PEZINHOS GORDUCHOS
aquela noite foi especialmente encantada. coisas fantásticas aconteciam. as ruas exalavam perfume de rosas. o céu estava mais estrelado que nunca. vez ou outra uma estrela cadente riscava o escuro. a mãe tocava a Primavera de Vivaldi. dos cabelos de Chiara começaram a revoar borboletas e alguns vagalumes. a menina ria. uma das amarelas pousou em seu nariz. depois disso todas as noites foram perfumadas.
a menina acordava com a corda toda. de um pulo ia ao banheiro. xixi feito e rostinho lavado ia logo tomar o café com leite. pão com manteiga. um pequeno mamão que a avó não deixava faltar. depois chamava o pai. era ele o responsável pelo cabelo e o laço de fita amarelo. e ai partiam cúmplices orgulhosos e felizes pra encarar o dia a dia
aninhou a cabeleira black no peito dele. era ali que ela gostava de dormir. ele cantava baixinho enquanto fazia cafuné. ela também mexia nos dreads do pai. um fazia o outro dormir. sentiam-se seguros. a fortaleza era ali.
colocou o lápis vermelho na sua cabeleira black. no chão uma folha com um grande coração cercado de vários coraçõezinhos. em silêncio. pé ante pé. colocou debaixo do travesseiro da mãe que dormia. tornou a sentar e ai voaram borboletas e passarinhos. bolas. meninos. aviões. um sol enorme. levava um mundo pra mãe acordar e achar o desenho. mas valia o beijo e o café da manhã reforçado.
os olhinhos brilhavam ao ver passarinho. colocava frutas penduradas na janela do quarto. ficava quietinha escutando. gostava principalmente da sabiá e do pica pau. mas bastava ver uma gaiola que as lágrimas escorriam. em silêncio. choro preso. arrancou a fita amarela e saiu correndo. o sol brincava de colorir a água da mangueira que brilhava em arco-íris. ela dava gritinhos e pisava as poças com alegria. os pezinhos gorduchos se sentiam como patos. só faltavam voar.
era toda manhã a mesma coisa. saltitando já lá pelas 6. aparecia na beirada da cama com um pano colorido ou uma fita geralmente amarela. gostava que o pai arrumasse o black logo cedo. ganhava um beijo e um café da manhã de princesa. e o dia passava entre uma alegre tagarelice e a distração costumeira entre brinquedos e gatos.
os pezinhos gorduchos não faziam barulho ao pisar no chão frio do apartamento. sorrateiramente uma grande gargalhada explodia no colo do pai. ele titubeava sempre entre morrer de susto ou paixão.
a cozinha. um barulho de latas caindo. 3 da manhã. estendida no chão com os pezinhos gorduchos e as mãozinhas e a bochecha e tudo melado de achocolatado e açúcar. Chiara ria docemente.
corria para um lado e outro do palco. seus pezinhos gorduchinhos mediam cada centímetro daquele lugar sagrado. seria ali que ela cresceria acompanhando a família. naquela tarde roubou o show com seu turbante florido e um microfone de brinquedo. dois menininhos gêmeos acompanhavam seus movimentos com olhos faiscantes. seu fã clube começou ali.
a bola enorme tinha as cores do seu turbante. a praça enorme tinha o tamanho do seu mundo. mas ela sabia que a vida era maior. corria com os pezinhos gorduchos descalços atrás dos pombos. parava vendo os meninos dando piruetas no slackline. chegou em frente ao palhaço magrelo tocando um violino surrado e desafinado e sentou. levantou. dançou. rodopiou. riu. roubou a cena. riu mais um pouco. depois foi embora carregando a enorme bola colorida e mandando beijinhos pro palhaço que ficou apaixonado.
aprendeu a fazer bonecas com o pai. deu alguns nós em umas tiras de pano preto. a mãozinha era ágil apesar da idade. com um pedaço de chita fez um vestido e um turbante. aquela que traz felicidade. abayomi. ela sabia. contou a história na rodinha. enquanto fazia a boneca que batizou com seu próprio nome. levantou e colocou orgulhosa no colo da professora a história de um povo.
a manga era daquelas grandes. e escorria caudalosa pelo rosto pretinho e feliz e alheio ao que se passava ao redor. a manga era a fruta favorita e a lambança mais gostosa de Chiara. sentada no chão eram ela e a manga o centro do mundo. o resto era aventura para outra hora.
encontrou o pedaço de chita que os pais faziam turbante. se enrolou toda. quando a mãe chegou havia um embrulho estampado no meio da sala, pezinhos gorduchos de um lado, cabelinhos crespos do outro. não teve como não rir.
o pé gorducho pisava na poça de chuva e espirrava água alegremente. Chiara ensaiou até uma dancinha. gotas de chuva refletindo o sol que ainda brilhava. pareciam diamantes no black com laço de fita amarelo. reinaria até o final da tarde numa mini cidade encantada feita de castelinhos de lama.
sempre correndo. parecia ter pressa de viver. sempre com flores no cabelo. balanço. escorregador. picolé. escorregador. balanço. pra lá. pra cá. Chiara era assim. e faiscava sua alegria pelo parquinho. a tarde era sempre pequena.
com flores vermelhas no cabelo. Chiara ria vendo as formigas que carregavam folhas. colocou logo uma de amendoeira na cabeça e saiu formigando.
corria balançando o black com florzinhas amarelas. o rostinho molhado de suor era só alegria. pisava dona de si com os pés gorduchos naquele chão onde tantas crianças brincaram. corria. o mundo era dela. na mão uma florzinha murcha. vermelha. sentou ofegante no colo da mãe. a florzinha murcha era presente de um menino magrelinho que também corria pra lá e pra cá. uma borboleta amarela balançou poesia em sua frente e lá se foi ela ser feliz. cantarolando.
Chiara corria pela praça. trazia nos cabelos algumas folhas flores poesias. nas mãos alguns rés e sóis sustenidos, riscou uma pauta no chão e colocou tudo ali. passarinhos verdes e azuis revoavam. a menina sorriu feliz. era preciso muito pouco pra fazer sinfonia com o coração.
era uma menina muito sensível. solidária. estava aquele dia com duas bonecas de pano. a pretinha que mais gostava e uma de cabelinhos vermelhos. viu a moça sentada no chão. vendia panos de prato. ao lado uma menininha sardenta e de cabelos de pinga fogo. carinha triste. olhava para as bonecas. Chiara viu. largou da mão da mãe e foi até a menininha ruiva. tirou da bolsinha amarela um bombom meio derretido. estendeu a boneca de cabelinhos vermelhos e o bombom. a outra pegou com brilhos nos olhos e um sorriso que quase não cabia no rosto. se abraçaram. descobriram que iam estudar na mesma escolinha. e que seriam amigas da vida toda.
colocou o capacete vermelho com muito cuidado por sobre a cabeleira black. sentou no carrinho de rolimã que o pai fez sob medida. colocou os pezinhos gorduchos na ripa de madeira que guia o carrinho. olhou desafiadora pro pai e gritou vai. o pai começou a empurrar o carrinho rua abaixo. a menina abriu os bracinhos e gritava enquanto o vento cantava feliz soprando seu rostinho. mas a melhor corrida era quando pai e filha desciam juntos rindo e gritando. a bagunça era tanta que em pouco tempo as outras crianças da rua começaram a fazer seus carrinhos e aparecer com seus pais para uma corridinha.
Laura ia sair. as amigas já estavam esperando. entrou no quarto para pegar a frasqueira de maquiagem mas não achou. achou só um pó branco com umas marquinhas de pezinhos gorduchos no chão. foi seguindo a trilha que desapareceu por debaixo da porta do quarto do pai. quando abriu a porta Chiara estava toda borrada de muita maquiagem. uma escova na mão. dançando e cantando os reggaes que o pai gostava. repetia o que Laura já havia feito na infância. a irmã mais velha não pensou duas vezes.
mandou mensagem para as amigas dizendo que não ia. depois se colocou pacientemente a fazer uma linda maquiagem na irmãzinha. e fizeram o maior show de reggae que aquele apartamento já viu. Laura queria ser madrinha da irmã. foi mais que isso. foi a melhor amiga e o espelho. era muito amor envolvido.
gostava de ir à missa de domingo. gostava de sentar no primeiro banco. gostava de ver as velas acesas. gostava de ver o padre fazendo a homilia. prestava atenção em tudo como se entendesse todos os mistérios. mas gostava mesmo era de colocar os pezinhos gorduchos pra caminhar pela igreja na hora da Paz de Cristo. com um sorriso e a mãozinha cumprimentava a todo mundo e desejava a Paz. depois corria pra um beijo e um abraço bem forte no pai. voltavam para casa com o coração limpo e feliz.
os pezinhos gorduchos palmilhavam curiosos o estúdio de gravação. a madrinha Mariana gravava mais uma música linda e Chiara ali doidinha pra cantar também. mas os olhinhos de jabuticaba brilhavam mesmo era quando olhava a guitarra. quando a gravação parou saiu correndo. pulou no colo da madrinha com mil beijinhos. depois soltou a cabeleira e colocou um óculos escuro e começou a dedilhar com seus dedinhos a guitarra. mas a melhor brincadeira viria depois. saíram as duas de mãos dadas cantarolando um bom rock'n'roll pra se lambuzarem na sorveteria. a tarde terminava com risadas e muito sorvete de flocos com confeitos.
ganhou um cavalinho desses de cabo de vassoura. virou uma amazona de cabeleira black e pezinhos gorduchos. cavalgava rumo ao por do sol como no fim dos filmes de cowboy. mas no fim de tarde ao entrar no saloom em vez de wisky ganhava sempre um copão de leite e um bom pedaço de bolo.
silêncio. daqueles que precedem um furacão. os pezinhos gorduchos de repente disparam numa corrida que termina em cima do sofá. a cabeleira black estava sem fita colorida. uma panela como capacete. um pedaço de chita amarrado como capa. numa mão uma colher de pau e na outra a boneca pretinha. foi quando o padrinho Raul entrou na sala. nossa heroína voou do sofá para o colo dele. o dia prometia aventuras risadas e alguns gibis de super-heróis esparramados pelo chão da sala.
escondia atrás da porta. num pulo rugia como um leão e corria atrás do gato preto Ganjah. Ganjah corria desesperado e escondia. ela procurava. pique esconde e correria. noutro pulo era Ganjah quem corria atrás dela. vez em quando os outros gatos entravam na brincadeira. que acabava sempre no sofá da sala. embolados entre bonecas e brinquedos musicais.

