Ele tomou sua última cerveja num boteco velho de um beco sujo. Deixou uma nota de 20 sobre o balcão. Jogou a mochila nas costas e saiu. A chuva começou a cair lenta. Comprou um guarda chuva do camelô e foi caminhando. Na mochila tinha dois livros e um estojo de madeira com facas diferentes. Literatura e morte numa mochila de couro. A chuva aumentou
Parou com o cigarro no canto da boca. Estava em frente ao prédio de 3 andares. Não havia porteiro. Fumou com calma embaixo do guarda chuva enquanto o aguaceiro caía.
Na rua pessoas apressadas, atrasadas e nunca presentes. Estavam ali e não estavam ao mesmo tempo. Perdidas em problemas passados ou futuros. Respirou fundo e jogou o cigarro na água que escorria para o esgoto.
Pegou as cópias das chaves e entrou.
No corredor ficou em frente ao 303. Barulhos de dentro. Ninguém do 301 e 302 ouvia aquela confusão do 303. Tirou da mochila a faca bowie. Balançou a cabeça negativamente e entrou.
Da sala ouviu o som de murros, coisas quebrando e uma mulher gritando. Um homem gritou mais alto um cala boca. Ele caminhou devagar até a porta do quarto fechada. Girou a maçaneta e entrou.
Tudo bagunçado, roupas rasgadas e móveis quebrados. Num canto estava a mulher, agachada tentando se proteger. Chorava, com sangue escorrendo da boca e um hematoma no olho esquerdo.
Ele agarrou o punho da faca. Não fazia seu trabalho por se achar um justiceiro ou defensor. Era por dinheiro, mas essa noite teria prazer nesse trabalho. Seus olhos cinzentos se tornaram frios.
Você morre hoje. A voz saiu gelada e sem emoção.
O homem que esmurrava a mulher se desesperou. Correu em direção ao homem de boina vermelha e se jogou de encontro a ele.
Ele foi arremessado na parede. Cairam no chão. Nem assim ele largou a faca. O homem desesperado em cima dele. Arremessou um soco que acertou bem no rosto. Ficou meio tonto e com raiva. O homem desesperado tentou apertar sua garganta. Ele girou a faca na mão e a cravou na costela do homem. Nem assim ele largou. Acertou outra facada na coxa. Uma, duas vezes. O homem desesperado se sentiu fraco. Gritou de dor e medo, foi empurrado para o lado e caiu no chão.
Ele rolou no chão e se levantou. A camisa suja de sangue. Caminhou até o homem desesperado que se arrastava no chão tentando fugir. Foi virado de frente. Olhou a faca ensaguentada. Você vai morrer. Repetiu.
Medo, desespero e angústia. Tudo se misturou. Era o fim para ele. Não existia Deus, inferno ou paraíso apenas o final de sua vida e isso lhe trouxe um medo terrível. Isso era o pior de tudo. Morreu olhando a faca enterrada no seu coração.
Está livre. Disse para a mulher.
Pegou uma camisa do armário e trocou pela sua. Limpou a faca com a própria camisa e jogou tudo para dentro da mochila. Iria se livrar de tudo depois.
Era uma da manhã quando o ônibus deixou a rodoviária com destino a Espírito Santo. Baixou a boina vermelha, cobrindo os olhos, e dormiu.

