isso que algumas cicatrizes permaneçam mesmo depois que a dor passa. Elas não existem apenas para lembrar da queda. Também lembram que houve um momento em que foi preciso levantar. O medo continua existindo. A diferença é que ele já não precisa decidir tudo.

Há uma espécie de liberdade em aceitar que nem toda tentativa será bem-sucedida. Que algumas portas permanecerão fechadas. Que algumas apresentações terminarão em silêncio. Que haverá momentos em que as palavras faltarão justamente quando mais forem necessárias. E ainda assim, as cortinas continuarão se abrindo. Talvez seja essa a parte mais difícil: voltar ao palco depois de descobrir que é possível falhar. Não voltar sem medo, porque isso talvez nunca aconteça. Voltar apesar dele.

O fracasso não desaparece quando se aprende com ele. Apenas deixa de ocupar o lugar de sentença. Torna-se parte da história, como uma cena que não pode ser apagada, mas que também não precisa definir tudo o que vem depois. No fim, talvez ninguém se lembre da palavra que faltou naquela noite. Talvez a plateia tenha esquecido. Mas quem esteve naquele palco aprendeu uma coisa que nenhum ensaio poderia ensinar: há momentos em que a coragem não está em acertar a fala, mas em permanecer ali quando ela desaparece. As cortinas fecham. As luzes se apagam. E, em algum momento, será preciso entrar em cena outra vez.

 

 

 

 

"A todas aquelas que, em meio à tempestade, escolheram a coragem. Que as dores invisíveis sirvam de combustível para renascer. Que, mesmo nas noites mais escuras, vocês nunca deixem de buscar a luz." (Dedicatória)

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