OBSERVADORA
Passou a vida testemunhando tudo. Ah! Os encontros escondidos. A casa vizinha tinha uma moiçola que o pai não deixava namorar. Apaixonada pelo filho do padeiro, ia até ali para ter os beijos furtados. Ela viu quando os enamorados fugiram juntos. As brincadeiras. As crianças se divertiam na rua e aproveitavam o arbusto para se esconder. Ela amava esses momentos da infância. Acompanhava o crescimento, as idas às escola. As brigas e discussões, o marido que abandonou a esposa com três filhos porque se apaixonou pela irmã do açougueiro. Naquela rua nada lhe escapava, tudo estava ali, escancarado, pois ninguém sabia que era viciado. Até que apareceu ele, o menininho da casa em frente. Curioso, bisbilhotava em todo lugar, fuçava, procurava, descobria. O que chegava aos seus ouvidos, ele analisava, refletia. Queria saber sobre tudo. Perguntava aos pais, aos vizinhos, aos professores. Um dia mirou a curiosidade nela. Olhiu-a, pesou-a, fuçou-a. Tentou puxar conversa, mas não recebia respostas. Tocou nas plantas, cutucou a lâmpada, leu Casa Branca. — Não era a casa presidencial dos Estados Unidos? — Perguntou à mãe. — Sim. É onde o presidente de lá mora no tempo em que governa o país.
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