AMAR
Amar é um menino de 10 anos. ele é um menino esperto e bonito. pretinho como o céu
da noite e com duas estrelas enormes brilhando naquele rosto magrinho. ele vivia pela
cidade e dormia num cantinho florido e escondido de uma praça do centro. carregava
compras na feira. pegava e vendia latinhas. vendia balas de mesa em mesa nos bares. ele
e a mãe vieram da África tentar uma vida melhor quando ele tinha 4 anos. aos 5 a mãe
morreu e ele ficou sozinho no morro onde moravam. passou pelo barraco de um e de outro
mas não encontrou lugar. com 7 anos começou a viver nas ruas sozinho. vez em quando
encontrava alguém que lhe dava roupas usadas. uma vez ganhou um caminhãozinho de
madeira e daí em diante passou a arrastar o caminhão com as coisas que carregava. o
trabalho ficou um pouco mais fácil. mas Amar era um menino triste. viver nas ruas é
muito triste. viver sozinho é mais triste ainda. quanta tristeza e solidão no meu daquele
mundão em que Amar arrastava o caminhãozinho. mas Amar era um guerreirinho e seguia
sua vida. aprendia a ler e escrever com revistas e jornais que pegava pelas ruas e com um
ou outro livro velho que encontrava pela cidade. jogava bola com os meninos do morro
onde morou e de vez em quando soltava pipa e sonhava com pássaros e borboletas e o
rosto carinhoso da mãe. mas quando a linha arrebentava lá se ia a pipa e o sonho. e a
solidão voltava. e lá se ia nosso guerreirinho carregar latas e tristeza. até q ue um dia
aconteceu uma coisa engraçada e que ia mudar a vida de Amar. ele puxava o
caminhãozinho com as compras de uma senhora. e derrepente sentiu algo errado e olhou
pra trás. um cachorrinho pretinho com uma mancha branquinha no olho esquerdo e no
rabinho tentava morder o caminhãozinho e latia alegremente. Amar ficou encantado.
quando parou de puxar e se agachou o cachorrinho correu e pulou no seu peito. rolaram
no chão com o menino rindo. ficaram amigos ali. na rua. naquele momento. E não
desgrudaram mais. Amar agora tinha um amigo. e faziam tudo juntos. todos pelo caminho
que andavam viam a alegria daquela amizade. e até dormir juntos eles dormiam.
abraçados. um dia um fotógrafo fez uma foto de Amar e do cachorrinho dormindo juntos
no banco da praça. e a foto foi parar na internet. o mundo conheceu a história de Amar e
da amizade com o cachorrinho que ganhou o nome de Amigão. uma história tão bonita
que vó Maria quis conhecer os dois de perto. E foi até a praça. era uma tarde de muitas
flores da primavera. era uma tarde bonita e colorida. era uma tarde de amor. vó Maria
brincou e conversou muito com o menino e o cachorrinho. e na hora de ir embora com o
coração batendo forte fez o convite. ela também era uma pessoa solitária. cuidava das
crianças do morro na creche do terreiro de Umbanda. mas voltava pra casa sempre sozinha
e triste. foi criada pela vó e nunca teve mais ninguém. era a rezadeira que curava as
doenças do corpo e do coração das pessoas. mas a solidão doía nela. até que conheceu o
menino e a dor sumiu. ali. na praça. e foram os três felizes como uma família. como se já
se conhecessem de outras vidas. foram rindo e vó Maria cantando e ensinando a curimba
que mais gostava pro menino. Amigão latia e corria por entre os dois. a vida nunca mais
foi solidão para os três. Amar não era só o nome do menino. era o verbo que transformaria
a vida dos três para sempre.

