CRIANÇAS CORRIAM PELO TERREIRO
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CRIANÇAS CORRIAM PELO TERREIRO

crianças corriam pelo terreiro. alvoroçavam a manhã e as galinhas. pelas frestas dos barracos fios de fumaça saiam. cafés tardios e o feijão que aplacaria a fome do dia. algumas das mulheres lavavam roupas e cantavam na beira do rio. os homens mais jovens roçavam ou estavam na cidade vendendo mandioca ou fubá. ele ali. vendo o mundo com seus olhos cansados. pés descalços e o companheiro cajado feito de um galho de árvore. no seu lugar de todos os dias. curvou um pouco mais o corpo magro e tocou o chão com a palma da mão calejada. respiração ofegante. alguns homens e mulheres correndo. algumas com crianças no colo. alguns com facões e pequenas trouxas com sementes roupas um pouco de comida que conseguiram roubar. o corte dos bambus e galhos de árvore. o barro. o tambor e a cantoria. os barracos. nascia o quilombo e a liberdade. as noites de jongo fogueira amor na rede. os dedos estalando o benzimento. e ele olhava o terreiro e aquelas crianças. em breve não estaria mais ali. Aruanda já estava esperando. Maria era a mais espevitada das crianças. e a que mais gostava do velho. foi a primeira a sentar naquela manhã. com os olhinhos brilhantes olhava pro terreiro também. os dois viam a mesma coisa. e viram crianças. velhos e velhas e seus terços e folhas. um terreiro cheio e movimentado com mulheres dançando. as gentes coloridas. amarelos. vermelhos. verdes. azuis. muito branco e luz. poeira subindo levantada por pés. muitos pés. pés de rainhas e reis. de guerreiros e caçadores. gente comum e índios. muitos índios e índias. e as outras crianças foram se sentando e também viam. Maria fez um longo psiu e o silêncio se fez. o velho bebeu um bom gole de café enquanto todo mundo ali se ajeitava pra escutar. e contou das caçadas de leão. das batalhas das tribos. do branco com seu cano de trovão. e contou do escuro do navio. da fome medo cheiro de merda e morte. e contou dos dentes do dinheiro da fila do chicote. e contou dos cães do engenho do tronco do chicote. contou do amor. do senhor. da menina arrastada pra casa grande. do senhor rasgando a roupa. dos gritos. da dor. contou das crianças do tambor das danças dos planos. contou de como ele era jovem. jovem e forte. de como cortaram o pescoço do homem do chicote. de como pegaram os facões e de como atearam fogo na senzala e na casa grande e na roça e de como se enfiaram correndo na mata. contou dos cães latindo e dos capitães do mato. da luta. do sangue. contou da vitória e da luta que vem sempre antes da vitória. contou contou contou. chorou. respirou fundo e sorriu. contou que com a liberdade tudo mudou. as dores eram outras. as lutas eram outras. e o amor estava ali entre eles. que as crianças ali eram pequenas contas de luz e amor abençoando aquele quilombo. que o tempo de escravidão ia longe. Maria ia repetindo tudo bem baixinho. já havia decorado cada palavra. já sabia repetir. já sabia. já podia continuar. fazer chegar a outras crianças. e o velho estava satisfeito. disse que a gira daquela noite seria cheia de axé. levantou e caminhou livre e feliz pra Aruanda.