Havia um casarão no Beco dos Catraieiros, em São Luís, onde artistas, poetas e vagabundos profissionais se encontravam todos os dias. Arriscava-me por aquelas bandas como um poète maudit — sem a poesia, evidentemente.
Às quintas, homens e mulheres se reuniam para dançar o Tambor de Crioula. Certa vez, um coreiro capoeirista cismou comigo, só porque dei umas batucadas no couro de um tambor não aquecido, e começou a dar piruetas em minha direção. “Que sujeitinho afetado”, pensei.
Irritado, saí para comprar uma Tiquira no Mercado das Tulhas. Quando voltei, encontrei Joselito levantando-se de uma queda e declamando, com voz a embargada, os seguintes versos de Nauro Machado:
"Ó cega estrela, pássaro com sarna
na comunhão da sede em funda poça,
onde beber o céu que em mim se encarna
no solitário álcool em ébria louça,
e a embriagar-me até se acabar na minha
voz a que ninguém mais ouça."
Terminada a apresentação, ele veio até mim:
— E aí, meu poeta! Será que o meu patrão não me arranja seis mirreis pra eu comprar um vinhozinho?
Eu não tinha mais um tostão, infelizmente.
Um ambulante, irritado com a insistência do poeta, jogou uma garrafa de Padre Cícero na cabeça dele e gritou:
— Toma teu vinho aí, porra!
Todos riram.
Joselito começou a dançar freneticamente ao som do batuque do Tambor de Crioula.
Desde esse dia, passei a chamá-lo de Vinholito. Descobri recentemente que ele morreu.

