A GRANDE ÁRVORE DAS PALAVRAS
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A GRANDE ÁRVORE DAS PALAVRAS

A GRANDE ÁRVORE DE PALAVRAS

 

Existe uma aldeia onde as pessoas quase não escrevem. É aldeia da grande árvore das palavras.

 

Nessa estranha e linda aldeia, é preciso colher as palavras e comê-las para poder falar.

 

A grande árvore de palavras dá frutos todos os dias. Quer dizer... palavras. As palavras que nascem em seus galhos são tão variadas... umas grandes... umas pequenas... Outras ainda, coloridas.

 

Às vezes pousa um passarinho e faz ninho no galho da grande árvore. E quando ele resolve bicar a palavra, seu canto se transforma em poesia!

 

Nascem palavras mais doces que as outras. Também nascem palavras azedinhas e outras azedonas.

 

Nascem palavras no alto e outras nos galhos mais baixos. As pessoas preferem as docinhas. Mas quando estão com raiva já vão logo pegando as mais azedas.

 

Na aldeia da grande árvore das palavras, só as pessoas muito ricas colhem palavras novas todos os dias.

 

As pessoas mais pobres às vezes apanham as palavras que caem no chão. Palavrinhas cocô de passarinho.

 

No outono as palavras começam a cair. Mas são as mais sem graça que não foram colhidas no verão pelas pessoas mais ricas.

 

No inverno a grande árvore dorme e não tem palavra nenhuma. Fica um silêncio triste e frio.

 

Mas quando vem a primavera a grande árvore das palavras se espreguiça e estica os galhos que começam a se encher de palavras novas e viçosas. Mas novamente vem as pessoas mais ricas e como gafanhotos e vão devorando tudo. As palavras que sobram são quase sempre esquisitas e engraçadas: inconstitucionalissimamente, paralelepípedo ou rebimboca.

 

Eu, hein! Eu é que não como uma palavra dessas! Já pensou? Pode até me dar caganeira! Às vezes uma flor que ia virar palavra se desprende da grande árvore das palavras. Vai caindo devagar e as crianças ficam brincando de tentar pegar primeiro. Mas a flor ainda não virou palavra e se cai no chão fica quietinha até que as formigas comam.

 

Formigas também gostam de flores e palavras. Ainda mais quando a palavra é daquelas docinhas.

 

Às vezes um daqueles meninos mais pobres sobe até o galho mais alto e pega a fruta... quer dizer... palavra... mais doce da árvore.

 

Ontem foi Bem que subiu. Bem lá no alto.

O nome Bem quer dizer paz e é um nome nigeriano.

 

Bem quase rasgou os fundilhos do short. Pediu licença ao passarinho, mudou de lugar o ninho e chegou no topo da árvore. E lá encontrou duas frutas e uma flor que já ia se desprender.

 

Colheu com cuidado e colocou numa sacolinha colorida de retalhos que a mãe lhe deu.

Deu um suspiro e um sorriso branquinho e desceu com a mesma dificuldade que subiu.

 

Foi pra casa e guardou a sacolinha na geladeira com muito cuidado. Não queria que a palavra se amassasse ou perdesse o gostinho de fruta... quer dizer... palavra, colhida na hora.

 

Bem dormiu e sonhou com palavras coloridas, alegres, brincando de roda. E passarinhos e ninhos com filhotinhos nos galhos da grande árvore das palavras.

 

Bem acordou cedinho. Era dia do aniversário de Alika.

Alika também é um nome nigeriano e quer dizer “a mais bela entre as mais belas”.

 

Bem e Alika são nomes nigerianos e nomes também são palavras. Palavras bonitas que nossos pais escolhem com carinho.

 

Mas voltando pra história, hoje é o dia do aniversário de Alika. E Bem está apaixonado por ela. Ele vai dar as palavras e a flor pra ela. A flor é amarela. E as palavras são amor e esperança. Que palavras bonitas!

 

Alika mora perto de Bem. Ele chega e bate na porta. Assobia como um passarinho. Não fala nada porque só tinha aquelas duas palavras e não queria que fugissem.

 

Alika abre a porta. Um grande sorriso de orelha a orelha emendou com as tranças e o laço de fita vermelha que a sua mãe já havia colocado logo cedo.

 

Bem também sorriu. Aquele sorriso branquinho que brilhava como lua crescente naquele rostinho pretinho como o céu a noite e redondo como uma jabuticaba.

 

Mas tem uma coisa que não contei pra vocês: Alika estava doente. Diziam que era grave e que ela corria risco de vida. Ninguém sabia o que era nem o remédio pra doença que ela tinha. Sabiam só que a menina tinha o coração fraco.

 

Mas como eu disse...

 

Bem estava apaixonado. E assim que a menina sorriu, chegou bem devagar perto do rosto e deu um beijinho bem carinhoso. Estendeu a mão sorrindo. Alika pegou a sacolinha colorida e foi logo pegando a flor. Colocou pra enfeitar o cabelo.

 

A primeira palavra que comeu foi a ESPERANÇA. E como que por mágica foi encontrando forças pra se curar.

 

Foi ai que encontrou a palavra AMOR. Ela deu uma mordida e ofereceu a palavra pra Bem que também mordeu.

 

Borboletas vermelhas, amarelas e azuis apareceram vindas do bosque da grande árvore das palavras.

 

Os dois começaram a dançar alegres e a se abraçar.

 

Palavras são tão importantes! Mas boas palavras são aquelas que nos fazem acreditar que a vida é boa. E as que nos curam o coração!