A última carta do homem inexistente

A última carta do homem inexistente

Talvez ninguém leia isso. Mas, por precaução, vou escrever como se alguém pudesse.

Senhor destinatário inexistente,

Escrevo esta carta como quem joga uma garrafa ao mar — não por esperança de resposta, mas por respeito à própria existência. Esta é a minha forma de dizer: eu estive aqui. Eu respirei. Eu vi o mundo, mesmo que o mundo nunca tenha me visto. Nasci no dia 14 de novembro de 1979, às três da manhã, em um hospital cuja parede cheirava a éter e abandono. Minha mãe, dizem, era costureira. Meu pai, um nome rabiscado num papel que ninguém mais soube decifrar. Fui criado por uma tia muda e um rádio de pilha que chiava mais do que tocava música. Desde cedo aprendi que silêncio é também linguagem. Minha primeira memória é o som das crianças brincando do lado de fora. Eu via pelas frestas da janela. Nunca me chamavam. Quando tentava me aproximar, era como se não ouvissem. E, com o tempo, eu parei de tentar. Na escola, fui o aluno fantasma. Fazia as provas, mas os professores esqueciam de anotar minhas notas. Um dia, recebi um boletim em branco. Quando fui reclamar, a secretária olhou minha ficha e disse:

— O senhor está certo de que estuda aqui?

Ninguém está certo de nada, senhora. Nem mesmo da própria existência. Na adolescência, descobri que o melhor jeito de ser notado era desaparecer. Passei a fingir que era alguém: ora engraçado, ora misterioso, ora calado demais. As pessoas notavam o personagem, não a mim. Numa dessas tentativas, inventei que era poeta. Comecei a escrever versos trêmulos em guardanapos e espalhá-los pelos cafés da cidade. Uma garçonete guardou um deles e sorriu para mim uma vez. Pensei que fosse o começo de algo. No dia seguinte, ela não me reconheceu. Aos vinte e poucos anos, consegui um emprego em um escritório cinza, com janelas que davam para o muro de outro prédio. O chefe me chamava de “o rapaz do canto”. Trabalhei ali por sete anos. No meu último dia, levei um bolo para compartilhar. Ninguém entendeu o motivo.

— Hoje é seu aniversário? — perguntaram.

— É meu último dia aqui — respondi.

— Ah… Você é novo, né?

 

Sorri. O mesmo sorriso que aprendi a dar para o espelho: curto, indolor, quase treinado. Me mudei dezenas de vezes. Em cada bairro, virei o homem do andar de cima, o sujeito da porta ao lado, o silencioso do elevador. Não tive vizinhos, apenas paredes. Meus amigos foram passageiros: alguns livros com folhas amareladas, uma máquina de escrever que ganhei num brechó, uma senhora que me vendia pão achava que eu trabalhava nos correios ou algo assim, porque eu sempre carregava papéis e nunca dizia nada.

Já tentei amar. Três vezes, ao todo. A primeira, aos dezenove, quando achei que amor era só encostar a alma em outra. A segunda, aos trinta e dois, com uma mulher que lia Clarice e tinha a voz mais triste do que a minha. A terceira, há quatro anos, foi só um abraço demorado numa noite de chuva. Nenhuma delas lembraria meu nome hoje. É estranho dizer isso, mas com o tempo, fui me acostumando. A invisibilidade, no começo, machuca. Depois, vira casca. E um dia, você percebe que é só isso: alguém que existe entre os intervalos do mundo. Como aquele segundo exato entre a última batida de um relógio e a primeira do silêncio.

Então veio o menino. Eu estava atravessando a rua, olhando o chão, como sempre. E senti um olhar. Um olhar direto, firme, como quem vê de verdade. Ele devia ter uns oito anos. Tinha uma camiseta com um dinossauro e os olhos mais vivos que já encontrei. Me olhou e perguntou:

— Moço, você é de verdade?

Fiquei paralisado. Ninguém jamais havia me perguntado isso. E, de repente, a pergunta me atravessou como um tiro mudo. A mãe o puxou pelo braço, apressada, e ele se foi. Passei os dias seguintes com aquela pergunta nos ouvidos. Sou de verdade?

Ser de verdade, aprendi, não é respirar, pagar contas ou envelhecer. Ser de verdade é ser lembrado. É fazer falta. É ter o nome dito em voz alta quando você sai da sala. E eu não faço falta. Nunca fiz. Por isso, senhor destinatário — seja lá quem você for —, escrevo esta carta como um testamento. Não deixo bens, apenas vestígios. Dentro da mochila que me acompanha, há dois livros que reli mil vezes, um caderno com poemas sem assinatura, um retrato meu desenhado à mão por um desconhecido numa praça. E esta carta.

Amanhã, às 18h02, subirei ao viaduto da Avenida Central. É alto o suficiente para que o fim pareça poético. Não faço isso por dor, mas por precisão. Quero ter, pela primeira vez, algum controle sobre meu próprio enredo. Deixarei esta carta no banco de concreto, onde costumo sentar. Espero que alguém a encontre. Que leia. Que, nem que por um segundo, pense: “Ele existiu.”

E isso bastará.

Com respeito,

Um homem sem nome.

P.S.:

Três dias depois, uma mulher encontrou a carta. Tinha vinte e sete anos, cabelos presos com um lápis e o hábito de observar o mundo em silêncio. Leu tudo sentada no mesmo banco.

Chorou sem saber por quê. Ou talvez soubesse.

Leu novamente, com calma.

Reconheceu a letra. Era a mesma dos bilhetes deixados embaixo de sua porta na infância, em folhas de caderno dobradas com cuidado.

— Você vai ser grande — dizia um.

— Leia Clarice. Ela entende — dizia outro.

A mãe dizia que era algum vizinho solitário. Nunca soube quem.

Guardou a carta como se guardasse um pedaço perdido de si. Dobrou-a com cuidado, colocou num envelope e escreveu na capa:

“Arquivo da Memória.”

No dia seguinte, começou a escrever um livro.

O título?

“O Homem Inexistente.”