O último eco antes do abismo

O último eco antes do abismo

Chegou o ponto final.

Não há mais retorno.

Não existem desculpas capazes de alcançar o lugar onde você me deixou, nem palavras que consigam reconstruir aquilo que foi destruído naquela noite.

Já se passaram dois anos.

Dois anos desde que aquela imagem passou a morar dentro da minha cabeça.

Às vezes ela aparece quando fecho os olhos.

Às vezes surge no meio da madrugada, quando o silêncio fica grande demais e as lembranças começam a falar mais alto do que qualquer voz.

Eu ainda me pergunto como foi possível.

Como alguém a quem entreguei o mundo inteiro conseguiu devolver tudo em forma de traição?

Eu te entreguei minha confiança.

Meus sonhos.

Meus medos.

Meu futuro.

E você conseguiu transformar tudo isso em ruínas.

Depois daquele dia, eu também comecei a desaparecer.

Primeiro foram os amigos.

Depois vieram as noites.

Depois, eu.

Passei a reconhecer meu rosto cada vez menos no espelho.

As garrafas se acumularam.

As mensagens diminuíram.

As pessoas cansaram de tentar encontrar alguém que já não sabia onde tinha se perdido.

E eu deixei.

Talvez porque, naquele momento, desaparecer parecesse mais fácil do que continuar existindo daquele jeito.

Dois anos podem parecer muito tempo para quem olha de fora.

Para mim, foram apenas setecentos e poucos amanheceres tentando sobreviver à mesma noite.

E agora estou aqui.

Escrevendo.

Não sei exatamente para quem.

Talvez para você.

Talvez para mim.

Talvez para ninguém.

Quero apenas deixar registrado que, naquela noite, alguma coisa terminou.

E não foi apenas o nosso relacionamento.

Uma parte de mim também ficou naquela casa.

Naquele instante.

Naquele chão.

Entre as flores que caíram das minhas mãos e todas as palavras que nunca conseguiram sair da minha boca.

Você talvez nunca saiba o que aconteceu comigo depois daquele dia.

Talvez nem queira saber.

E talvez seja melhor assim.

Porque algumas histórias não precisam de testemunhas.

Algumas despedidas acontecem em silêncio.

Sem plateia.

Sem aplausos.

Sem ninguém para perguntar se, depois dela, houve um novo amanhecer.

Só sei que, naquela noite, quando finalmente deixei tudo para trás, eu não era mais o mesmo homem que tinha chegado até ali.

Se ele morreu naquela noite?

Talvez.

Ou talvez tenha sido apenas a última parte dele que ainda acreditava em você.

Não sei qual das duas versões é verdadeira.

Talvez nem eu saiba mais.

O que sei é que, depois daquela noite, ninguém mais encontrou aquele homem.

E talvez essa carta seja tudo o que restou dele.

Não quero que você sinta culpa.

Não quero que você chore.

Não quero sequer que se lembre de mim.

Só quero que, algum dia, quando ouvir falar daquela história, você se pergunte por alguns segundos:

“O que aconteceu com ele depois que foi embora?”

E talvez você nunca descubra.

Talvez ninguém descubra.

Porque algumas pessoas desaparecem do mundo.

Outras desaparecem apenas de si mesmas.

E existe uma diferença entre as duas coisas que talvez ninguém consiga explicar.

Esta carta é o meu ponto final.

O seu também.

O nosso.

Depois dela, não há mais mensagens.

Não há mais flores.

Não há mais espera.

Não há mais volta.

Apenas silêncio.

E, em algum lugar entre o último parágrafo e o amanhecer, fica a pergunta que nunca terá resposta:

eu sobrevivi àquela noite… ou apenas deixei de existir nela?

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