A EX DO MEU EX

A EX DO MEU EX

Há amizades que não seguem roteiro, não respeitam convenções e, ainda assim, encontram um jeito de dar certo. Algumas nascem justamente onde ninguém imaginaria. E, quando percebe, já está rindo junto, dividindo histórias e inventando confusões.

A Ex 1 era a prova disso. Loira, magra, de fala rápida, voz grave e gestos inquietos. Parecia estar sempre com pressa — inclusive para pensar. Falava primeiro, pensava depois e não tinha muita paciência para esperar que as coisas acontecessem no seu tempo.

A Ex 2 era o oposto. Cabelos castanhos, também magra, mas seguindo outro ritmo. Falava manso, era tranquila e carregava um sorriso largo, daqueles que aparecem com facilidade. Enquanto a Ex 1 se agitava, a Ex 2 observava. Ou tentava observar, porque bastava alguma situação absurda acontecer para o sorriso virar gargalhada.

Duas ex, duas mulheres que não se pareciam em quase nada. A amizade entre elas já existia, embora as famílias não entendessem muito bem, e pelo que se percebia, também não faziam questão de incentivar.

Havia quem achasse que aquela amizade não ia dar certo. Afinal, não era todo dia que alguém resolvia sair por aí com a ex do próprio ex. Mas naquela noite havia um motivo especial para comemorar: a liberdade da Ex 2.

A Ex 1, matriz original - ex-esposa, agora era amiga. E não podia faltar à comemoração da Ex 2, sua sucessora no cargo de ex — porque, se tinha alguém com experiência naquela função, era ela.

Mas a Ex 2 estava solteira. E queria que o mundo soubesse. Para evitar dúvidas, publicou nas redes sociais o comunicado oficial:

“Solteira, sim. Disponível, talvez.”

A solteirice merecia uma comemoração à altura. A Ex 2 decidiu reunir as amigas num bar, brindar à nova fase e, quem sabe, deixar registrado para a posteridade que estava livre. Organizou tudo. Reservou mesa e convidou uma amiga “fitness” — dessas que não dispensam o exercício e, pelo visto, também não dispensam uma boa história.

A ideia era simples: sair, conversar, rir e celebrar a liberdade. O que poderia dar errado?

A Ex 2 e a amiga fitness chegaram primeiro. Sentaram, pediram uma porção e começaram a conversar. Uma já estava no terceiro drinque; a outra, ainda bebericava o primeiro. Tudo tranquilo, sem grandes acontecimentos. Pelo menos, até ali.

Então chegou a Ex 1.

Loira, magra, de salto alto e vestido preto justo, com um decote generoso e muitos olhares pelo caminho. Trazia no visual a disposição de quem não tinha vindo apenas para tomar uma bebida e voltar para casa. À noite, que até então seguia comportada, acabava de ganhar reforço. E a Ex 1 ainda nem tinha pedido a primeira caipirinha.

Nem se acomodou direito e já chamou o garçom:

— Moço, uma caipirinha, por favor. Com vodca e frutas vermelhas.

Fez uma pausa, como se estivesse escolhendo os ingredientes de uma receita fitness, e completou:

— Afinal, tem fruta, né? Mais saudável!

A Ex 2 e a amiga fitness se entreolharam e riram. A noite prometia.

Na mesa ao lado, quatro homens conversavam sobre política. Um deles, magro, com cara de quem já tinha enfrentado um dia inteiro de trabalho, ainda vestia o uniforme do serviço. Devia imaginar que uma cerveja com os amigos seria tudo de que precisava para terminar bem o dia.

Mas, pelo visto, os planos mudaram.

Já bastante animado, olhou para a mesa das mulheres, aproximou-se e pediu licença para sentar. Não esperou resposta. Quando perceberam, já estava acomodado entre elas, como se tivesse sido convidado desde o início.

A Ex 2 ria. Os amigos da mesa ao lado também, embora parecessem não entender muito bem o que estava acontecendo.

Na mesa ainda restavam dois pastéis frios e murchos. O recém-chegado não fez cerimônia: começou a comê-los com a disposição de quem tinha encontrado um banquete. Tentava se enturmar, puxava conversa, enquanto a Ex 1 o observava com uma expressão que parecia dizer que, se dependesse dela, aquele sujeito já teria sido retirado dali à força!

Entre uma tentativa de conversa e outra, o rapaz comentou que estava desempregado.

A amiga fitness, que até então acompanhava a cena em silêncio, puxou a Ex 1 para perto e cochichou:

— Ele está de uniforme!

Foi o bastante. As duas caíram na gargalhada.

A Ex 1, porém, já não achava graça. Fuzilava o intruso com os olhos, enquanto ele tentava ser simpático, puxando conversa como se não percebesse que sua presença não era exatamente desejada.

A expressão da loira foi ficando cada vez mais ameaçadora. O rapaz, enfim, pareceu entender que talvez fosse melhor se afastar. Ou talvez apenas tenha decidido que uma cerveja poderia ajudá-lo a enfrentar aquela situação. Pediu outra.

A Ex 1 respirou fundo. Talvez a cerveja também a acalmasse.

Quando resolveu se levantar, o homem cambaleou, quase derrubou a mesa e acabou caindo sobre a Ex 1.

Ela o encarou. Por um instante, pareceu submetê-lo a um exame de raio X, daqueles capazes de atravessar roupa, pele e os últimos pensamentos. Se o olhar tivesse poder, o sujeito teria explodido em pequenos pedaços sobre a mesa.

Mas ele não percebeu. Ou não quis perceber.

Na despedida, ainda tentou dar um beijinho na Ex 1. Aproximou-se desajeitado, quase caiu outra vez e, depois de algum esforço, conseguiu completar a missão.

A loira, que já estava no limite, ainda o intimou:

— Agora dá tchau para ela também!

A amiga fitness mal teve tempo de reagir. Recebeu na cabeça outro beijo desastrado, como se estivesse sendo abençoada por um santo bastante alcoolizado.

A Ex 2, a essa altura, já estava fora de si. Ria tanto que quase caiu da cadeira.

A amiga fitness já estava cansada. Como ainda tinha compromissos no dia seguinte, decidiu ir embora. A Ex 2 levantou-se e a acompanhou até o carro.

Quando voltou à mesa, encontrou a Ex 1 em plena expansão social. Já tinha pedido cerveja, conseguido um maço de cigarros e se enturmado com a galera animada da mesa ao lado.

A intimidade parecia antiga. A Ex 1 levantou-se, pegou um drinque abandonado, já com o gelo derretendo, e voltou como se estivesse apenas retomando a conversa.

Naquela noite, pelo visto, havia duas prioridades: celebrar a liberdade da Ex 2 e aproveitar tudo o que a noite oferecesse — inclusive os pastéis frios e os drinques esquecidos nas mesas.

Foi então que a Ex 1, sem cerimônia, perguntou a um dos homens:

— E você é o corno das duas loiras? Eu ouvi bem?

A Ex 2 quase caiu da cadeira de tanto rir.

Os garçons já varriam o chão ao redor da mesa. A Ex 1, porém, ainda queria mais uma saideira. E lá foram as duas, seguindo a nova turma.

No meio do caminho, perderam-se. Depois de algumas voltas e de lembrar o nome do bar, finalmente chegaram. Pararam, olharam e entraram.

O lugar era uma biboca: apertado, quente, cheio de gente estranha e com um karaokê que parecia promover um concurso para ver quem desafinava melhor.

Por lá estava o casal de “novos amigos” — entre eles, o famoso “corno das loiras”.

A noite já tinha rendido o suficiente. A Ex 1 e a Ex 2 resolveram ir embora. Mas não saíram de mãos vazias: levaram uma sacolinha de supermercado cheia de cerveja e uma bagagem ainda maior de risadas.

Lá fora, o céu já anunciava a chegada de um novo dia.

Porque, no fim, a Ex 2 não ganhou uma amiga quando ficou solteira. Ganhou foi a liberdade de sair com ela.

Afinal, a noite é uma criança.

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