Herdei o que não foi dito

Herdei o que não foi dito

Herdei o que não foi dito

 

Os olhos de minha mãe

e a arrogância do meu pai

me tornaram

uma mulher crescida

sem paz.

 

A doçura da minha mãe permanece

em meu semblante,

radiante,

impressionante.

 

Mas, escondido,

ele sempre volta a aparecer,

falhando em ser deixado.

 

A herança que meu pai selou em mim

foi sua forma de viver

e desprezar o mundo:

moldar sua menina com seu escudo,

erguer um muro em volta do orgulho,

permanecer leal às decisões

— jamais voltar atrás.

 

Meu coração berra

aos gritos do silêncio do meu pai,

que nunca mostra o que faz

e se esconde

de maneira perspicaz.

 

Sinto:

o amor deles ainda está enraizado em mim.

 

Reflete

em minha maneira de agir,

de lidar

com todos à minha volta.

 

Eternizados em minhas memórias,

fui moldada

em suas falhas

e vitórias.

 

Carregada por uma história

de dois amantes apaixonados

que deixaram, eternizado,

uma nova vida ao mundo.

 

Um amor

quase platônico —

mas não o bastante

para durar.

 

Meu destino não é escrito:

é vivido

e decidido.

 

Permito-me explorar,

percorrendo as letras de um livro,

carrego comigo

a benevolência de ter permanecido

e, ao mesmo tempo,

berro

gritos

por não me sentir ouvida,

nem compreendida.

 

Não desejo mais me sentir fadada,

nem destinada

a carregar uma carga pesada

que me foi deixada

sem ao menos esclarecer nada.

 

Não estou presa

aos pecados de meu pai.

Seu semblante ainda reflete em meu rosto

quando penso demais,

quando falo demais —

para mim,

tanto faz.

 

Quero me libertar

de laços passados,

de amores que deram errado.

Encerrar nossos laços.

Destruir o passado.

 

Uma versão de mim

irá renascer —

como rejuvenescer.

Uma luz,

num lugar ensolarado,

abre espaço

e naufraga

o que me torna estranha.

 

Uma nuvem carregada

como olhos pesados:

escurece,

aborrece,

despeja

tudo

o que carrego.

 

Meus gritos

são silenciosos.

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