AURORA
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AURORA

Aurora

 

Claro, secretamente, sempre existiu uma causa, por mais que às vezes possa vir a ser maldita, que nos faz ir além do que naturalmente poderíamos e pensamos. Na prática parece simples, mas seria uma tarefa, mais que impossível, retratar a quantidade de pensamentos que invadem nossa mente de modo agressivo, acompanhado pelo desejo, para que possamos trair a nossa própria natureza; alguns se traem por coisas que os olhos podem ver, outros, como uma droga, pelo o que se pode sentir. O que não contamos na maioria das vezes, é seu efeito.

 

Já era quase o fim da noite. Se apartasse os olhos, bem forte, já podia ver os primeiros raios de sol surgindo no horizonte. O cheiro do álcool subia ao nariz de forma putrefata e vergonhosa. Os candelabros acesos junto com os lampiões que davam um pouco de luz à taverna traziam consigo um pouco de calor. Minhas costas estavam destruídas por, provavelmente, ter dormido ou desmaiado como um bêbado sobre a mesa. Olhei à minha volta, ao lugar podre com madeiras cheias de cupim caindo aos pedaços e percebi que estava sozinho, logo, meu coração se contraiu e um lampejo tão forte de memória veio à mente.

 

Era bem verdade que sempre correu soltos pela cidade de ---- boatos de feitiçaria. A própria igreja lidava com assuntos do tipo. Logo eu, que não posso dizer abertamente o valor de minha fortuna, nunca precisei me importar com coisas do tipo. No entanto, algo perverso corria à mente; algo que me fazia questionar o modo que eu passava os dias. Era tedioso as formalidades e o modo como me tratavam pela minha posição social e riqueza. Sendo mais claro e sincero, tudo parecia idiota e líquido, não havia nada que fazia meu coração pulsar de modo que só pulsaria, ou pulsa, os corações apaixonados, sejam por idiotice ou não.

 

Pois bem, no auge de minha lembrança, lembrei-me de Fortunato, um dos meus melhores amigos na época do colégio de medicina que retornara à cidade há poucos dias. Contei-lhe minha inclinação maldita pelo desejo, simples e complexo, de sentir o que poucos têm a oportunidade de sentir; queria sentir o amor pulsando em cada veia que corre meu sangue, jogado em um devaneio cósmico e inexplicavelmente junto ao inconsciente.

 

A princípio, Fortunato me viu como objeto de deboche e pôs se a rir em uma gargalhada que ecoa em meus pensamentos. Chamou-me de ébrio e, sem pudor algum, deixou claro que eu só podia estar insano.

 

E concluiu com um discurso ácido: “ Quanta idiotice! Será que ainda não aprendeu nada sobre a vida? Ou, o convívio com os corpos na faculdade te deixou insano? Veja meu caro, gastamos horas demais com os mortos para apreciar essas coisas fúteis. Apenas uma coisa importa: O que está além do nosso conhecimento, qualquer outra coisa, é mero capricho e idiotice.”

 

 

Após o deboche, fechou o semblante e pediu-me que explicasse os tais boatos que ouvi sobre feitiçaria. Fui bem rápido e claro para explicar com medo que o mesmo perdesse o interesse, pois mesmo com meu desejo, me faltava coragem. Expliquei como ouvi de um dos meus criados de confiança e onde encontramos, no fundo de uma taberna, uma tal de Niandra.

 

"Iremos." Foi as palavras que saltaram firme e fortes da boca de Fortunato.

 

Era sexta feira. Fiquei de encontrar Fortunato a frente da taverna próximo da meia noite.

 

Cheguei mais cedo do que havíamos combinado. Então tomei um tempo para observar; a taberna ficava próxima a praia de ------- e todos podiam entrar, mesmo que os locais não vissem com bons olhos os europeus, pois, para seu padrão, eram idiotas demais. Eu concordava, sempre odiei seus modos, por mais que fosse descendente de escoceses. A rua era quase deserta a não ser por outros estabelecimentos noturnos pouco badalados e casebres simples que caiam aos pedaços com o vento do litoral. No entanto, naquela noite, havia bastante movimentações de pessoas por lá. Escondi meu relógio e fechei o semblante, pois a polícia fazia questão de manter distância desta área no tardar da noite, não por ser perigosa, mas porque eram preguiçosos.

 

Acho que já era próximo da meia noite quando uma brisa litorânea soprou meu rosto. O mar refletia os brilhos das estrelas. Quando, ao longe, avistei Fortunato. Seus olhos verdes brilhavam e ao passo que se aproximava seu sorriso macabro se fazia cada vez mais aparente. Estava trajando um traje formal com gravata e tudo; trazia também consigo uma espécie de bengala, mas não uma comum, e sim uma de metal com a parte superior em pura prata na qual havia gravuras que impressionariam, com toda certeza, todos dali. No começo se fez até um pouco cômico, ainda mais o barulho que a mesma fazia em contato com o chão! Todos olhavam escondendo o riso, mas também a inveja.

 

Ao se aproximar se comprimentou cordialmente. Questionei os motivos da bengala, "às noites aqui nesta capital podem ser mais selvagens do que muitos podem pensar", disse gargalhando com aquele velho sorriso macabro abaixo dos olhos esmeraldas.

 

Ao entrar na taverna, automaticamente, os olhares de todos recaíram sobre nós; nada fora dito, a música parada e nem o barulho do vinho descendo a garganta foi escutado. Passou-se cinco segundos de extremo desconforto. Tentei me movimentar e pedir alguma bebida para tentar apaziguar a situação, entretanto, em um movimento súbito, Fortunato me impediu, levando a mão que segurava a bengala ao meu peito.

 

Foi-se então que um senhor se levantou. Era negro como a noite e seus braços pareciam ser de outro mundo. Nunca vira tamanho músculo em nenhuma pessoa.

 

Ele olhou para nós e gritou: "Fortunato".

 

"Em carne e osso! Uma derrota para Deus!" Disse Fortunato estufando o peito. O homem ergueu o copo em sinal de respeito e no momento que voltou a beber todos voltaram.

 

Nós nos dirigimos ao balcão e perguntamos, sem filtro algum, a respeito de Niandra. O barman fechou o semblante na hora e entendeu a mão e Fortunato deu-lhe alguns papéis de libras. O rosto do barman chegou a brilhar e lentamente nos conduziu aos fundos por um caminho estreito e que cheirava mal.

 

Chegamos a uma espécie de cômodo pobre e apertado. Junto à parede havia uma cama, sobre ela — eu não sei se és delírio ou lembrança ao passo que forço minha mente a me trazer a sanidade —, estava uma mulher branca, mesmo sem ter visto, posso afirmar, como a neve. Suas madeixas que corriam sobre seu corpo eram pretas e brilhosas como a penumbra. No entanto estava adormecida; jogada a colchões velhos.

 

Meu coração disparava de sensações que eu mesmo não saberia dizer com exatidão, mas, digo com certeza, que tinha medo. Olhei para Fortunato e seu sorriso cobria, de forma mais macabra, todo o rosto.

 

O barman, então, se colocou a dizer antes que deixasse o quarto: "Um desejo que seja possível e então, saiam."

 

Fortunato foi primeiro. Se inclinou na altura da orelha, deslocando as madeixas pretas para que se fizesse bem claro. Se levantou e seu sorriso, ao passo que tomava mais espaço em seu rosto, tornava-se mais macabro.

 

Fortunato deixou a sala e então me inclinei para fazer meu desejo. Bem simples e rápido. Disse a ela que ao nascer do sol, gostaria de me apaixonar.

 

Sai do cômodo sem acreditar no que estava fazendo, muito menos na probabilidade de tudo aquilo ser real. Estava mais para uma enganação, assim como vemos em bordéis onde a menina mais bela apenas chama atenção de mais pessoas para entrar. Enfim, Fortunato e eu aproveitamos a ocasião de estar na taverna e começamos a beber, pois aquela sensação iria me deixar bem e confortável em puro estupor ébrio.

 

As horas passavam e o sentimento de camaradagem entre todos ali parecia de outro mundo. Por alguma razão que não me lembro, contei a Fortunato meu tolo desejo e ele pôs-se a rir novamente tão alto quanto antes. Mas por algum motivo, em meio a copos e mais copos de vinho, sentados em uma mesa, Fortunato repousou a cabeça em meu ombro e disse de forma solene, "Eu desejo que o seu sonho idiota se realize, para o meu sonho idiota se realizar." No ímpeto de comemoração pelo bem, ou pelo ruim, bebemos. E deste ponto em diante a memória me foge assim como sonhos fogem ao entardecer do dia.

 

Cambaleando e aos poucos me dirigi à saída. A porta se abriu sozinha e do alto, os olhares do barman se dirigiam à mim. Ajudou-me a andar e ao passo que o sol nascia no horizonte e que ficávamos mais perto da porta pude vê-la…A minha Aurora, foi como a chamei sem explicação. Era algo como amor à primeira vista, assim como vemos em apenas idealizações inglesas de grandes nomes. O cabelo loiro brilhava junto ao sol e dançava a melodia do vento.

 

Meu coração começou a comprimir cada vez mais. Aquela visão de vênus trazia a loucura que faltava em minha mente e que só o amor poderia completar. A causa de toda minha vida e de relações sociais estavam ali, diante dos meus olhos.

 

No entanto senti um frio percorrer minha espinha. Meu pescoço imóvel e, por alguma razão, todos membros imóveis, incapazes de quaisquer movimentos. Os olhos titubearam, a respiração ficou cada vez mais pesada e a porta mais próxima; coração que deveria arder em lava ficava mais dormente, tímido.

 

Olhei novamente para Aurora e do lado dela o diabo em pessoa pôs-se a gargalhar com um sorriso odioso no rosto.

Fortunato sobre o apoio da bengala me fitava com os malditos olhos verdes.

Um ódio sem explicação nasceu em minhas veias.

Então uma última lembrança se despediu de mim.

Um desejo do diabo que na ocasião foi seguido por gargalhadas incrédulas.

"Desejei que,

ao nascer do sol,

seu coração

parasse."