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Carlos Eduardo Giglio

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NAVIOS E ESTRELAS

Contos
2007d atrás

NAVIOS E ESTRELAS Todo dia vovô João acordava Baako com um sorriso carinhoso que iluminava o barraco. A fumaça do fogão se misturava ao cheirinho de café e pão que ele não deixava faltar. Era ele que criava o menino com o dinheiro das latinhas que catava pela cidade e trocava por minguadas moedas todos os dias. O sacrifício era grande mas assim sempre tinha comida, pouca, é verdade, e quase sempre sem carne, o café e o pão de todo dia, cadernos, lápis, borracha, e o luxo: uma caixinha de lápis cor que o menino transformava em histórias coloridas, quase sempre de orixás e pretos e pretas velhas, que o vovô João lhe contava. Baako havia perdido os pais com 5 anos. Vovô João não era seu avó de verdade. Mas foi ele que resolveu ficar com o menino quando tudo aconteceu. Os pais de Baako haviam vindo da África num navio de imigrantes. Imigrantes são aquelas pessoas que resolvem sair do seu país pra morar em um outro, por causa da guerra, por falta de emprego ou por outro motivo quase sempre muito triste. E os pais de Baako fugiram de seu país, a Somália. Lá, além da guerra e desemprego, havia a seca, que fazia com que as pessoas passassem fome. Vieram para o Brasil em um pequeno navio cheio de imigrantes que queriam a mesma coisa: uma chance de viver. Todos chegaram muito doentes. Os pais de Baako não aguentaram e morreram alguns meses depois de chegar aqui. Baako sobreviveu.

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O DIA NASCEU E MAIS UMA VEZ

Contos
2008d atrás

o dia nasceu e mais uma vez as crianças estavam brincando no terreiro. as cabras passeavam por ali e os porcos fuçavam raízes enquanto o sol ia subindo devagar. pai Antero sentou em seu toco olhando com carinho as brincadeiras. Maria foi a primeira a se sentar na frente do velho. gostava de ouvir e aprender as histórias. gostava de aprender sobre o seu povo. já sabia que seus avós e seus pais foram escravizados na África e jogados no porão escuro de um navio pra cruzar o mar. que vinham reis e rainhas e guerreiros e ferreiros e todo tipo de gente pra serem escravos aqui. pra fazer todo tipo de trabalho. era uma história triste e dolorosa mas a menina queria saber e sempre que podia perguntava pra pai Antero. ela sabia que seu avô chegou aqui antes da avó. que chegaram separados em navios e meses diferentes. seu pai e sua mãe vieram no mesmo navio. pequenos e separados das famílias. era assim que faziam sua gente fraca. separavam a família. afastavam pais e filhos e todos os parentes. e todo mundo ficava fraco e triste assim. as crianças choravam com medo e saudade dos pais. e choravam naquele porão escuro sujo e com cheiro de dor. mas as mulheres do seu povo eram mulheres fortes e cheias de amor por crianças. mães amorosas que cuidavam de outros filhos. dos filhos dos outros. as crianças choravam. muito. e aquelas mulheres não podiam fazer nada. não podiam dar comida não podiam brincar não podiam fugir não podiam abraçar as crianças. todos estavam acorrentados. mas precisavam acalmar e confortar as crianças. a vó de Maria teve uma idéia e contou pra outra mãe que contou pra outra que contou pra outra. começaram a rasgar tiras de suas roupas.e com as tiras começaram a fazer bonecas. sem agulha ou linha. apenas com as tiras e nós. bonecas. coloridas. com as cores e desenhos dos panos africanos. bonecas que faziam as crianças se acalmarem. bonecas que davam esperança de o mal não ser tanto nem a morte chegar antes da hora. bonecas abayomi. aquelas que trazem alegria. Pai Antero contava e a criançada que já estava toda sentada se encantava com a história. Maria ja tinha aprendido a fazer a bonequinha. fez uma enquanto o velho contava a história. Pai Antero ficou contente. a menina estava aprendendo depressa. ele sabia que ela contaria as histórias e ensinaria tudo que aprendia com ele. já estava na hora de ir. Ele bateu seu cajado três vezes no chão e se levantou.era hora de ir. era hora de pegar o caminho de Aruanda. as crianças ficaram pra aprender a fazer a boneca. era hora de Maria começar a ensinar. era hora. e cada criança fez uma bonequinha pra se lembrar. da força do amor. da familia. do cuidado com o outro. e foram dormir felizes e sonhar com liberdade. p.s.: existe uma linda e romantizada história que diz que a boneca nasceu nos tumbeiros feita de retalhos das roupas das mulheres para acalmar as crianças. mas essa história não é verdade. só fui saber após escrever este conto. resolvi manter mas ressaltar a origem das bonecas segue um pequeno texto expliativo e vou compartilhar em meu stories dois vídeos que falam sobre. eu hoje conto a história falsa como estória e a história verdadeira. é preciso não romantizar a história e dar crédito a artista: "Como surge a Boneca Abayomi no Brasil? O ano de 1980 é marcado pelo contexto do Movimento Negro, momento em que se organizava a marcha para lembrar os 100 anos da abolição. A educadora popular e militante, Waldilena Martins, ou como é mais conhecida, Lena Martins, inicia a confecção de Bonecas Abayomi no Brasil."

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CRIANÇAS CORRIAM PELO TERREIRO

Contos
2008d atrás

crianças corriam pelo terreiro. alvoroçavam a manhã e as galinhas. pelas frestas dos barracos fios de fumaça saiam. cafés tardios e o feijão que aplacaria a fome do dia. algumas das mulheres lavavam roupas e cantavam na beira do rio. os homens mais jovens roçavam ou estavam na cidade vendendo mandioca ou fubá. ele ali. vendo o mundo com seus olhos cansados. pés descalços e o companheiro cajado feito de um galho de árvore. no seu lugar de todos os dias. curvou um pouco mais o corpo magro e tocou o chão com a palma da mão calejada. respiração ofegante. alguns homens e mulheres correndo. algumas com crianças no colo. alguns com facões e pequenas trouxas com sementes roupas um pouco de comida que conseguiram roubar. o corte dos bambus e galhos de árvore. o barro. o tambor e a cantoria. os barracos. nascia o quilombo e a liberdade. as noites de jongo fogueira amor na rede. os dedos estalando o benzimento. e ele olhava o terreiro e aquelas crianças. em breve não estaria mais ali. Aruanda já estava esperando. Maria era a mais espevitada das crianças. e a que mais gostava do velho. foi a primeira a sentar naquela manhã. com os olhinhos brilhantes olhava pro terreiro também. os dois viam a mesma coisa. e viram crianças. velhos e velhas e seus terços e folhas. um terreiro cheio e movimentado com mulheres dançando. as gentes coloridas. amarelos. vermelhos. verdes. azuis. muito branco e luz. poeira subindo levantada por pés. muitos pés. pés de rainhas e reis. de guerreiros e caçadores. gente comum e índios. muitos índios e índias. e as outras crianças foram se sentando e também viam. Maria fez um longo psiu e o silêncio se fez. o velho bebeu um bom gole de café enquanto todo mundo ali se ajeitava pra escutar. e contou das caçadas de leão. das batalhas das tribos. do branco com seu cano de trovão. e contou do escuro do navio. da fome medo cheiro de merda e morte. e contou dos dentes do dinheiro da fila do chicote. e contou dos cães do engenho do tronco do chicote. contou do amor. do senhor. da menina arrastada pra casa grande. do senhor rasgando a roupa. dos gritos. da dor. contou das crianças do tambor das danças dos planos. contou de como ele era jovem. jovem e forte. de como cortaram o pescoço do homem do chicote. de como pegaram os facões e de como atearam fogo na senzala e na casa grande e na roça e de como se enfiaram correndo na mata. contou dos cães latindo e dos capitães do mato. da luta. do sangue. contou da vitória e da luta que vem sempre antes da vitória. contou contou contou. chorou. respirou fundo e sorriu. contou que com a liberdade tudo mudou. as dores eram outras. as lutas eram outras. e o amor estava ali entre eles. que as crianças ali eram pequenas contas de luz e amor abençoando aquele quilombo. que o tempo de escravidão ia longe. Maria ia repetindo tudo bem baixinho. já havia decorado cada palavra. já sabia repetir. já sabia. já podia continuar. fazer chegar a outras crianças. e o velho estava satisfeito. disse que a gira daquela noite seria cheia de axé. levantou e caminhou livre e feliz pra Aruanda.

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UMA GRANDE E TRISTE NOTÍCIA

Contos
2016d atrás

escrevo já a bastante tempo pequenos contos com Pai Antero e Maria. dois viraram teatro de bonecos. são contos carregados de espiritualidade, afeto e cultura e religiosisade afrobrasileira. escrevi este agorinha. Ewá era filha de uma irmã de fé e fez a passagem a coisa se 3 dias. fica ai a homenagem e carinho pra mãe. e uma pequena mensagem de esperança pra esses dias sofridos que estamos vivendo. uma grande e triste neblina tomou conta da manhã. garoava bem fininho e frio. a pandemia não dava tréguas. ainda assim pai Antero sempre vinha. Maria sabia e esperava da janela. os passarinhos continuavam cantando apesar de tudo. e nessa manhã eles cantavam tristes.a linda menina Ewá havia feito a passagem. Maria chorava baixinho na janela. e pai Antero foi chegando com seu passo miudinho. vinha rezando seu terço e chegou bem em frente a janela. Maria esboçou um sorriso mas as lágrimas escorriam. o velho entendia. ele sabia das dores que a perda de um criança causava. Ewa era uma menina linda. mas estava doente e em tratamento. um sofrimento que a passagem fez passar. Pai Antero falou sobre isso e contou que na Nigéria existia um rio chamado Ewá. contou do quanto ela era valente e corajosa e que não teve medo da passagem. como rio que segue ela foi pra Aruanda. e que por onde esse rio foi passando flores foram brotando trazendo beleza e esperança pras pessoas. e nem bem pai Antero falou isso e uma linda flor amarela brotou bem debaixo da janela de Maria que ja tinha parado de chorar. ela saiu correndo e deu um abraço apertado no preto velho. agradeceu e pediu pra ele cuidar de Ewá. Pai Antero respondeu que era pra Maria cuidar da flor e ter esperança. que não ia ser pra já mas que as coisas iam melhorar. que ele e Ewá estariam orando e mandando muito Axé. e como estava na hora ele bateu seu cajado tres vezes no chão e se pois a caminho de Aruanda. Maria ficou cuidando da flor com carinho. e rezando. Ewá brilhou no céu um lindo sorriso.

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