Ela tocava em seu corpo com meus dedos. Escorregava minhas pequenas mãos até chegarem trêmulas e sem reação às suas vergonhas; despia-se de todo o pudor e desrespeitava a minha inocência como se ela não mais me pertencesse.
Dias de frio sombrios. Noites em que o medo e o pavor me cercavam. Eu morria de medo dela, tinha pavor daquele sorriso de dentes brancos e dos seus olhos de um castanho bem escuro, o olhar da maldade. Na frente dos meus pais era uma santa, mas se transformava em abusadora quando ficava sozinha comigo.
Lágrimas escorriam, e a voz embargada pedia para que ela não fizesse aquilo comigo, mas não adiantava, ela queria mais e mais.
Covarde! Se aproveitou de uma criança inocente. Estragou uma infância feliz e prejudicou uma a vida adulta. Acabou com a minha inocência, fez de mim um adulto inseguro, com medo de tudo e de todos, covarde, medroso, um zero à esquerda, um nada.
Mas eu consegui me fortalecer e fiz desse triste episódio da minha vida mais um aprendizado. Hoje eu tenho amigas, mas não me relaciono com mulheres, eu gosta dos homens.
Se o abuso por mim sofrido foi o responsável pela minha homossexualidade,eu não sei responder. O que eu sei é que a felicidade mora logo ali, na curva da esquina, sem número exato, em uma casa de portão baixo e paredes pintadas de vermelho, a cor do amor.
