Acordei hoje com o peso da eternidade sobre os ombros. A manhã, filtrada pela cortina do meu quarto, parecia um sonho incerto; a realidade, um eco apagado. Ao abrir os olhos, fui tomada por uma sensação de desalento, como se estivesse à deriva num oceano de incertezas. A luz pálida que penetrava pela janela trazia uma frieza incomum, como se até mesmo o dia hesitasse em se afirmar.
Levantei-me devagar, arrastando o corpo como quem carrega um fardo invisível. Fui até a janela. Lá fora, o mundo seguia sua rotina maquinal: o som dos carros, o murmúrio abafado das vozes, o latido distante de um cão. Tudo isso compunha uma sinfonia de banalidade que me parecia alheia. A rua, com suas figuras apressadas, era uma pintura em movimento de uma realidade que eu já não reconhecia como minha. Tudo era tão real – e eu, tão irreal.
Sentada à mesa, o calor da xícara de café entre minhas mãos parecia o único elo com a vida que pulsava ao redor. O aroma amargo subia em espirais, tentando (em vão) trazer-me de volta ao presente. Cada gole era um lembrete de minha própria amargura, um sabor que se recusava a desaparecer, como uma sombra que persiste mesmo sob a luz mais intensa. Minha mente vagava por espaços que nunca conhecera, por memórias que não me pertenciam. Pensei nos amores desfeitos, nos amigos que a distância transformou em fantasmas, nas promessas que o tempo dissolveu como neblina ao sol. A vida, percebo, é uma tapeçaria de desilusões, um mosaico de sonhos inacabados.
Observei minhas mãos. Elas me pareceram estranhas, como se pertencessem a outro. Quantas histórias elas seguraram? Quantas despedidas já apertaram? Nossos corpos são arquivos de lembranças; mas, quando estas se apagam, o que resta de nós? A matéria de que somos feitos é só o que lembramos? E se um dia todas as lembranças sumirem, quem seremos então?
Um vento frio varreu a rua, fazendo as folhas dançarem sem sentido. Vi nelas um reflexo da minha própria existência: leve, flutuante, à mercê de forças que não compreendo. Somos como folhas ao vento, tentando em vão agarrar algo sólido, algo que nos ancore. Mas o vento é insensível, e um dia todos somos levados. Deixados para trás por uma força invisível e inescapável.
O telefone tocou, quebrando o silêncio como um grito. Não atendi. Que novidade poderia ele trazer que já não soubesse? Que a vida avança indiferente, que o tempo não espera por ninguém? Conheço essas verdades, e suas insistências ecoam vazias em meu coração cansado. Fechei os olhos, tentando captar algo além do vazio que crescia dentro de mim. Mas o que encontrei foi um silêncio ainda mais profundo, sussurrando segredos que eu não conseguia entender.
Levantei-me e fui até a estante. Os livros, cobertos de poeira, eram velhos amigos que já não via há muito tempo. Passei os dedos pelas lombadas, sentindo a aspereza do tempo que passou. Tirei um livro ao acaso. As palavras, impressas em papel envelhecido, me pareciam familiares, mas também distantes, como se pertencessem a uma vida que não era a minha. Li algumas linhas e fechei o livro. Hoje, as palavras não têm o poder de me salvar.
Voltei para a janela. A manhã avançava, impassível, enquanto eu observava a vida passar com a mesma indiferença. As pessoas caminhavam apressadas, cada uma carregando seus próprios fantasmas, seus próprios sonhos. Em algum lugar, uma criança ria, e aquele som, puro e livre de qualquer mácula, pareceu-me a coisa mais estranha e bela do mundo. Senti um aperto no peito, um desejo profundo de regressar a essa pureza, a essa ignorância inocente. Mas sei que isso é impossível. A simplicidade é o privilégio dos que não conhecem a dor.
E assim, fiquei parada, enquanto o dia se dissolvia lentamente na tarde, e o tempo escorria entre meus dedos como areia fina. Pensei em todas as coisas que poderia ter sido, mas não fui. Em todas as vidas que poderia ter vivido, mas não vivi. Senti o peso de todas as minhas escolhas e das não escolhas, como se fossem correntes invisíveis que me prendiam ao chão.
Perguntei-me, como tantas vezes antes, se há sentido em tudo isso. Se há algum propósito na dor, na perda, na busca interminável por algo que nunca encontraremos. Talvez a resposta resida no próprio desassossego que me define, na inquietude que me mantém viva, que me faz procurar sem nunca encontrar. Talvez a vida seja isso — uma eterna procura.
E, talvez, no fim das contas, o que importa não é o que encontramos, mas o que buscamos. E, nesse pensamento, encontrei uma tênue faísca de esperança — a esperança de que, mesmo no meio do desassossego, ainda haja algo por descobrir, algo por sentir, algo que, um dia, quem sabe, me faça sentir viva novamente.
