o dia nasceu e mais uma vez as crianças estavam brincando no terreiro. as cabras passeavam por ali e os porcos fuçavam raízes enquanto o sol ia subindo devagar. pai Antero sentou em seu toco olhando com carinho as brincadeiras. Maria foi a primeira a se sentar na frente do velho. gostava de ouvir e aprender as histórias. gostava de aprender sobre o seu povo. já sabia que seus avós e seus pais foram escravizados na África e jogados no porão escuro de um navio pra cruzar o mar. que vinham reis e rainhas e guerreiros e ferreiros e todo tipo de gente pra serem escravos aqui. pra fazer todo tipo de trabalho. era uma história triste e dolorosa mas a menina queria saber e sempre que podia perguntava pra pai Antero. ela sabia que seu avô chegou aqui antes da avó. que chegaram separados em navios e meses diferentes. seu pai e sua mãe vieram no mesmo navio. pequenos e separados das famílias. era assim que faziam sua gente fraca. separavam a família. afastavam pais e filhos e todos os parentes. e todo mundo ficava fraco e triste assim. as crianças choravam com medo e saudade dos pais. e choravam naquele porão escuro sujo e com cheiro de dor. mas as mulheres do seu povo eram mulheres fortes e cheias de amor por crianças. mães amorosas que cuidavam de outros filhos. dos filhos dos outros. as crianças choravam. muito. e aquelas mulheres não podiam fazer nada. não podiam dar comida não podiam brincar não podiam fugir não podiam abraçar as crianças. todos estavam acorrentados. mas precisavam acalmar e confortar as crianças. a vó de Maria teve uma idéia e contou pra outra mãe que contou pra outra que contou pra outra. começaram a rasgar tiras de suas roupas.e com as tiras começaram a fazer bonecas. sem agulha ou linha. apenas com as tiras e nós. bonecas. coloridas. com as cores e desenhos dos panos africanos. bonecas que faziam as crianças se acalmarem. bonecas que davam esperança de o mal não ser tanto nem a morte chegar antes da hora. bonecas abayomi. aquelas que trazem alegria. Pai Antero contava e a criançada que já estava toda sentada se encantava com a história. Maria ja tinha aprendido a fazer a bonequinha. fez uma enquanto o velho contava a história. Pai Antero ficou contente. a menina estava aprendendo depressa. ele sabia que ela contaria as histórias e ensinaria tudo que aprendia com ele. já estava na hora de ir. Ele bateu seu cajado três vezes no chão e se levantou.era hora de ir. era hora de pegar o caminho de Aruanda. as crianças ficaram pra aprender a fazer a boneca. era hora de Maria começar a ensinar. era hora. e cada criança fez uma bonequinha pra se lembrar. da força do amor. da familia. do cuidado com o outro. e foram dormir felizes e sonhar com liberdade.
p.s.: existe uma linda e romantizada história que diz que a boneca nasceu nos tumbeiros feita de retalhos das roupas das mulheres para acalmar as crianças. mas essa história não é verdade. só fui saber após escrever este conto. resolvi manter mas ressaltar a origem das bonecas segue um pequeno texto expliativo e vou compartilhar em meu stories dois vídeos que falam sobre. eu hoje conto a história falsa como estória e a história verdadeira. é preciso não romantizar a história e dar crédito a artista: "Como surge a Boneca Abayomi no Brasil? O ano de 1980 é marcado pelo contexto do Movimento Negro, momento em que se organizava a marcha para lembrar os 100 anos da abolição. A educadora popular e militante, Waldilena Martins, ou como é mais conhecida, Lena Martins, inicia a confecção de Bonecas Abayomi no Brasil."

