Foram à aula somente uns 7, no máximo 10 alunos da sala, era finalzinho de bimestre.
O dia estava seco como a minha paciência com gente chata ( sim, gente chata) (a diretora).
Os meninos eram a motivação para não desistir, faltava muito pouco suportar aquela criatura.
Seria racismo, ciúmes, demonstração de poder, animosidade imaginária ou a pessoa subestimando meu trabalho?
Eu hein. Vontade de meter uma bola de papel na testa da víbora. Desculpa meu Deus. Negar isso é mentira, e mentira é pecado da mesma forma.
Acabadas as instruções, olho para a fita adesiva que prendia os cabos do notebook no painel de feltro ridículo: colada ao adesivo, estava um lagartixa. Olhos enigmáticos, estática, fingindo a morte para sobreviver.
__Tadinha! Exclamei. Venham ver¹.
Imediatamente o 8º ano ganhou um brilho nos olhos. Todos dirigiram-se à mesa curiosos. Esqueceram o capim seco lá fora; esqueceram, alguns, que os pais mandaram-nos para escola, porque não tinham lugar para ficar, ou para livrá-los de brincar na rua.
__ Tadinha! também exclamaram. Pedi que chamassem o professor de biologia.
De repente o general apareceu porta, de tamancos pretos. General loiro, de baixa estatura, não ia com minha cara. Tirou a alegria dos meninos, os impedindo de ir até o professor. Rançosa.
__ Você não disponibilizou nenhuma pauta? Disse, com uma melancia na cabeça.
__Sim senhora... estão colocando as tarefas em dia.
Intragável, ela, como sempre.
E olha, que eu nem fumo.
Recortamos a parte que a lagartixa estava pregada com uma tesourinha, e começamos a pensar num modo de descolar a bichinha do plástico, sem arrancar-lhe o couro, nem a cor. Devagarinho descolei o rabo e as patinhas traseiras, e eis que nossa maravilhosa virou o Batman, e pulou no meu colo.
__ Um grito.
Mercedita, assim poderia ser o nome, embrenhou-se na cortina e alcançou a parede, feliz. Todos respiramos aliviados, com pinta de super heróis.
O mato seco lá fora foi ignorado. Aquela agonia palha. A sala encheu-se de cor. Fizemos nossas tarefas com o coração quentinho e grato. Esquecemos dos afazeres da tarde, do celular e de família chata. Também de não poder brincar na rua.
Esqueci da Medusa com ares de madame. Respirei aliviada.
Uma pequena lagartixa, quem dera, transformou-se no centro do nosso feliz mundo, e uma antiga frase ecoou na alma e nas vísceras:
__ Quanto mais simples, melhor.
