5 anos de trabalho, 839 relatórios entregues, 1053 ligações atendidas, incontáveis noites mal dormidas.
Apesar desses números impressionantes comprovando sua dedicação; naquela manhã de quinta feira, Tessa perdeu o emprego.
Não havia razão especial para isso, era apenas um "corte nos gastos" como lhe disseram. Ela quis rir. Depois de tudo o que havia dedicado àquela companhia eles simplesmente a cortaram, como as pontas ressecadas e inconvenientes do cabelo das quais sempre queremos nos livrar.
Ela não era o tipo de pessoa que cria laços, mas lhe doía admitir que sentiria falta dos colegas, até mesmo do homem pertinente que sempre a convidava para sair. Não se lembrava do nome dele agora, mas tinha certeza de que começava com "D".
Sem alarde, Tessa se despediu de todos e tomou o caminho de volta para casa. Enquanto dirigia sentiu os olhos embaçarem, as bochechas formingando. O que era aquilo? Choro? De maneira alguma ela se permitiria chorar por algo tão trivial como uma demissão. "Isso não é motivo para lágrimas" - pensou.
Então encontrou conforto em seu amado. Ele a abraçaria e beijaria sua testa dizendo que ia ficar tudo bem. Como sempre fazia em situações ruins. Tessa não acreditava em milagres, mas com certeza namorar alguém como Eric era uma dádiva dos deuses. Ele era (o que ela gostava de pensar), o mais próximo que alguém pode chegar da perfeição.
"Você não vai acreditar na manhã terrível que tive" - Tessa disse abrindo a porta do pequeno apartamento. Ela sabia que ele estaria lá, provavelmente com uma xícara de café na mão, lendo o jornal ou assistindo um daqueles filmes noir que ele adorava.
Tessa abaixou o rosto assustada quando percebeu ter entrado no apartamento errado. Vira brevemente uma mulher nua no sofá, sentada no colo de um homem que balbuciava algumas obscenidades.
Que situação embaraçosa.
Estava pronta para se desculpar e sair, quando notou na parede uma, duas, três fotos... Fotos suas.
Se atreveu a olhar para o sofá, onde a mulher despida apanhava com pressa as roupas e se vestia desajeitada.
E lá estava seu homem perfeito. Ainda sentado, exposto, inerte, claramente em choque.
Não era o apartamento errado, era apenas o momento errado. Ou o momento perfeito.
Depois de um silêncio constrangedor cortado apenas pelos sons de tecido em contato com a pele, os amantes estavam vestidos. Saíram como cães pegos em flagrante após uma travessura. Não havia nada a ser dito.
Tessa quase desabou no sofá, não fosse o nojo que sentia do móvel agora. Então apenas encostou na parede e chorou.
E foi assim que naquela manhã de quinta feira Tessa perdeu seu milagre.
