eu não me canso de ser maldito
nem tenho a pretensão
que me comprem nessas livrarias chics
não contabilizo clics nem curtidas
eu não me canso de ser maldito
e falo alto meus poemas nas ruas
e eles gritam
os poemas e as ruas
e sangram e lutam e riem
eu não me canso de ser maldito
e quando olho pra trás
vejo reis e rainhas e pretos velhos
e eles me apontam o caminho
eles me fortalecem
eles me abrem os olhos
e eu vejo os capitães do mato
aqueles e aquelas que obtiveram privilégios
mas ainda são moidos pelo capital
que tal
eu não me canso de ser maldito
eu não me importo
que ache minha poesia um lixo
eu continuo fazendo minhas afrontas
desobedecendo as regras
suprimindo as maiúsculas
os pontos e parágrafos
e recheando tudo com pretas e pretos
orixás
luta de classes desvalidos
prazeres e dores
eu não me canso da luta
de criticar o monstro presidente
a deforma e a retirada de direitos
eu não me canso de ser esse maldito
e sigo me equilibrando
entre o meio fio e a sarjeta
entre o precipício e o voo
e abro os braços
as palavras
e me entrego

