Há uma pergunta que deveria nos constranger mais do que a possibilidade de estarmos errados: por que, tantas vezes, precisamos que o outro esteja errado para continuarmos acreditando que estamos certos?
A política, quando se transforma em disputa permanente entre identidades, deixa de ser apenas um campo de projetos e decisões coletivas. Torna-se também uma batalha pela definição da realidade, na qual admitir um erro pode significar romper com o grupo, questionar uma liderança ou reconhecer que nossas convicções não são tão sólidas quanto imaginávamos. O adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a representar tudo aquilo que aprendemos a rejeitar. Já não basta defender nossas ideias; precisamos desacreditar quem as contesta.
Mas não há pensamento crítico quando a conclusão vem antes da análise. Quando escolhemos em quem acreditar e, a partir dessa escolha, decidimos quais fatos merecem confiança, a convicção deixa de ser resultado de uma reflexão e passa a funcionar como uma proteção contra ela. É assim que alguém pode ter acesso a informações, conhecer contradições e, ainda assim, continuar defendendo aquilo que essas mesmas evidências deveriam levá-lo a questionar.
Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago constrói uma sociedade atingida por uma epidemia de cegueira branca. À medida que a visão desaparece, as instituições revelam sua fragilidade e as relações humanas são atravessadas pela violência, pelo abandono e pela luta pela sobrevivência. A cegueira, entretanto, ultrapassa o acontecimento que organiza a narrativa. Ela se torna uma imagem da incapacidade de reconhecer o outro, perceber a própria responsabilidade e compreender o que acontece diante dos nossos olhos.
A cegueira que nos interessa aqui não é a ausência de visão, mas a recusa de enxergar aquilo que ameaça nossas certezas. Ela aparece quando reconhecemos uma injustiça apenas se a vítima pertence ao nosso grupo; quando condenamos a violência praticada pelo adversário, mas encontramos justificativas para a violência dos nossos; quando exigimos provas rigorosas para aceitar uma acusação contra quem apoiamos, mas nos contentamos com suspeitas quando elas confirmam aquilo em que já acreditamos.
A abundância de informações não nos tornou necessariamente mais dispostos a rever nossas convicções. Em determinadas circunstâncias, apenas ampliou os recursos disponíveis para defendê-las. Uma notícia pode ser rejeitada não porque tenha sido examinada e refutada, mas porque ameaça a imagem que construímos de uma liderança. Uma contradição pode ser minimizada porque reconhecê-la exigiria admitir que participamos de sua legitimação. A desinformação encontra terreno fértil quando a fidelidade ao grupo se torna mais importante do que a fidelidade aos fatos.
Essa dinâmica pode ser observada em aspectos da militância bolsonarista nas redes digitais. Em estudo publicado em 2022, Priscilla Dibai e Edson D’Almonte analisaram durante dois anos uma comunidade de apoiadores de Bolsonaro no Telegram. Os pesquisadores identificaram uma comunicação polarizada, estruturada pela exaltação do líder e pela hostilidade aos adversários. Entre os padrões encontrados, destacaram a construção de Bolsonaro como alguém superior à própria democracia e mais importante do que os fatos.
O estudo de Dibai e D’Almonte evidencia como, naquela comunidade bolsonarista, a identificação política se organizava em torno da lealdade pessoal ao líder e da hostilidade aos adversários. Quando a figura de um político é colocada acima das instituições democráticas e dos próprios fatos, a crítica deixa de ser tratada como parte legítima da vida pública e passa a ser recebida como ameaça. A discordância, então, já não é enfrentada necessariamente pela argumentação, mas pela desqualificação de quem questiona.
O bolsonarismo não pode ser compreendido apenas como uma preferência eleitoral ou uma expressão do conservadorismo. Sua relação com a política também precisa ser examinada à luz da exaltação da liderança, da hostilidade aos adversários, da desconfiança em relação às instituições e da disposição de contestar os fatos quando eles contrariam as próprias convicções. Esses elementos aproximam o debate de uma questão mais profunda: o que acontece quando a lealdade política se sobrepõe aos limites democráticos? As aproximações com o fascismo não devem ser feitas como mero recurso de acusação, mas tampouco descartadas por receio de nomear fenômenos incômodos. O rigor está em reconhecer as características históricas que sustentam essa comparação e compreender o que elas revelam sobre as formas contemporâneas de autoritarismo.
Friedrich Nietzsche oferece outra entrada para essa reflexão ao questionar a moral de rebanho e a necessidade humana de encontrar segurança nos valores compartilhados. Sua crítica permite perguntar quanto de nossas convicções resulta de uma avaliação própria e quanto depende da aprovação do grupo ao qual desejamos pertencer. Não se trata de afirmar que toda coletividade elimina a autonomia ou que pensar por conta própria significa rejeitar qualquer forma de pertencimento. O problema começa quando pertencer exige suspender o julgamento.
Quando a lealdade a uma liderança se sobrepõe aos princípios que deveriam orientar a avaliação de suas ações, o erro passa a receber tratamentos diferentes conforme sua origem. O adversário mente; o nosso apenas se expressou mal. O adversário ameaça as instituições; o nosso está defendendo seus interesses. O adversário deve responder por suas ações; o nosso precisa ser compreendido em seu contexto. Assim, o princípio permanece de pé no discurso, mas perde sua validade quando sua aplicação ameaça aquilo que queremos preservar.
A fé de rebanho, nesse sentido, não diz respeito à fé religiosa em si. Refere-se à adesão que se torna imune ao questionamento, à confiança que exige obediência e à crença que transforma qualquer evidência contrária em uma ameaça a ser neutralizada. Uma liderança passa a ser defendida não apesar de suas contradições, mas por meio de justificativas que convertem cada contradição em mais uma razão para reafirmar a lealdade.
Há, entretanto, outra forma de cegueira que merece ser examinada: aquela que se apresenta como imparcialidade. Em uma sociedade dividida, posicionar-se pode significar receber um rótulo, perder amizades ou descobrir que já não se é bem-vindo em determinados espaços. Para evitar esse desconforto, algumas pessoas preferem declarar que não estão de lado nenhum. Outras transformam a recusa em identidade: não pertencem a nenhum grupo, não concordam com ninguém, não se deixam convencer. E há, ainda, quem faça da oposição ao pensamento dominante uma prova de independência, como se discordar da maioria fosse suficiente para demonstrar autonomia.
Mas estar contra a maioria não é necessariamente pensar por conta própria. O indivíduo que repete tudo o que seu grupo diz e aquele que discorda de tudo apenas para não se parecer com ele podem estar presos à mesma dependência: ambos deixam que a existência do outro determine suas posições. Um segue a direção do rebanho; o outro precisa caminhar na direção contrária para continuar acreditando que é livre. A autonomia começa quando já não precisamos concordar nem discordar por obrigação, mas podemos examinar cada questão e sustentar nossas conclusões por razões que não dependam apenas da aprovação ou da rejeição coletiva.
Recusar o fanatismo não significa renunciar ao julgamento, nem fingir que todas as posições têm o mesmo peso. Pensar por conta própria exige avaliar as ações, reconhecer suas consequências e não permitir que a lealdade a um político fale mais alto do que aquilo que os fatos revelam. Há situações em que a lucidez não está em permanecer no meio, mas em compreender o que está diante de nós e ter coragem de reconhecer suas implicações.
A imparcialidade deixa de ser virtude quando se transforma em obrigação de distribuir responsabilidades em partes iguais, independentemente dos fatos. Não há rigor em tratar como equivalentes posições que diferem em seus fundamentos, práticas e consequências. Tampouco há autonomia em evitar uma conclusão sustentada por evidências apenas porque ela pode ser interpretada como alinhamento a um dos lados. Pensar criticamente não significa não tomar posição; significa não permitir que a posição tomada nos dispense de continuar pensando.
No livro do Apocalipse, a mensagem à igreja de Laodiceia condena a condição daquele que não é frio nem quente, mas morno: “porque és morno e não és frio nem quente” (Apocalipse 3:16). A passagem se refere à condição espiritual da comunidade a que a mensagem é dirigida, não a uma orientação direta sobre posicionamento político. Ainda assim, sua imagem permite uma aproximação com a acomodação que evita o compromisso e se refugia na indefinição. O que interessa aqui não é condenar a ausência de uma identidade partidária, mas questionar a neutralidade que se apresenta como virtude enquanto evita examinar as consequências das próprias escolhas e omissões.
É preciso distinguir, portanto, quem não encontra representação nas alternativas disponíveis, quem se abstém por circunstâncias pessoais ou materiais, quem utiliza o voto nulo como protesto e quem evita qualquer avaliação para não se comprometer. Essas situações não são idênticas. O silêncio de alguém não revela, por si só, suas motivações. Ainda assim, a existência de razões legítimas para não escolher uma candidatura não elimina a necessidade de perguntar o que acontece quando a descrença na política se transforma em afastamento de toda responsabilidade coletiva.
A história brasileira demonstra que direitos fundamentais não surgiram apenas porque as instituições reconheceram espontaneamente sua importância. O voto feminino, oficializado em 1932, foi precedido por reivindicações e mobilizações de mulheres que enfrentaram sua exclusão da vida política. Décadas depois, a campanha das Diretas Já levou milhões de brasileiros às ruas para exigir o direito de escolher diretamente o presidente da República. A emenda que restabeleceria as eleições diretas foi derrotada no Congresso em 1984, mas a derrota não apagou a importância da mobilização no processo de redemocratização.
Esses episódios não provam que toda mobilização seja justa ou que toda participação produza resultados positivos. Mostram, contudo, que transformações políticas dependem também da disposição de questionar aquilo que se apresenta como inevitável, formular reivindicações e enfrentar estruturas que restringem direitos. Entre a submissão a uma liderança e a recusa absoluta da política, existe a possibilidade de construir uma posição fundamentada e participar da disputa pelo sentido da vida coletiva.
O problema não é simplesmente escolher ou não escolher um candidato. É compreender que a política continua produzindo consequências mesmo quando nos afastamos dela. As instituições, os direitos e as condições de vida não deixam de ser afetados pelas decisões públicas porque alguém se considera indiferente a elas. A ausência de participação não determina, por si só, um resultado específico, mas também não coloca ninguém fora da sociedade que essas decisões ajudam a organizar.
A responsabilidade democrática começa quando deixamos de tratar nossas convicções como absolvições antecipadas. Não basta condenar o autoritarismo quando ele parte de quem rejeitamos e silenciar quando aparece entre aqueles com quem nos identificamos. Não basta defender a liberdade para o próprio grupo se a liberdade alheia é vista como ameaça. Não basta denunciar a mentira quando ela favorece o adversário e relativizá-la quando protege a nossa liderança.
Isso não significa que todas as forças políticas tenham a mesma responsabilidade ou que toda crítica deva terminar em uma condenação equivalente. Significa que os princípios precisam ser aplicados com seriedade e que as conclusões devem acompanhar as evidências, mesmo quando produzem desconforto. A crítica ao bolsonarismo não precisa se apoiar na ideia de que todos os seus apoiadores são iguais; pode se sustentar no exame de discursos, práticas e projetos que ameacem a convivência democrática. A firmeza dessa crítica não depende da desumanização de quem pensa diferente, mas também não deve ser reduzida pelo receio de parecer parcial.
Saramago nos ajuda a perceber que a cegueira não se manifesta apenas na incapacidade de ver. Ela também aparece na maneira como nos relacionamos com aquilo que vemos e na facilidade com que a vulnerabilidade alheia deixa de impor limites às nossas ações. A possibilidade de solidariedade permanece na narrativa porque a humanidade não se resume à violência que é capaz de produzir. Mas essa possibilidade exige reconhecimento: é preciso admitir que o outro existe para além da função que ocupa em nossas disputas.
Talvez a cegueira política comece quando o adversário deixa de ser alguém cujas ideias podemos contestar e passa a ser alguém cuja existência queremos negar. Ela se aprofunda quando a lealdade se torna mais importante do que a verdade e quando a necessidade de vencer substitui a responsabilidade de compreender. E se torna particularmente perigosa quando a recusa de enxergar é apresentada como coragem, lucidez ou independência.
Não basta, portanto, perguntar se estamos do lado certo da disputa. Essa pergunta pode ser respondida apenas pela identidade do grupo ao qual pertencemos. É necessário perguntar o que estamos dispostos a justificar para continuar nele, quais princípios aceitamos abandonar para proteger nossas lideranças e quais evidências nos recusamos a considerar porque ameaçam a imagem que construímos de nós mesmos.
No fim, talvez a cegueira mais difícil de reconhecer seja aquela que não nos impede de olhar, mas nos convence de que não precisamos rever o que vemos. A que transforma o erro do adversário em prova de sua natureza e o erro dos nossos em uma exceção necessária. A que nos permite continuar falando em justiça enquanto escolhemos, conforme a conveniência, quem merece recebê-la. É possível enxergar com nitidez justamente aquilo que confirma nossas certezas. O problema começa quando exigimos que o mundo inteiro permaneça dentro dos limites dessa visão — e chamamos de inimigo qualquer pessoa que nos obrigue a olhar novamente.
Que mentiras estou engolindo para blindar meu político/partido de estimação?
