Não aprendi a ser mulher nos livros.
Aprendi na cozinha quente,
Na fila do posto,
Na conversa baixa depois da violência
Noticiada como estatística.
Aprendi com mulheres
Que nunca disseram a palavra “resistência”,
Mas acordavam cedo
Com o mundo inteiro pesando nos ombros.
Minha mãe aprendeu a sobreviver
Antes de aprender a sonhar.
Minha avó nunca perguntou
Se podia.
Ela fez.
Havia medo, sim.
Mas havia também uma teimosia antiga,
Dessas que não pedem licença à história.
Ser mulher, para elas,
Não era identidade.
Era tarefa diária.
Era levantar
Sem plateia.
E eu carrego essas mulheres no corpo
Como quem carrega uma linhagem
Que não coube em sobrenome.
