Passou a vida testemunhando tudo.
Ah! Os encontros escondidos. A casa vizinha tinha uma moiçola que o pai não deixava namorar. Apaixonada pelo filho do padeiro, ia até ali para ter os beijos furtados. Ela viu quando os enamorados fugiram juntos. As brincadeiras. As crianças se divertiam na rua e aproveitavam o arbusto para se esconder. Ela amava esses momentos da infância. Acompanhava o crescimento, as idas às escola. As brigas e discussões, o marido que abandonou a esposa com três filhos porque se apaixonou pela irmã do açougueiro. Naquela rua nada lhe escapava, tudo estava ali, escancarado, pois ninguém sabia que era viciado.
Até que apareceu ele, o menininho da casa em frente. Curioso, bisbilhotava em todo lugar, fuçava, procurava, descobria. O que chegava aos seus ouvidos, ele analisava, refletia. Queria saber sobre tudo. Perguntava aos pais, aos vizinhos, aos professores. Um dia mirou a curiosidade nela. Olhiu-a, pesou-a, fuçou-a. Tentou puxar conversa, mas não recebia respostas. Tocou nas plantas, cutucou a lâmpada, leu Casa Branca.
— Não era a casa presidencial dos Estados Unidos? — Perguntou à mãe.
— Sim. É onde o presidente de lá mora no tempo em que governa o país.
— Entendi.
Ela sentia sua curiosidade, incomodou-se. Seria um concorrente? Logo conheceu os segredos da rua. Ela levará cinco anos para alcançar tal conhecimento e ele apenas um. Sua idade era oitenta, a dele era oito. Ele continuou sua procura, querendo conhecê-la, aproximar-se, conhecer seus mistérios. Ela não o queria perto, porém a insistência dele venceu a resistência dela. Agora conhecia o que continha seus recônditos. Não havia quase nada sobre ela que não soubesse.
E então ele cresceu. Tornou-se adulto alin na sua frente, deixando-a surpresa. Seria um fingidor?
— Sou um feiticeiro aprendiz, ou era. Meu mestre, que se passa por meu pai, me orientou que eu só.me tornaria um homem quando travasse conhecimento com a Porta. E a maturidade.viria se conseguisse atravessá-la.
Não entendeu. Atravessar a Porta? Mas ela não abria nunca para ninguém, desde que o Mago a criará. Nenhuma pessoa sabia o que ela protegia
— Você deve destrancar-se para que eu possa entrar.
Nunca! Lançou mão do encanto do ferrolho inquebrável. Ele surpreendeu-se. Não esperava tal reação. O mestre não disse que a Porta poderia reagir. A curiosidade brilhou nos olhos dele. O que poderia ter atrás dela que justificasse uma negativa? Tratou de usar os feitiços que conhecia. Ela irredutível. Lançou o Abra-te Sésamo. Nada. Abracadabra. Nem um centímetro cedeu. Pirlimpimpim. Continuou igual. Abrarmus. Perda de tempo.
O clima fechou. Nuvens negras preencheram o céu. Um vento forte varreu a rua. As pessoas entravam em suas casas, assustadas, sem entender essa mudança repentina do tempo. — Raios e trovões! — disse o mestre, contemplando a batalha. Aquela seria difícil de ser dobrada. Todos os seus aprendizes conseguiram de imediato. E justo ele, o seu predileto, o mais notável, caíra na mais difícil.
— Muito bem. Se é assim que você quer — disse o mancebo — Eu acreditei que iríamos ser bons amigos, que você guardaria minhas poções — preparou o poderoso e derradeiro golpe mágico — ahora quero apenas derrotar você.
Ela não se sujeitaria a guardar o que ele quisesse esconder. Resistiu e reforçou o encantamento.
— A escolha é sua — flutuou para ter um alcance melhor. — sua última chance acabou. Ferrolhermum!
Ela percebeu seu ferrolho cedendo. Em desespero convocou a magia Atratctuim Corpus. Sua aldrava soltou un dos lados, começou a esticar com rapidez e envolver o corpo do jovem feiticeiro. Quando ele deu por si estava preso pela cintura à Porta.
Tentou se desvencilhar, mas em questão de segundos ela se abriu e puxou-o para dentro.
O mestre contemplava perplexo o buraco onde antes estava aquela que levou seu mais prodigioso aprendiz embora. Aos poucos a parede que antes sustentava-a foi desmoronando, revelando que onde deveria haver uma casa encantada tinha apenas um vazio.
