forsakendollie '

forsakendollie '

forsakendollie `

 

A tristeza lhe foi embora,

lágrimas escorregadias que transbordam em páginas viradas,

retalhadas,

desfeitas por água salgada.

 

O corte que se lava à beira do mar

arde ao cicatrizar,

deixa-a amargar

para lhe lavar do retrato que irá despedaçar;

poesias que não irão voltar

e palavras que vão desmanchar.

 

Tinta que sujará as dedicatórias

de um amor ressentido,

deixadas em olhos perdidos

que visualizam abrigo

em um lar que afundou;

a ferida que não cicatrizou

e o amor que o mar levou.

 

Meu amor,

sinto lhe dizer:

meu coração não irá mais sofrer,

pois foi cuidado,

amado

e incendiado,

sem tua água salgada.

 

Sem cortar-me,

deixaste a ferida entreaberta.

 

Com linhas de costura,

fui retalhada como uma boneca,

tirada do subsolo.

 

A boneca,

desovada,

largada à beira de uma estrada,

pisoteada,

deslocada,

quebrada.

 

Os algodões que lhe foram arrancados

guardavam um bilhete

no fundo de seus espaços vazios,

dizendo:

 

"Ao ser encontrada,

ame o seu opaco desmembrado,

e ela lhe dará

tudo o que lhe foi tirado."

 

O carrasco

foi jogado fora;

não valia ser amado.

 

A podridão afastava

a esperança de ser escolhida.

Não amariam

uma causa perdida.

 

Mas foi, sim,

vista

por outra alma ressentida,

cujo cheiro preenchia

o enfraquecido,

o doloroso,

também perdido.

 

Tomaste-a para ti.

 

As escrituras da boneca,

finalmente,

têm um fim.

 

Onde, aos teus olhos,

valia o tempo que perdeste costurando-me,

amando cada pedaço,

cada buraco encontrado,

mofado

e deixado de lado.

 

Se, ao teu olhar,

valia o esforço

desenterrar um amor no fundo do poço

e consertar o que foi abandonado,

deixado aos trapos,

visto como descartável

e sem espaço,

 

com meus buracos agora preenchidos,

lhe darei um espaço como abrigo,

para aguardar o teu amor

nos trapos que tiraste de mim.

 

Os pedaços de mim,

que antes iriam apodrecer,

agora serão por você.

 

Não por dor

ou abandono,

mas pelo amor

que me adotou como dono.

 

Pelas linhas

que me abrigaram,

pela costura

que ainda deixa rastros

do sentimento enterrado.

 

O cheiro empoeirado

deixou este quarto,

que, no canto,

já não ocupa mais espaço.

 

Amo-te, boneca ressentida.

Tornaste-te a luz da minha vida;

tomei-te como minha.

Publicidade
PATROCINADO