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Carlos Eduardo Giglio

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O DIA NASCEU E MAIS UMA VEZ

Contos0h atrás

o dia nasceu e mais uma vez as crianças estavam brincando no terreiro. as cabras passeavam por ali e os porcos fuçavam raízes enquanto o sol ia subindo devagar. pai Antero sentou em seu toco olhando com carinho as brincadeiras. Maria foi a primeira a se sentar na frente do velho. gostava de ouvir e aprender as histórias. gostava de aprender sobre o seu povo. já sabia que seus avós e seus pais foram escravizados na África e jogados no porão escuro de um navio pra cruzar o mar. que vinham reis e rainhas e guerreiros e ferreiros e todo tipo de gente pra serem escravos aqui. pra fazer todo tipo de trabalho. era uma história triste e dolorosa mas a menina queria saber e sempre que podia perguntava pra pai Antero. ela sabia que seu avô chegou aqui antes da avó. que chegaram separados em navios e meses diferentes. seu pai e sua mãe vieram no mesmo navio. pequenos e separados das famílias. era assim que faziam sua gente fraca. separavam a família. afastavam pais e filhos e todos os parentes. e todo mundo ficava fraco e triste assim. as crianças choravam com medo e saudade dos pais. e choravam naquele porão escuro sujo e com cheiro de dor. mas as mulheres do seu povo eram mulheres fortes e cheias de amor por crianças. mães amorosas que cuidavam de outros filhos. dos filhos dos outros. as crianças choravam. muito. e aquelas mulheres não podiam fazer nada. não podiam dar comida não podiam brincar não podiam fugir não podiam abraçar as crianças. todos estavam acorrentados. mas precisavam acalmar e confortar as crianças. a vó de Maria teve uma idéia e contou pra outra mãe que contou pra outra que contou pra outra. começaram a rasgar tiras de suas roupas.e com as tiras começaram a fazer bonecas. sem agulha ou linha. apenas com as tiras e nós. bonecas. coloridas. com as cores e desenhos dos panos africanos. bonecas que faziam as crianças se acalmarem. bonecas que davam esperança de o mal não ser tanto nem a morte chegar antes da hora. bonecas abayomi. aquelas que trazem alegria. Pai Antero contava e a criançada que já estava toda sentada se encantava com a história. Maria ja tinha aprendido a fazer a bonequinha. fez uma enquanto o velho contava a história. Pai Antero ficou contente. a menina estava aprendendo depressa. ele sabia que ela contaria as histórias e ensinaria tudo que aprendia com ele. já estava na hora de ir. Ele bateu seu cajado três vezes no chão e se levantou.era hora de ir. era hora de pegar o caminho de Aruanda. as crianças ficaram pra aprender a fazer a boneca. era hora de Maria começar a ensinar. era hora. e cada criança fez uma bonequinha pra se lembrar. da força do amor. da familia. do cuidado com o outro. e foram dormir felizes e sonhar com liberdade. p.s.: existe uma linda e romantizada história que diz que a boneca nasceu nos tumbeiros feita de retalhos das roupas das mulheres para acalmar as crianças. mas essa história não é verdade. só fui saber após escrever este conto. resolvi manter mas ressaltar a origem das bonecas segue um pequeno texto expliativo e vou compartilhar em meu stories dois vídeos que falam sobre. eu hoje conto a história falsa como estória e a história verdadeira. é preciso não romantizar a história e dar crédito a artista: "Como surge a Boneca Abayomi no Brasil? O ano de 1980 é marcado pelo contexto do Movimento Negro, momento em que se organizava a marcha para lembrar os 100 anos da abolição. A educadora popular e militante, Waldilena Martins, ou como é mais conhecida, Lena Martins, inicia a confecção de Bonecas Abayomi no Brasil."

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CRIANÇAS CORRIAM PELO TERREIRO

Contos0h atrás

crianças corriam pelo terreiro. alvoroçavam a manhã e as galinhas. pelas frestas dos barracos fios de fumaça saiam. cafés tardios e o feijão que aplacaria a fome do dia. algumas das mulheres lavavam roupas e cantavam na beira do rio. os homens mais jovens roçavam ou estavam na cidade vendendo mandioca ou fubá. ele ali. vendo o mundo com seus olhos cansados. pés descalços e o companheiro cajado feito de um galho de árvore. no seu lugar de todos os dias. curvou um pouco mais o corpo magro e tocou o chão com a palma da mão calejada. respiração ofegante. alguns homens e mulheres correndo. algumas com crianças no colo. alguns com facões e pequenas trouxas com sementes roupas um pouco de comida que conseguiram roubar. o corte dos bambus e galhos de árvore. o barro. o tambor e a cantoria. os barracos. nascia o quilombo e a liberdade. as noites de jongo fogueira amor na rede. os dedos estalando o benzimento. e ele olhava o terreiro e aquelas crianças. em breve não estaria mais ali. Aruanda já estava esperando. Maria era a mais espevitada das crianças. e a que mais gostava do velho. foi a primeira a sentar naquela manhã. com os olhinhos brilhantes olhava pro terreiro também. os dois viam a mesma coisa. e viram crianças. velhos e velhas e seus terços e folhas. um terreiro cheio e movimentado com mulheres dançando. as gentes coloridas. amarelos. vermelhos. verdes. azuis. muito branco e luz. poeira subindo levantada por pés. muitos pés. pés de rainhas e reis. de guerreiros e caçadores. gente comum e índios. muitos índios e índias. e as outras crianças foram se sentando e também viam. Maria fez um longo psiu e o silêncio se fez. o velho bebeu um bom gole de café enquanto todo mundo ali se ajeitava pra escutar. e contou das caçadas de leão. das batalhas das tribos. do branco com seu cano de trovão. e contou do escuro do navio. da fome medo cheiro de merda e morte. e contou dos dentes do dinheiro da fila do chicote. e contou dos cães do engenho do tronco do chicote. contou do amor. do senhor. da menina arrastada pra casa grande. do senhor rasgando a roupa. dos gritos. da dor. contou das crianças do tambor das danças dos planos. contou de como ele era jovem. jovem e forte. de como cortaram o pescoço do homem do chicote. de como pegaram os facões e de como atearam fogo na senzala e na casa grande e na roça e de como se enfiaram correndo na mata. contou dos cães latindo e dos capitães do mato. da luta. do sangue. contou da vitória e da luta que vem sempre antes da vitória. contou contou contou. chorou. respirou fundo e sorriu. contou que com a liberdade tudo mudou. as dores eram outras. as lutas eram outras. e o amor estava ali entre eles. que as crianças ali eram pequenas contas de luz e amor abençoando aquele quilombo. que o tempo de escravidão ia longe. Maria ia repetindo tudo bem baixinho. já havia decorado cada palavra. já sabia repetir. já sabia. já podia continuar. fazer chegar a outras crianças. e o velho estava satisfeito. disse que a gira daquela noite seria cheia de axé. levantou e caminhou livre e feliz pra Aruanda.

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UMA GRANDE E TRISTE NOTÍCIA

Contos0h atrás

escrevo já a bastante tempo pequenos contos com Pai Antero e Maria. dois viraram teatro de bonecos. são contos carregados de espiritualidade, afeto e cultura e religiosisade afrobrasileira. escrevi este agorinha. Ewá era filha de uma irmã de fé e fez a passagem a coisa se 3 dias. fica ai a homenagem e carinho pra mãe. e uma pequena mensagem de esperança pra esses dias sofridos que estamos vivendo. uma grande e triste neblina tomou conta da manhã. garoava bem fininho e frio. a pandemia não dava tréguas. ainda assim pai Antero sempre vinha. Maria sabia e esperava da janela. os passarinhos continuavam cantando apesar de tudo. e nessa manhã eles cantavam tristes.a linda menina Ewá havia feito a passagem. Maria chorava baixinho na janela. e pai Antero foi chegando com seu passo miudinho. vinha rezando seu terço e chegou bem em frente a janela. Maria esboçou um sorriso mas as lágrimas escorriam. o velho entendia. ele sabia das dores que a perda de um criança causava. Ewa era uma menina linda. mas estava doente e em tratamento. um sofrimento que a passagem fez passar. Pai Antero falou sobre isso e contou que na Nigéria existia um rio chamado Ewá. contou do quanto ela era valente e corajosa e que não teve medo da passagem. como rio que segue ela foi pra Aruanda. e que por onde esse rio foi passando flores foram brotando trazendo beleza e esperança pras pessoas. e nem bem pai Antero falou isso e uma linda flor amarela brotou bem debaixo da janela de Maria que ja tinha parado de chorar. ela saiu correndo e deu um abraço apertado no preto velho. agradeceu e pediu pra ele cuidar de Ewá. Pai Antero respondeu que era pra Maria cuidar da flor e ter esperança. que não ia ser pra já mas que as coisas iam melhorar. que ele e Ewá estariam orando e mandando muito Axé. e como estava na hora ele bateu seu cajado tres vezes no chão e se pois a caminho de Aruanda. Maria ficou cuidando da flor com carinho. e rezando. Ewá brilhou no céu um lindo sorriso.

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