NAVIOS E ESTRELAS
Todo dia vovô João acordava Baako com um sorriso carinhoso que iluminava o barraco.
A fumaça do fogão se misturava ao cheirinho de café e pão que ele não deixava faltar. Era ele que criava o menino com o dinheiro das latinhas que catava pela cidade e trocava por minguadas moedas todos os dias. O sacrifício era grande mas assim sempre tinha comida, pouca, é verdade, e quase sempre sem carne, o café e o pão de todo dia, cadernos, lápis, borracha, e o luxo: uma caixinha de lápis cor que o menino transformava em histórias coloridas, quase sempre de orixás e pretos e pretas velhas, que o vovô João lhe contava.
Baako havia perdido os pais com 5 anos. Vovô João não era seu avó de verdade. Mas foi ele que resolveu ficar com o menino quando tudo aconteceu. Os pais de Baako haviam vindo da África num navio de imigrantes. Imigrantes são aquelas pessoas que resolvem sair do seu país pra morar em um outro, por causa da guerra, por falta de emprego ou por outro motivo quase sempre muito triste. E os pais de Baako fugiram de seu país, a Somália. Lá, além da guerra e desemprego, havia a seca, que fazia com que as pessoas passassem fome. Vieram para o Brasil em um pequeno navio cheio de imigrantes que queriam a mesma coisa: uma chance de viver.
Todos chegaram muito doentes. Os pais de Baako não aguentaram e morreram alguns meses depois de chegar aqui. Baako sobreviveu.
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