Rua Harmonia, Vila Madalena, Sábado à tarde
O balcão da padaria basicamente ocupa todo o espaço da garagem.
A Padoca Vegana ,esse é o nome dela é uma casa adaptada para produção. Um quadro negro no meio da calçada, na frente da casa anuncia o nome do estabelecimento, anuncia também o Instagram e o Whatsapp. Escrito em giz e com um Qrcode colado na placa que nos direciona para uma lista de pães , bolos e outros quitutes que diariamente são atualizados pelo staff da casa.
Na porta dois entregadores esperam por suas encomendas. Nesse período pandêmico os pedidos pelos serviços de entrega triplicaram segundo os jornais. É impossível hoje não cruzar nas esquinas da cidade, com esses trabalhadores que cruzam a cidade trazendo nossos pedidos.
Chega o primeiro pedido. Saí o primeiro entregador com sua moto Harmonia abaixo, no mesmo momento que eu escuto um sotaque que reconheço como estrangeiro.
Adoro esses pequenos desafios de adivinhar de onde são?
Gosto da ilusão de pensar que sou bom nisso. Acertar o país de origem de tantos sotaques escutados aqui em São Paulo. Por mais que eles e elas estejam há anos vivendo no Brasil, o desafio de perder as características fonéticas da língua de origem na maioria das vezes se torna quase impossível.
Sempre resta aquele mínimo traço, uma vogal, uma consoante, aquela centelha original que nos revela, nos entrega, nos leva a raiz de onde viemos.
Falo isso por experiência própria. Mi viejo ( é assim como eu chamo meu pai) é uruguayo. E faço questão de grafar Uruguay com Y. É mais charmoso e faz toda a diferença para mim. Em 76 ele chegou aqui no Brasil e nunca mais voltou para sua terra. Salvo as viagens de carro no final de ano onde ele, seus irmãos, esposas e filhos ( incluso eu) cruzávamos o Sudeste e Sul do País, em uma verdadeira Caravana da Coragem, para passarmos 1 mês de férias na pátria mãe.
Fora esse tempo em terras charruas , era sempre certo o retorno para o Brasil. Nesses 45 anos vivendo aqui , mi viejo nunca conseguiu perder seu sotaque. Bem da verdade há cada ano que passa, parece que ele mescla cada vez mais os dois idiomas.
Praticamente um novo idioma, dos quais eu, minhas irmãs e principalmente minha mãe somos fluentes.
-Olá , boa tarde, já sabe o que quer?
- Oi, é..... na verdade não sei , você tem um cardápio, um menu?
_ Humm, na verdade não. Você sabe que com a pandemia estamos evitando papel. Mas você pode direcionar seu celular para o QRCode e logo vai ver nossas opções.
Acenei com a cabeça positivamente concordando com a postura da Padoca. Tanta coisa mudou nesse tempo de pandemia. Uma das coisas que mais me intriga quando caminho pelas ruas é desvendar os rostos que estão por debaixo das máscaras.
As máscaras se encarregam de cobrir nossas particularidades, sejam as mais belas ou aquelas que não gostamos tanto. Uma boca delineada, uma barba bem feita, uma pinta a la Cindy Crawford ou uma verruga de bruxa.
Nunca saberemos.
Isso nos faz ficar atento a outros sinais e detalhes. E eu me certifico de prestar em outros detalhes do meu anfitrião.
Ele é jovem. Entre 29- 35 anos. A calvície chegou tsunamicamente arrasando o centro da cabeça , promovendo uma grande divisão e apresentando uma testa reluzente. Um colar feito de bambu, carrega um pingente de madeira que aparentemente lembra uma folha. Aquela folha. Fico imaginando que o ilustre padeiro tenha vivido um daqueles “summer loves” em alguma praia do Nordeste ou Sul do País, se apaixonou por nossa geografia e aqui se estabeleceu.
Volto das elucubrações que demoraram alguns segundos e digo a ele:
- Sempre passo por aqui, sempre tive curiosidade de parar....mas nunca parei.
- Então hoje é o dia – diz ele , abrindo os braços.
Sorrio para ele e confirmo com a cabeça.
- Você tem o pão de fermentação natural de grãos nobres?
- Olha, hoje ainda temos o pão de forma branco, o pão australiano, o pão de chia. Todos de fermentação natural. Ah... e o nosso delicioso pão francês.
Sempre que escuto “pão francês”, me pergunto o porquê desse nome.
Seria o tipo de panificação feito pelos gauleses, onde seus druidas geniais em meio a poções e menires, produziam pão para a tribo? Ou um primo distante do Baguette, sobrinho do Croissant?
Se bem que na terra que eu cresci, pão francês é o filão. Não me pergunte por quê. Em cada canto do país, dependendo do brasileiro que o solicite, ele tem um nome.
- Por favor, quero 04 pães franceses, diz o paulistano. Eu quero 04 cassetinhos diz o gaucho. Estranho, eu sei.
O manauara diz – 04 massas grossas e o sergipano – 04 pães Jacó. Para os cearenses são 04 carioquinhas.
Entre franceses e cariocas, eu me decido.
- Bom quero 04 pães franceses e um pão de forma branco. - Ótimo, vou entrar e solicitar o seu pedido.
Ele desaparece dentro da casa e eu tenho tempo para lembrar o quão apertado estou para ir ao banheiro. É impossível também não perceber como sobem prédios nessa região da cidade. Um deles aqui na Harmonia, sempre me chama atenção quando passo por ele.
A placa anuncia:
04 suítes- 04 vagas na garagem.
Para que, alguém em sã consciência, em uma cidade com engarrafamentos kilométricos precisa de 04 carros na garagem?
Eu vendi o meu há 01 ano e pouco, depois que retornei para SP. Se eu sinto falta? Nenhuma. Meus deslocamentos são muito bem contemplados com o metrô ou com minha bike. Quando a distância ou a chuva se tornam uma questão, os aplicativos salvam. Em uma cidade que prioriza vagas na garagem em vez de um bom sistema de transporte público ou alternativo, placas como aquela dizem muito que pensam e desejam os paulistanos.
Retorna o anfitrião estrangeiro com um pacote na mão. Dou um passo para frente para recebê-lo, e como Messi passando por zagueiros afoitos, ele me dribla e entrega para outro entregador. Eu tento fingir que não foi comigo.
A moto some na Harmonia, dessa vez rua acima.
- O bom dos nossos pães franceses – diz ele- é que eles não encolhem. Você aperta e ele volta ao tamanho natural- fazendo um gesto com as mãos como se fosse uma sanfona.
Foi o que eu precisava. Não resisti.
- De onde você é?
- Adivinha- diz ele.
Era tudo que eu queria. Já tinha scanneado as opções que me pareciam possíveis. -Alemão- mandei sem titubear.
- Acertou- sorrindo. Sou alemão.
Normalmente quando isso acontece, paramos por aqui. Mesmo que na maioria das vezes a curiosidade me levaria a outras perguntas, como- Que diabos você está fazendo aqui? – porém, eu escolho me calar.
Ele não.
- Estou aqui há 05 anos. Mas eu já estive no Brasil em 2010. Em um projeto da minha faculdade na Alemanha.
Eu levanto a sobrancelha como esperando a minha vez de perguntar, mas prontamente ele me interrompe
- Morei no interior de SP. Próximo de Ribeirão Preto, conhece? Sorri para ele.
-Meus pais moram em Ribeirão Preto.
Pensar em Ribeirão Preto me desperta muitos sentimentos e sensações. Na cidade que já foi sinônimo de café e hoje é um dos lugares que mais se consome cerveja no Brasil , você só vai vivenciar duas estações de clima – verão e inferno.Eu chego na cidade e minha pressão desce pra 09 por 06.
- Eu sempre digo RP, porque ela é mais conhecida. Mas na verdade eu fiquei em São Joaquim da Barra. É uma cidade bem pequena. Mas terminei o projeto e retornei para a Alemanha.
Ele abaixa no balcão e quando ele sobe a máquina de cartões aparece nas suas mãos.
- Posso cobrar? São 45 reais.
- Sim claro, Por favor...débito. Mas de que região da Alemanha você é ? – eu havia perdido completamente a discrição.
Coloco a senha e ele responde.
- Eu sou de....... e nesse momento o seu sotaque carregado me traí e eu acabo não entendendo o nome da cidade.
-Ela fica no Sul, perto de Munique. Próximo da divida com a Áustria. Naquela cidade que tem o castelo.....o castelo da Disney.
O castelo da Disney? Castelo...? Disney? Lembrei das aberturas dos filmes da Disney e do castelo no Fantasia. Mas certamente eu nunca saberei que castelo é esse.
- Lá na Alemanha – ele continua- eu estava trabalhando na Mercedes Benz. Eu estava me preparando para ser um CEO.
Fiz minha melhor cara de Wowwww!!
- O problema é que lá nos trabalhávamos 10h as vezes 12 horas por dia. No final do dia, quando o expediente estava terminando e seu chefe já estava indo embora, ele passava por sua mesa e dizia que queria tal relatório amanhã no primeiro horário.
Novamente fiz minha cara de Wowww.....
- Sim, sem nenhuma empatia se você ia passar a madrugada trabalhando.
Pensei em alguns chefes meus. Em horas extras, finais de semana e feriados trabalhando sem nenhum reconhecimento. Lembrei do Edward Norton em Clube da Luta. Quebrando o escritório do seu chefe. Quem nuca em algum momento quis assumir seu Tyler Durden uma vez na vida.
- Eu tenho amigos que desenvolveram demência, pânico e até câncer trabalhando dessa maneira. Isso é comum nessas grandes empresas.
Me armei para falar e ele continuou
- Eu não queria isso para mim.Teve uma semana que passei dias com dor de cabeça e vomitando. Uma dor profunda, no fundo dos olhos. Tonturas,mal estar. Dias depois decidi que não queria mais aquela vida. Disse que ia mudar tudo na minha vida. Decidi voltar para o Brasil.
Sorri para ele como quem concorda e entende. Tive uma vontade enorme de dizer que eu trocava com ele. Passaporte, CPF, moedas... se bobear até nome.
Chega o pacote. Olhei para trás. Não havia mais clientes e nem entregadores. Deve ser o meu.
- Aqui está.
- Obrigado meu amigo, vou saboreá-lo. Nos veremos em breve.
Abraço a minha sacola cheirosa. Me despeço e saio pela Harmonia. No meio do quarteirão, lembrei que ele não havia dito o seu nome e nem eu o meu.
Amanhã tem pão do estrangeiro alemão, que quase foi CEO , mas hoje é padeiro.

