Notas sobre Alef

Notas sobre Alef

Quando perdemos alguém de grande importância, é natural que queiramos falar sobre essa pessoa. Contar como ela era, relembrar suas particularidades e, sobretudo, falar sobre o quanto nos fazia felizes. Gostaria que me perguntassem sobre meu irmão, Alef. Gostaria de ter o prazer de falar sobre ele e, de alguma maneira, fazê-lo presente por meio das minhas lembranças, das histórias que vivemos e de tudo aquilo que ainda guardo comigo.

 

Certa vez, um amigo que havia perdido sua querida mãe me disse, em uma conversa, no auge de seu luto: "Gostaria de andar com uma camisa escrito: 'Por favor, me pergunte sobre minha mãe!'". Hoje, compreendo perfeitamente esse sentimento.

 

Não me foi perguntado, mas quero falar sobre Alef.

 

Ele era a pessoa mais pura que já conheci. E digo isso sendo ele homem e irmão mais velho, porque quem o conheceu de perto sabia da alma inteiramente desprovida de maldade que possuía. Parecia ter alma de criança. Era impossível enxergá-lo de outra maneira. Sua essência era pura e boa. Ele era bom. Com todos.

 

Quando mais novos, assim como acontece com tantos irmãos mais velhos que gostam de implicar com os mais novos, Alef também teve sua fase petulante. Eu e meu irmão do meio vivíamos chamando pela mamãe porque o Alef estava nos provocando e irritando.

Ele era um completo gozador! Desde sempre, imitava as pessoas, observava cada uma delas para depois fazer suas imitações e possuía um senso de humor naturalmente inteligente. Sabe aquela pessoa que consegue ser engraçada sem fazer o menor esforço? Ele era assim. Naturalmente engraçado.

 

Era um enorme deleite estar em sua presença. Uma fonte de alegria, felicidade e satisfação. Eu que o diga!

 

Durante toda a nossa adolescência, até ele se casar, lembro-me de que a primeira coisa que fazia ao chegar do trabalho era ir ao meu quarto para brincar comigo e me fazer rir. Ele sabia o quanto eu amava suas palhaçadas e, por isso, fazia cada vez mais, só para me ouvir gargalhar. E era sempre assim. Não me lembro de estar triste ou de passar um momento sem rir na presença de Alef. Era praticamente impossível.

 

Mas ele também era tão inteligente! Inteligente mesmo. Um gênio. Possuía habilidades extraordinárias com tecnologia e criava designs como ninguém. Era inacreditável a facilidade que tinha para conversar sobre qualquer assunto com qualquer pessoa. Eu o admirava tanto por isso! Sua mente era realmente brilhante.

 

Além de tudo, era extremamente carinhoso, generoso, bondoso e atencioso.

 

Durante muito tempo, lembro-me de que ele me buscava na igreja todas as terças-feiras. Ia direto do trabalho. No caminho de volta para casa, sempre passávamos por uma lanchonete, onde comprava alguma coisa para mim. Conversávamos durante todo o trajeto. Ele ouvia tudo o que eu tinha a dizer com atenção e verdadeiro interesse. Nunca vou me esquecer de tudo o que compartilhamos naqueles trajetos de ônibus para casa.

 

Minhas experiências com Deus eram contadas a ele em primeiro lugar. Era com Alef que eu dividia minhas descobertas, minhas alegrias e tudo aquilo que vivia com o Senhor. Ele me ouvia com o coração inteiro.

 

Que amigo eu encontrei no meu irmão! Como era doce a vida tendo sua amizade!

 

Alef era meu grande tesouro. Um exemplo em tantos aspectos. Minha referência de homem e de ser humano nesta Terra. Meu melhor amigo!

 

Conselheiro, inclusive dos nossos pais, como me lembro bem. Apaziguador. Pacífico. Alegre. Sorridente. Cativante. Tão puro!

 

Não é à toa que carrego no peito um vazio do tamanho de sua ausência. Nada poderia substituir o lugar que ele ocupa em mim. Eu o amava com toda a minha vida!

 

Este texto poderia facilmente fazer alguém terminar de lê-lo amando Alef também. Afinal, quem não gostava dele?

 

Se um dia alguém quiser saber como me fazer bem em meio ao luto, por favor, me pergunte sobre meu irmão.

 

-Sarah M.

Author & Storyteller