noite estrelada
e do alto da montanha mais alta
avisto um horizonte iluminado por fogueiras
escuto tambores
cantos e gritos alegres
uma multidão que dança
noite estrelada
e os jovens escolhem sua madraça
enquanto os mais velhos
conectados pelas raizes fortes
crescem em frondosos baobás
noite estrelada
e as crianças dormem tranquilas
sereno hálito dos inocentes
com um futuro próspero
e grandioso
noite estrelada
é noite do desdar voltas
sete mulheres
sete voltas desdadas
nove homens
nove voltas desdadas
o esquecimento já não há
noite estrelada
e cada lembrança vem a tona
o chão quente
os animais em bando
as crianças correndo
o ouro
a sabedoria ancestral
desdemos voltas
e a linhagem de cada rei foi lembrada
desdemos voltas
e a riqueza foi distribuída entre as pessoas
desdemos voltas
não mais correntes
não mais chicotes
calunga grande não é mais cemitério
desdemos voltas
e não mais senhores
não mais se nho res
desdemos voltas
e não mais favelas
caveirões
mortes e humilhações
noite estrelada
e desdemos voltas
e ascenderam aos céus
cada um e cada uma que tombou
estamos livres e fortes
a cidade não é mais aquela cinza
enfumaçada
muros só tem serventia
para serem grafitados
e contarem histórias
a velha fábrica jaz
como lembrança
desdemos voltas
e o homem não explora o homem
estamos livres e fortes
vivas e vivos
reluz no céu
o machado de Xangô
o velho sentado em seu toco ria
feliz
estalou os dedos
soltou a fumaça
eu via e chorava
e acreditei
naquele futuro que ja vinha
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