PERMANECER

PERMANECER

Cansei.

Não aguento mais a dor, a angústia, essa dor que insiste em me rondar. Olho para trás. O que ficou? Preciso parar de pensar nisso. Os pensamentos acelerados e essa dor que muda de forma o tempo todo vão acabar me consumindo. Não. Preciso me concentrar. Mil coisas passando diante de mim, não posso perdê-las de vista.

Olho pela fresta da janela. Ainda está claro. Vejo pessoas andando apressadas, como se o tempo já não desse conta de tanta pressa. Ou será que as pessoas se apressam por não saber usar o tempo? Ah, meu caro leitor, esse conflito me afeta... ou seria eu quem o afeta, sem me dar conta?

Preciso respirar. Parar de me olhar e olhar o outro. Ah, chegou. Ouvi o rangido da porta. Os passos se arrastavam lentamente, como se carregassem um pensamento: preciso encontrar um lugar, parar por um segundo. Olhou o relógio. Passava das dez. O pensamento, que antes trazia o desejo de desligar-se, despertou de repente, como se, num sobressalto, se lembrasse de que ainda precisava resolver alguns problemas. Precisava lutar contra o tempo.

O tempo. Acho que ele talvez seja nosso inimigo. Ou seríamos nós os inimigos do tempo? Não sei. Voltei meu olhar para aquela figura. Não sei o que senti naquele momento. Era uma mistura de pena, compaixão... não sei. Talvez eu estivesse com raiva. Por um minuto, pensei: “Eu preciso descobrir o que sinto.”

Caríssimo leitor, talvez você esteja se perguntando quem sou eu. Onde estou? Tenha paciência. Ainda estou tentando descobrir. Talvez me deixando fluir. Algo me fez sair desse transe. Olhei novamente para o relógio. Mostrava dez e meia, mas essa minha ausência me pareceu uma eternidade. Estava lá, correndo contra o tempo. Muitas coisas se acumulavam. Senti uma mistura de sentimentos. Precisava parar de me envolver. Apenas esperar que precisassem de mim. Na verdade, essa era a minha principal função.

Esperar.

Do outro lado da casa, ouvi um som. Não consegui identificá-lo. Era choro? Súplicas? Lamentos? Ou uma oração? Fiquei apenas esperando. Levantei hipóteses, uma após outra, sem perceber que minha hora havia chegado.

Resolvi chegar mais perto. Aproximei-me devagar, quase sem fazer ruído. Pensei que não deveria adentrar bruscamente. Ao me aproximar, percebi que minha percepção estava correta: era choro. Sabe, caro leitor, aquele choro que vem de dentro, profundo, feito de soluços entrecortados por uma respiração ofegante. De repente, me peguei especulando sobre as razões. Era luto? Decepção? Que tipo de tristeza poderia causar uma reação daquela? Decidi que era hora de me afastar. Não sei. Apenas pensei que seria melhor deixar as coisas como estavam, por enquanto. Quem poderia saber se a minha companhia, naquele momento, seria reconfortante ou apenas mais um peso?

Caminhar.

Passos desordenados, como se não quisesse chegar ao destino. Parou um instante. Pensou. Continuou, como se a rotina tivesse adquirido vida própria. Quando chegou, olhou ao redor. O ambiente tinha o mesmo cheiro, algo como mofado.

As velhas cadeiras rangiam. Os papéis empilhavam-se sobre a mesa. Burocracias. Tédio. Olhar as mesmas pessoas, todos os dias, durante anos. A exaustão, misturada ao perfume barato que vinha da mesa ao lado, causava-lhe náuseas. Vozes entrecortadas se misturavam ao ruído das cadeiras, dos papéis, dos passos apressados. Olhava o relógio a cada cinco minutos. A hora parecia, naquele momento, um predador cercando sua presa. Queria ir para casa, para seu mundinho, seu aconchego. Mas, no mesmo instante, perguntava-se se realmente queria voltar.

Silêncio.

Olha novamente o relógio. Decepção. Talvez um café quente seja a resposta. Sentou-se. O café ainda estava quente. Olhou ao redor, como quem procurava alguma coisa sem saber exatamente o quê. As vozes continuavam, entrecortadas, misturando-se ao ruído das cadeiras e dos passos. Permaneci ali, observando. O velho relógio continuava marcando os minutos. Eu também continuava ali.

Meu ilustre leitor, o que eu fazia ali, não saberia dizer-lhe. Penso que você não tenha as respostas. Levantei-me. Ficar ali parado não ajudava. Dentro de mim, algo dizia que precisava ser feito. Só não sabia como fazer.

Ouvi ruídos. Olhei para trás. Ah, era apenas um gato pulando por entre pilhas de papéis mofados. Mas estava ali, diante dos meus olhos. Eu precisava fazer alguma coisa.

Resolvi.

Caminhei em sua direção. Cheguei devagar, não queria assustar. Queria falar, mas faltavam-me as palavras certas. Ou eu tinha medo das erradas?

Não via a hora de ir embora. Saiu com pressa, quase perdeu o ônibus. Lotado. Olhava ao redor. As pessoas falavam, umas riam, outras apenas existiam.

Tristeza.

Eu estava com vergonha.

Falhei.

Caminhamos. Eu logo atrás. Ambos cabisbaixos. Estava ali o aconchego, o espaço que deveria ser como um “ninho” que abraça, que acolhe. Mas seria isso verdade? Era essa a realidade? Entramos. Olhei para os lados, como se algo ou alguém me vigiasse. Devia ser apenas impressão. Ou seria medo?

Escuto o barulho da água. Segui alguns passos. Era o chuveiro. Pensei em como um banho quente faria bem. Ouvi mais alguma coisa, quase imperceptível. Seria choro? Música? Alguém cantava. Era uma música melodiosa, o som cadente das notas inebriava o lugar. Eu senti, naquele momento, uma calma dantes esquecida.

Paz.

Mas um grito ensurdecedor me tirou daquele transe. Corri, mas não conseguia chegar. Era como se algo me prendesse ao chão. O desespero tomou conta de mim? O que está acontecendo? Ah, meu amigo leitor, diga-me o que há de errado comigo?

Continuei andando sem direção. Precisava encontrar... o quê? Eu não sabia. Só tinha certeza de uma coisa: aquele grito mexera comigo.

Torpor.

Fiquei assim, mas precisava sair dali. O ar carregado, aquele cheiro, não estava me fazendo bem. O que seria? Gás? Fogo? Não conseguia me mexer. A sensação de impotência estava me matando. Da cozinha vinha a música. Alguém cantava.

Alívio.

Já era tarde quando foi se deitar. Ajeitou os travesseiros. Cobriu-se. Olhou novamente o despertador. Precisava ajustá-lo. Ah... suspirou. Levantou-se, sem ânimo e sem pressa, e ajustou o relógio. Era necessário. Dormiu.

Acordou de sobressalto. O velho despertador ainda “gritava” com todas as forças que resistiam ao tempo. Precisava se apressar.

Rotina.

Eu olhava essa cena com certa curiosidade, com uma pontinha de orgulho... ou seria inveja? Não sei, apenas permaneci. O silêncio, quebrado pelos sons da rotina, agora cessara. Me quedei ali, pensando, mas não em voz alta, quase como se o silêncio me tomasse no colo.

Paz.

Não sei quanto tempo permaneci assim, inerte. Sabia que precisava me mexer.

Sair.

Será que eu devo? O que acha disso? Por favor, leitor, pode me ajudar?

Implorei.

Não tínhamos respostas.

Silêncio.

Tão danoso quanto a dor, a tristeza.

Desilusão.

Ah, voltou. Depois de um dia de trabalho — chefe, barulho, papéis, ônibus lotado, ruídos — finalmente chegou em casa. Aconchego. Será? Tive dúvidas. Vi um rosto marcado pela dor, pela vida sem graça, sem entusiasmo, sem sorrisos. Só o mesmo de sempre.

Rotina.

Senti pena, saudade daquela música melodiosa, quase um lamento. Pensei em como a vida às vezes nos prega uma “peça”. Aquele rosto ainda me despertava dúvida.

Aquela casa guardava um silêncio. Os móveis, há anos no mesmo lugar. Até a poeira parecia fazer parte da decoração. Senti pena. Ou seria saudade? A música melodiosa, quase um lamento.

Agora, meu querido leitor, depois de ficar conosco, compartilhar nossas angústias, nossas dúvidas, nossa rotina, tens o direito a uma pergunta. Só lhe adianto: a única resposta que posso lhe dar neste momento.

Permanecemos.

CLAUDIACHIARION, 2026

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