SEMPRE PERTO, NUNCA JUNTOS

SEMPRE PERTO, NUNCA JUNTOS

Era alto e magro, tinha os cabelos acinzentados e usava óculos que lhe conferiam um certo ar de imponência. Tinha um olhar penetrante e observador. Lia muito. Era erudito, metódico e fátuo.

Vestia um jaleco branco, impecavelmente engomado, com perfeitos vincos. Para ele, quase tudo tinha explicação. Não acreditava em nada que a ciência não pudesse explicar. Saia para trabalhar muito cedo. O prédio onde trabalhava era antigo. As paredes, de um tom já desbotado pelo tempo, transmitiam uma estranha sensação de abandono. O jardim, modesto, porém cuidadosamente cultivado pelo velho jardineiro, parecia resistir firmemente aos anos. Ou talvez envelhecesse com ele.

Caro leitor, o silêncio do lugar dava a impressão de um estranho torpor. Os largos corredores eram adornados por vasos onde, há muito, já não se via uma planta. Às vezes, um grito ou o ranger de dentes ecoava e fazia as paredes tremerem. Ah, meu caro, aqueles gemidos causavam arrepios.

O doutor, como era chamado, chegava pontualmente às seis horas da manhã. Bem penteado, barba feita e seu indispensável jaleco, caminhava pelos corredores com tanta segurança que, às vezes, tinha-se a impressão de que havia ali uma “pitada” de arrogância. Às vezes, via-se o doutor andando apressadamente pelos corredores quando ouvia, pelo alto-falante, que sua presença era solicitada com urgência na sala de emergência.

Um dia, ouviu urros, gritos, palavras desconexas. Encontrou um homem que se debatia, e dois homens, grandes e fortes, quase não conseguiam segurá-lo. O doutor chegou à porta e observou a cena. Tinha-se a impressão de que aquilo era algo natural para ele. Havia muitos iguais, e quase sempre apresentavam o mesmo comportamento.

Mas, estimado leitor, o doutor, sempre cético, teve a impressão de haver algo “mais” naquele comportamento. Deu instruções para que aplicassem ao doente uma injeção forte o suficiente para derrubá-lo. Aos poucos, o local voltou à normalidade. Ele

encaminhou-se para a porta, mas, antes de sair, voltou olhar para a sala.

Não viu nada.

A sala estava vazia. Nenhum som humano saía dali. Ainda assim, teve a impressão de ter ouvido alguma coisa.

— Ah... devo estar imaginando coisas — pensou. — Nada como um banho quente e uma cama para descansar. Antes de se deitar, o doutor, como sempre, conferia suas anotações referentes ao comportamento diário de seus pacientes. Na manhã seguinte, o doutor cumpriu sua rotina, mas algo parecia diferente.

Ao passar pelo jardim, distraído, não deu bom-dia ao jardineiro. Seguiu de cabeça baixa, sem sequer mirar os olhos dos funcionários que cruzavam seu caminho. Um deles perguntou: — O senhor está bem, doutor? Ele não ouviu, ou simplesmente fingiu não ouvir, e continuou andando pelo longo corredor. Mas aquele paciente, em especial, havia deixado no doutor uma impressão que o incomodava. E ele não gostou daquela ideia.

Passou por um quarto e parou por um instante. Uma senhora velha girava uma boneca sem parar; às vezes, abraçava-a, outras, jogava-a contra a parede. Como se aquilo fosse algo natural, virou-se e continuou seu percurso, parando em alguns quartos. Enquanto caminhava, percebeu que estava perto daquele paciente. Parou por alguns instantes, não conseguia mover um passo.

— O que está acontecendo comigo?

Ficou parado. Pensou em entrar, olhou para os lados. Estava sozinho. Quando finalmente tomou coragem, um frio percorreu lhe a espinha, seguido de um arrepio.

— Meu Deus! devo estar muito cansado. Mas, naquele instante, perguntou a si mesmo: “Eu estou chamando por Deus?” Sentiu-se envergonhado. Era um homem da ciência.

Afastou-se; não queria ver o que estava atrás daquela porta. Mas, de repente, deu um sobressalto! Um susto que lhe tirou o ar.

— Desculpe-me, doutor, se o assustei — disse o enfermeiro, que trazia uma bandeja com os medicamentos do jovem inquieto.

O enfermeiro perguntou:

— Doutor, o senhor prefere consultar o paciente antes de medicá-lo?

O médico ficou pensativo. Seu olhar permaneceu parado por alguns instantes. A voz do enfermeiro, chamando-o, tirou-o daquele torpor que durara apenas alguns segundos, mas que, para ele, parecera uma eternidade.

Deu as costas, ignorando o enfermeiro que, sem entender o que acabara de presenciar, entrou no quarto para atender o paciente.

Caminhou a passos largos. Entrou no banheiro e lavou o rosto com água gelada, que lhe provocou calafrios. Olhou-se no espelho e perguntou a si mesmo:

— O que está acontecendo comigo?

Ah, querido leitor, o nobre doutor estava mesmo diferente. Os olhares dos funcionários já denunciavam alguma coisa. Havia sempre uma “conversinha” aqui, outra ali, nos cantinhos, no refeitório, durante o café. As fofocas começavam a correr pelos corredores.

Naquela tarde, enquanto percorria um dos longos corredores, o doutor teve a impressão de ver uma figura ao longe. Parou. Por alguns instantes, permaneceu imóvel, tentando distinguir o que havia diante de seus olhos. Parecia alguém. Uma mulher, talvez. Mas, quando piscou e tornou a olhar, havia apenas o corredor vazio e a luz pálida entrando pelas janelas.

Continuou andando tentando convencer-se de que fora apenas uma impressão. Alguns passos adiante, sentiu um leve perfume no ar. Parou novamente. Olhou para os lados. Nada. Apenas o silêncio habitual daquele lugar.

Naquela noite, porém, enquanto examinava suas anotações, ouviu uma voz baixa. Não conseguiu distinguir as palavras. Levantou-se rapidamente e abriu a porta. O corredor estava deserto. Ficou alguns segundos observando a escuridão e, então, fechou a porta.

No dia seguinte, uma sombra atravessou o corredor diante dele. Foi tão rápida que não teve tempo de saber se realmente a vira. Caminhou até o local. Nada encontrou. Voltou lentamente, com a sensação incômoda de que alguém o observava.

Ah, querido leitor, talvez tudo não passasse de cansaço. Afinal, sombras, vozes e impressões podem pregar peças até nos olhos mais atentos. Ou talvez não!

Naquela tarde, ao passar novamente pelo corredor, o doutor viu a mesma sombra. Desta vez, porém, ela pareceu deter-se diante da porta do jovem de cabelos desalinhados. Permaneceu ali por alguns instantes, imóvel, quase confundindo-se com a penumbra do corredor. O doutor parou. Tirou os óculos, limpou as lentes com a ponta do jaleco e tornou a colocá-los.

A sombra ainda estava ali.

Então, lentamente, pareceu atravessar a porta e desaparecer dentro do quarto. O doutor aproximou-se. Ficou diante da porta, olhando fixamente para ela. Escutou. Do outro lado, nenhum ruído.

Apenas o silêncio.

Por alguns segundos, permaneceu imóvel. Depois, recuou lentamente. Talvez tivesse sido apenas uma ilusão. - Preciso mesmo de umas férias.

Antes de ir embora, naquele dia, o doutor tomou coragem e foi ao quarto do jovem paciente. Encontrou-o sentado em frente à janela, o olhar fixo. Os cabelos desalinhados davam-lhe uma aparência mais velha, talvez atormentado pela rotina de idas e vindas, de julgamentos.

O doutor resolveu se aproximar mais. A princípio, chamou o rapaz, mas ele não se moveu. Caminhou mais um passo e, de repente, o rapaz arregalou os olhos. Começou a emitir sons incompreensíveis e a se debater, como se alguém o tocasse.

O médico afastou-se, assustado. Como podia? Como era possível estar com medo? Aquela era a sua vida. Estar diante do “diferente” não deveria assustá-lo. Mas não fora isso que acontecera.

Os gritos do rapaz ecoaram pelo corredor. Os enfermeiros correram até o quarto e tentaram segurá-lo. O doutor, estático, permanecia colado à parede, pálido e ofegante. Os enfermeiros entreolharam-se. Um deles perguntou:

— O que fazemos, doutor?

Ele respondeu de pronto:

— Tire-o de perto de mim.

Os enfermeiros encontraram o doutor do lado de fora do quarto, encostado na parede, com as mãos trêmulas e o rosto ainda pálido. Entreolharam-se, sem compreender o que estava acontecendo. Um deles aproximou-se e perguntou:

— Doutor, o senhor está bem?

O médico permaneceu em silêncio por alguns segundos. Ainda ofegante, passou a mão pelo rosto e tentou recuperar a compostura. Ele virou-se sem responder.

Estava assustado demais e, o pior, já não sabia dizer do que tinha medo. Ou seria de quem?

Ao chegar em casa, foi direto ao banheiro. Olhou-se no espelho e pensou:

— Um banho quente e uma sopa serão suficientes. Pela primeira vez, não se sentou para ler suas anotações.

Naquela noite, não dormiu bem. Virava-se de um lado para o outro, jogou o travesseiro, depois a coberta. Suava. Mas percebeu que não estava calor naquela noite. Resolveu levantar-se.

Caminhou devagarinho pelo corredor da casa. De repente, deu um pulo e gritou tão alto que, provavelmente, acordou a vizinhança. Fechou os olhos com as mãos e sentiu-se envergonhado. Era apenas um galho batendo contra a vidraça.

Aquela noite parecia interminável. Tivera pesadelos horríveis, ora até mesmo horripilantes. Acordou febril. Passou a mão pela testa, ainda atordoado.

— Será que estou doente?

Acordou cansado. Sua aparência estava péssima. Pela primeira vez, não tinha certeza se iria trabalhar. Resolveu que não iria. Tiraria um dia de folga. Amanhã estaria novo de novo. Sentou-se no sofá com uma xícara de café fumegante. Percebeu que não fazia aquilo havia anos. Não se lembrava da última vez em que havia tirado um tempo para si.

Ah, leitor, o que será que se passa com nosso notável doutor?

Ele permaneceu sentado, segurando a xícara entre as mãos. A casa estava silenciosa. Pela janela, a luz da manhã entrava suavemente, desenhando sombras na parede. Foi então que percebeu um movimento. Primeiro, apenas uma sombra. Depois, uma silhueta junto à janela. Permaneceu imóvel por alguns instantes, como se apenas observasse.

Ele não se mexeu.

A figura pareceu inclinar levemente a cabeça. Ele teve a estranha sensação de que estava sendo observado. Piscou. Não havia ninguém. Apenas a cortina movendo-se suavemente como vento.

Passou o dia inteiro de pijama. Os olhos fundos denunciavam uma noite mal dormida. Sentia-se doente. Não comeu; não tinha fome. Ficou assim, aturdido, até a noite. Tomou um banho quente e resolveu deitar-se. Pela segunda vez, pensou em Deus.

— O que será que isso significa? — disse o doutor para si mesmo.

Diante daquele dilema, o caríssimo doutor não teve outra saída senão levantar-se e ir trabalhar. Como era de se esperar, todos os olhares se voltaram para ele. Antes tão alinhado, altivo e senhor de si, agora vestia uma calça amassada e uma camisa desalinhada.

Mas algo havia mudado. Sua postura já não era a mesma. Não cumprimentou o jardineiro, tampouco olhou para os funcionários. Entrou em sua sala, bateu a porta e ficou parado ali. Por alguns instantes, teve a estranha sensação de que o mundo também havia parado.

Sentou-se diante da mesa. O dever o chamava, mas seu corpo e sua mente pareciam desconectados da realidade. Enquanto pensava no que fazer, ouviu alguém bater à porta.

— Doutor! Doutor! Temos uma emergência! Sentiu um calafrio. Suas mãos suavam. O que antes era rotina agora se transformara em um dilema. Saiu como se estivesse hipnotizado, acompanhando os passos rápidos da jovem enfermeira. Estaria sonhando? O que viu mudou totalmente sua percepção.

O doutor permaneceu imóvel, os olhos arregalados, como se seu conhecimento,

acumulado durante tantos anos, tivesse desaparecido naquele instante. Procurou

uma explicação, qualquer uma, mas nenhuma lhe ocorreu.

Ao seu lado, a jovem enfermeira levou a mão ao peito e benzeu-se. Olhou para o doutor, depois voltou os olhos para a cena. Nenhum dos dois disse uma palavra.

O doutor respirou fundo. Pela primeira vez, não encontrou uma explicação científica para aquilo que seus olhos insistiam em mostrar.

Os dois se entreolharam. A enfermeira estava pálida, os olhos fixos, e o medo e o terror eram visíveis em seu rosto. O doutor a olhava com o mesmo semblante assustado. A enfermeira começou a chorar baixinho. Tremia enquanto rezava baixinho.

Novamente, trocaram olhares. Nenhuma palavra foi dita. Apenas um olhar demorado, como se, naquele momento, tivessem feito um pacto silencioso. A enfermeira, ainda pálida, continuava a chorar baixinho e a rezar. O doutor permanecia imóvel, sem conseguir desviar os olhos.

Não precisaram dizer nada. Resolveram, em silêncio, que guardar aquele segredo seria a melhor decisão.

A enfermeira saiu. O doutor permaneceu alguns instantes parado. Andou alguns passos e parou. Estava ali, parado em sua frente, não saberia dizer se era uma sombra, uma ou simplesmente algo que seus olhos insistiam em enxergar.

Tomou coragem e aproximou-se.

— Doutor — disse, apresentando-se. A figura pareceu observá-lo por alguns instantes, as palavras saíram com um sussurro.

— Muito prazer. Sou a Loucura.

O doutor permaneceu ali, parado como se tivesse entorpecido.

Uma voz, quase fantasmagórica sussurrou:

— Nós sempre estivemos perto, mas nunca juntos.

CLAUDIACHIARION, 2026

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