Excelfrenia
s.f
Conjunto de transtornos do funcionamento cerebral que afetam
as percepções, o pensamento, as emoções e o comportamento. Caracterizado por vários sintomas, dentre eles delírios e alucinações. Pode levar o paciente a completa sofrência, quando algo sai das perspectivas ( ou do lugar mesmo) , inicialmente planejadas e arquitetadas pelo individuo.
Eu gosto de pensar que minha vida está toda planificada. Eu chamo de Excelada.
Da hora que eu levanto até a hora que eu durmo, cada atividade, tarefa, prazerosa ou necessária, está planejada.
O Excel definitivamente é uma obra divina. Moisés subiu ao monte Sinai e recebeu os dez mandamentos de Deus. Bill Gates subiu ao Monte Sandia e recebeu de Hefesto o Excel. Quer dizer o pacote Office inteiro, mas o grande programa definitivamente era o Excel.
Aprendi o Excel na tenra idade. Era então um garoto na casa dos 13 anos e estávamos em plena Copa do Mundo de 94. Era notória minha total ineptidão para a clássica competição que de quatro em quatro anos ressurge nos colégios, praças e ruas da cidade. Estou falando do jogo de bafo. Aquele em que destros e canhotos se esforçam para virar montinhos de figurinhas , aumentando assim suas coleções.
Fora as constantes humilhações nos intervalos no pátio do colégio, eu ainda enfrentava uma tremenda dificuldade para organizar minhas figurinhas para trocas.
Ainda me lembro da minha busca incessante atrás de Trifon Ivanov.
Nunca ouvir falar? Bom, ele era um jogador búlgaro, com olhos de psicopata e um inesquecível corte de cabelo, uma modelo perfeito de repicado na franja como Chitãozinho e Xororó, ligados harmonicamente com mulletsporteños que fariam inveja aos mais puristas.
Resumindo, por falta de organização e planificação, o dito jogador sempre esteve entre minhas montanhas de figurinhas, porém por toda essa dificuldade já citada, eu demorei três semanas a mais que meus amiguinhos para perceber que eu já tinha o cromo e assim completar meu álbum. Daquele dia em diante tal como a Scarlett do Vento Levou, eu prometi que nunca mais passaria essa vergonha novamente.
A primeira coisa que se deve fazer em situações como essa é reconhecer que precisa de ajuda. E ir atrás dela. No anos 90, as escolas de informática se multiplicavam mais que as lojas de açaí hoje.
Passei por todas as etapas do programa deles. Até na última fase, o temido Excel. Parece aquele jogo, sabe, onde você vai matando os chefes de cada fase, e por fim enfrenta o chefão mais pica das galáxias.Você morre umas trezentas vezes antes de conseguir vencê-lo.
Quando sai de lá, 06 meses depois, com meu diploma debaixo do braço, senti que um novo mundo se abria para mim. Eu era um novo Neo enxergando toda a Matrix. Não existia mais limites.
Chegou o colegial (hoje ensino médio) e me aflorou o ego. A primeira paixão me varreu por dentro. Eu não era o mais bonito, nem o mais alto, tampouco me destacava nos esportes. Tudo isso parecia me deixar cada vez mais longe de Michelle.
Como se destacar no meio de tantos jovens e conquistá-la? Passei meses pensando e sofrendo, sem perceber que a resposta estava dentro de mim.
Eu precisava definitivamente me entregar ao Excel. Excelar minha vida. Explico.
Eu tinha 30 camisetas na época de diferentes estampas. Dessas trinta, quinze delas com estampas de música. Dentro do tema, claro as do Bowie se destacam. Do Ziggy a Major Tom, passando por Alladin Sane e Halloween Jack, eles estava todos ali estampados. As sete restantes estavam divididas entre Beatles, Led Zeppelin e Johny Cash.
Sim, sei que o Cash não é uma banda.Mas um cara que toca em uma das prisões mais violentas do país, sem qualquer divisão entre palco e platéia, segurança ou qualquer outro aparato, ficando cara a cara com seu público, isso sim merece uma camiseta.
As outras quinze camisetas são de filmes. Outra paixão que começou bem cedo. Eu ainda me recordo do primeiro filme que assisti dentro de um cinema? Você se lembra?
O meu foi Star Wars Episode VI- O retorno de Jedi. Nunca vou esquecer desse dia. De certa maneira até hoje quando entro em um cinema, os sentimentos são os mesmos.
Mas voltando as camisetas, dez delas são sobre o mesmo filme. O Poderoso Chefão.Cinco do primeiro filme, quatro do segundo e apenas uma do terceiro.Claramente essa terceira veio para completar a trilogia. Fechar o ciclo.Mesmo sabendo que o terceiro filme representa o elo fraco da corrente. Há que se dizer que ela também estava com desconto e há tempos encalhada.
“Joe Zaza...Bang” na estampa da camiseta. Vincent Mancini, o filho bastardo de Santino Corleone, matando o chefão da máfia de NY em plana festa de San Gennaro.
As outras cinco camisetas se dividem entre Rocky um lutador, Curtindo a Vida Adoidado, Clube dos Cinco e Goonies.
Nos trinta dias de cada mês (com exceção de julho, agosto, setembro e outubro) eu desfilava uma camiseta “nova”. Digo nova, porque na minha planilha cada uma delas tinha seu dia específico para ser usada. Camiseta X dia tal, camiseta Y, dia tal. Com as quatro calças que eu tinha e com a memória nada perspicaz dos meus amigos, era quase como usar uma roupa nova por dia.
Mais uma vez o Excel salvou minha vida, me ajudou a conquistar a Michelle e fez minha adolescência um pouco menos traumática.
Eu gosto de pensar que minha vida está toda planificada. Eu chamo de Excelada.
Eu já assisti muitos tutoriais de como organizar uma biblioteca pessoal. Há gente que divide por tema. Parece sempre o mais lógico. Romance, Ficção, Auto Ajuda, Biografia. Há também aqueles que preferem a clássica divisão em ordem alfabética. Eu prefiro o pantone de cores. As doze cores ali representadas. As lombadas dos livros traduzindo uma possibilidade enorme de combinações. Um sucesso entre os amigos mais atentos.
Mas toda essa orgia visual termina quando alguém me pede emprestado um livro.
É que estando todos eles planilhados, no formato: nome, autor, estilo, data de publicação, data de compra e uma breve sinopse, fica impossível não me dar conta daqueles que foram emprestados e não devolvidos.
Minha biblioteca não é grande. Mas é minha, e eu tenho um enorme ciúmes dela.Uma loucura esse paradoxo entre adorar emprestar e sofrer enquanto eles não voltam.
Cheguei a perder amigos assim. Um empréstimo, uma cobrança e uma ruptura.
- Raul, beleza?
- Fala mano, beleza.
- E aí como estão as coisas?
- Tão bem, suave. - Legal.
-Legal.
- A família?
- Vai bem. E a sua?
- Tudo bem. Graças a Deus.
- Massa
- Massa
- Viu...
- Oi...
- Lembra aquele livro que eu te emprestei?
- Qual?
- Aquele do Galeano.
- Cara, desculpa, não lembro.
- Então, eu lembro. É aquele “As veias abertas da América Latina”.Eduardo Galeano. Publicado em 71. Da editora Monthly Review.
- Caralho mano! O que é isso? Você cataloga seus livros?
- Exatamente, Raul. E eu te emprestei há sete meses. No dia 09/03/2019.
- Cara, eu to passado com isso. Sério?
- Sério.
- Na real. Eu nem sei onde está esse livro. Mas faço questão de te comprar outro então.
- Ah, Raul, obrigado. Eu tenho um carinho enorme por eles. Depois que você me devolver ele, podemos pensar no empréstimo de um outro.
- Hahahaha...você tá de brincadeira né?. Não quero mais nada seu. - Raul...
- Cara chega. Na moral, você já deu seu recado. Vou fazer esse livro chegar na sua casa.
- Raul...
- Meu to desligando...
- Raul, calma deixa eu falar uma coisa...
- Fala.
- Olha só, quando for comprar, não é aquela edição pocket que vendem em bancas de jornais. É uma edição de luxo, capa dura.
- Ah vai se fuder....
Desliga o telefone.
Aqui vale um adendo a essas recordações.
Meu pai desde cedo, me comprava gibis. No início os Mickey ́s, Pato Donald ́s e depois a Turma toda da Mônica. Bom isso, até eu descobrir Bruce Wayne, Clark Kent, Logan e o advogado Matt Murdock. Minha coleção de gibis chegou a ter algumas preciosidades como o Batman e o X- Men edição 1. Interessante que muitos colecionadores nem sempre revisitam suas coleções. Eu ficava meses sem pegar um deles. Mas isso na verdade não importa.Você simplesmente sabe que eles estão lá. Te esperando.
Eram 635 gibis. Marvel, Dc Comics, Image, Western, Marge entre outras editoras.
Foi em 1983 quando comprei o meu primeiro gibi,um Batman número 359. Ele apresentava um novo inimigo do Homem Morcego, o Crocodilo Assassino. O último, o 635 da coleção, não me lembro mais qual foi. Com certeza se eu tivesse com minha planilha aqui em mãos eu te diria.
Nossa memória muitas vezes nos traí.
O Excel nunca.
Acontece que nessa época eu sai de férias por um mês. Foi um período de muita chuva no País. A casa que eu morava com minha coleção de gibis, sofreu um grande vazamento. Grande. E como a lei de Murphy é cruel e implacável, o cômodo mais afetado foi aquele que eu guardava meus gibis, Todas eles organizados naquelas prateleiras de metal, bem antigas, onde cronologicamente repousavam.
Resultado, todos eles completamente encharcados. Eu ainda não sei ao certo se eles poderiam ser salvos.
Talvez sim, talvez não. Imagine a cena, um grande varal com 635 gibis de tamanhos e espessuras diferentes, tomando sol, relaxando e tentando voltar a sua forma natural.
Seria um novo recorde. A decisão porém não era minha, pois eu estava fora. Julgado e condenado a revelia, meu amigo que foi dar um a olhada na casa dias depois do desastre, decidiu dar fim nos gibis que já cheiravam mal e apodreciam.
Bom é isso. Vão se os gibis, ficam os vinis.
A nova geração conhece vagamente o que é. Fita cassete, Walkman, Discman, Tamagotchi, Game Boy, Motorola Startac, Pager parecem coisas de outra era glacial.
No que concerne a música, hoje tudo se resume ao Spotify e outros tocadores.
Pode se dizer que o Spotify de fato facilita a procura. Sim, é verdade, o Vinil é sistemático.
E que ele conecta pessoas. Sim é verdade, o vinil te escolhe.
Ele comprime as músicas para que tudo possa caber nos gigas do seu telefone. Já o vinil. Ah o Vinil, ele expande. Expande sua mente e corpo, para outras experiências.
A geração X da qual eu pertenço vivenciou os últimos dias do Vinil, antes de sua ressureição 30 anos depois. Os Millenials aprenderam a ouvir música de outra maneira. Pulando de faixa em faixa. Ouvindo tudo pela metade. Um pouco disso, um pouco daquilo.
Você já experimentou a sensação de abrir um disco?
Pegar aquele encarte que vinha internamente e passar horas lendo. Acompanhar cada música com a letra nas mãos. Saber quem tocou naquela faixa o trompete, o baixo, a bateria.
Não tem preço isso.
O vinil tem cheiro, tem peso e até serve de decoração. Se você conseguiu chegar até essa parte do texto, deve imaginar que meus vinis estão todos excelados.
Diferentemente dos meus livros, eu não os empresto.Eles são organismos sensíveis e temperamentais. Ele se casa com a agulha da vitrola da sua casa, estabelecendo uma relação monogâmica que não pode ser rompida.Quando alguém decide quebrar esse juramento, emprestando um vinil, as conseqüências podem ser indeléveis.
Por isso o mais perto que você chegará dos meus vinis, é no sofá de minha casa, apreciando em alto e bom som, os acordes e melodias que sairãode um equipamento Gradiente 1986, com duas caixas de som devidamente equalizadas.
Essa audiência sentada no sofá e até com o encarte nas mãos, poderá se deliciar com um repertório bem variado. Eu ia escrever eclético, mas essa palavra me dá certa preguiça, porque é sempre a mais usada quando queremos dizer que gostamos de muitas coisas diferentes, principalmente na música.
Mas como eu dizia esse repertório planificado tem lá suas estrelas. Pego minha planilha e leio:
Estante 2, Caixa 3, 5o disco (sempre da direita para esquerda, assim do mesmo jeito que os árabes escrevem). O primeiro disco do Bowie, ainda me recordo que eu o encontrei em um mercado de pulgas em Beyoglu, Istambul. Paguei 200 liras turcas, algo como 105 reais. Esse disco facilmente vão te cobrar 700, 800 reais em São Paulo.
Vinil é uma commodities que valoriza demais. Eu diria mais que muitas outras hoje tão famosas. Veja só, em um tempo de vacas magérrimas eu tive que me desfazer de uma das pérolas da minha coleção. Questão de sobrevivência naquele momento.
Louco por você, do Roberto Carlos. O disco de 61 foi expurgado da discografia do Rei. Já li várias teorias, mas o que eu sei que esse presentão que herdei da vovó, causou alvoroço na comunidade do vinil na épocaquando coloquei o anúncio de venda. Virou, literalmente, um grande leilão. Por fim consegui vender por 2.500 reais.
Obrigado dona Alzira.
O Excel não mente e também não me deixa esquecer.
Estante 3, Caixa 1, 8o disco. Racional do Tim Maia. A capa tá longe de estar conservada. Pelo contrário, tá detonada. Porém a bolacha tá lindona, intacta. Que disco. Até dois anos atrás, você só poderia ouvir em vinil, porque os Spotifys da vida não tinham no seu catálogo.
Esse Excel tem também as suas falhas. E não por culpa dele. É deste que escreve, que não teve a sorte de cruzar com o Marku Ribas de 73 e o lendário Paebiru de Lula Cortes e Zé Ramalho. Apesar que certamente se eu estivesse frente a frente deles, me faltaria envergadura financeira para levá-los para casa.
O Paebiru tem histórias incríveis. Para além das tretas que rolaram antes, durante e depois da gravação, uma enchente em 75 em Recife destruiu as fitas masters da gravação. Até então só 1300 discos haviam sido prensados.
É por isso, que quando alguém tem, não vende. Quem vende quer muita grana.
Mas não só de raridades vive uma boa planilha de vinis. Tem muita coisa não tão “legal”, mas que tem um valor sentimental incrível.
Aquele Ray Coniff,que te lembra seu pai e mãe dançando juntinhos na sala de casa. Ou aquele disco do filme Saturday Night Fever que fazia seus pais arrastarem os móveis e cruzar a sala nos passinhos a La Travolta.
Nas noites de fossa, uma garrafa de vinho e um A Love Supreme quase te aproximam de Deus, e em noites mal intencionadas Marvin Gaye pode te aproximar dos prazeres de Himeros.
Talvez você esteja se perguntando, se toda vez que eu vou consultar minha planilha eu vou até o computador, ligo e vejo.Não necessariamente.As planilhas estão devidamente impressas em pastas de plástico de cor azul celeste transparente.
Quando um novo vinil, livro, camiseta, ou os outros itens da minha vida é adquirido, uma nova impressão atualizada vai para as pastinhas.
Eu gosto de pensar que a minha está toda planificada.
Você me acha excêntrico? Louco? Pode ser.
A loucura é algo muito particular. A loucura de um, pode ser o equilíbrio do outro. Ou o seu mindset para utilizar a palavra da moda.
Eu não discuto as diferentes interpretações das minhas particularidades.Junto com cada planilha existe um monte de percepções e valores que dou ao meu pequeno universo particular.
Eu poderia contar sobre tantos outros aspectos da minha vida que estão conectados com o meu desejo de me aproximar a essas pequenas coisas que me trazem alegria. O caos que existe dentro de mim, ganha bonança nos meus excéis. Afinal de contas, quem não tem as suas manias e particularidades, que jogue o primeiro vinil. De preferência um The Shapeof Jazz to Come do Ornette Coleman, que eu to atrás faz tempo.
Ufa...
Eu gosto de pensar que a minha está toda planificada.

