NAVIOS E ESTRELAS
Todo dia vovô João acordava Baako com um sorriso carinhoso que iluminava o barraco.
A fumaça do fogão se misturava ao cheirinho de café e pão que ele não deixava faltar. Era ele que criava o menino com o dinheiro das latinhas que catava pela cidade e trocava por minguadas moedas todos os dias. O sacrifício era grande mas assim sempre tinha comida, pouca, é verdade, e quase sempre sem carne, o café e o pão de todo dia, cadernos, lápis, borracha, e o luxo: uma caixinha de lápis cor que o menino transformava em histórias coloridas, quase sempre de orixás e pretos e pretas velhas, que o vovô João lhe contava.
Baako havia perdido os pais com 5 anos. Vovô João não era seu avó de verdade. Mas foi ele que resolveu ficar com o menino quando tudo aconteceu. Os pais de Baako haviam vindo da África num navio de imigrantes. Imigrantes são aquelas pessoas que resolvem sair do seu país pra morar em um outro, por causa da guerra, por falta de emprego ou por outro motivo quase sempre muito triste. E os pais de Baako fugiram de seu país, a Somália. Lá, além da guerra e desemprego, havia a seca, que fazia com que as pessoas passassem fome. Vieram para o Brasil em um pequeno navio cheio de imigrantes que queriam a mesma coisa: uma chance de viver.
Todos chegaram muito doentes. Os pais de Baako não aguentaram e morreram alguns meses depois de chegar aqui. Baako sobreviveu.
Mas eu não contei uma coisa que vou contar agora: Baako tinha uma irmã chamada Diara. E eles eram muito apegados. Se gostavam muito e ficaram mais apegados ainda quando os pais morreram. E vovô João, que recebera aquelas pessoas em sua casa, resolveu criar o menino e a menina.
Baako é um nome nigeriano e significa “o primeiro bebê a nascer” e Diara é um nome angolano e significa “presente”. Mas essa história começou mesmo muito triste. Um ano depois dos pais. Diara também morreu.
Baako ficou muito triste e sozinho. Mas o carinho e o amor de vovô João era tanto e tão grande, que Baako superou tudo. Era um menino alegre. Inteligente. E sonhador. Escutava as histórias que vovô João contava com a maior atenção. E foi aprendendo sobre os orixás. E foi aprendendo sobre o povo preto que chegou no Brasil a muitos e muitos anos como sua família, mas que chegou acorrentado e escravizado. Foi aprendendo sobre as ervas que curam e sobre as orações que também curam, protegem e aliviam a alma.
Baako ia pra escola e lá gostava de jogar bola e de aprender a ler e escrever e fazer contas. Mas um dia alguns meninos de pele clara e olhos diferentes viram que Baako usava uns cordões no pescoço. Um preto e branco e um azul e rosa. E começaram a implicar com ele. Apontavam pra ele e gritavam: “Baako macaco macumbeiro filho de lixeiro” Aquilo deixou o menino arrasado e ele chorou. Muito
Chegou no barraco chorando. Vovô João se preocupou com o choro e perguntou o que havia acontecido. Baako contou tudo, chorando. Vovô João. pegou o menino pela mão e puxou pra perto de si. Sentaram na cama e o velho acendeu uma vela. E começou a fazer sombras na parede de tábua do pequeno barraco. fez elefante, leão, jacaré ... fez um monte de bicho da África. E Baako parou de chorar. Foi ai que vovô João puxou o menino pra fora do barraco pra mostrar o céu. Mostrou as estrelas. E falou:
_“Baako não tem que chorar. Baako é um anjo bonito. Um presente de Oxalá pro mundo e pra mim! Quando seus pais e sua irmã fizeram a passagem, você ficou porque tinha uma missão. E vai cumprir essa missão. Baako... não chora mais. Você é preto como a noite. E é na noite que as estrelas brilham pra nos contar histórias e nos fazer lembrar. Lembrar dos que fizeram a passagem. Lembrar que nossos irmãos e irmãs que vieram no passado da África foram escravizados mas eram reis e rainhas lá. Guerreiros fortes e mulheres lindas e guerreiras também”
Baako ia vendo as estrelas e elas se mexiam. Iam formando cada coisa que vovô João falava. Formavam escudos e lanças e flechas de guerreiros, Formavam os animais as coroas das rainhas e três estrelas em especial chamara a atenção de Baako.
_”Aquelas lá são as três Marias. Elas são especiais pra você porquê?” perguntou vovô João.
E Baako disse que eram seus pais e irmã. E que as outras pareciam dançar em volta deles. Vovô João sorriu. Começou a bater palmas ritmadas e cantar baixinho. O menino já sabia tanta coisa, já tinha aprendido tanto. Agora era hora de aprender mais um pouco.
Disse a Baako pra fechar os olhos e olhar pra dentro. E Baako fez isso. Obedecia sempre a vovô João. E Olhando pra dentro viu aquilo tudo que conversavam dentro dele. E viu milhares de estrelas brilhando e dançando ao ritmo das palmas de vovô João. E começou a dançar e bater palmas também E se encheu de alegria e uma paz enorme. À partir daquela noite Baako passou a ir ao terreiro de Umbanda que ficava naquele morro. Começava ali uma vida de fé! Vovô João sabia que um dia seria Baako quem contaria aquelas histórias. Os desenhos ele já tinha. Começava agora a viver na fé. As palavras viriam devagar. No passo de um preto velho.

