A despedida que eu temia, finalmente aconteceu

A despedida que eu temia, finalmente aconteceu

Meu irmão partiu há pouco mais de quatro anos.

 

Foi uma perda repentina. E eu, como irmã mais nova, como alguém que o amava profundamente, como alguém que o tinha também como melhor amigo, como o irmão dos sonhos, de repente me vi sem um dos grandes motivos da minha alegria.

 

Meu irmão se foi.

 

E eu não conseguia deixá-lo partir.

 

Passei por um processo muito longo de elaboração do luto. Eu não conseguia aceitar que meu irmão havia morrido. No momento da despedida, no velório, no enterro, eu simplesmente não consegui viver aquilo. Eu me recusava a olhar para o meu irmão naquela situação, porque aquela era uma cena que jamais havia imaginado presenciar: meu irmão dentro de um caixão.

 

Era inaceitável para mim naquele momento.

 

Quando o vi ali, tudo o que eu conseguia dizer era que o amava. Mas, logo depois, caí prostrada no chão, em prantos. Gritava de dor. Uma dor na alma que parecia doer também fisicamente. Precisei ser retirada daquele lugar para não continuar presenciando aquilo.

 

Eu me recusei a viver aquele momento.

 

E, mais tarde, compreendi que aquela recusa teria consequências difíceis de lidar durante todo o meu processo de luto.

 

Eu não conseguia liberar o meu irmão.

 

Durante muito tempo, talvez por conseguir lidar de maneira aparentemente forte com a perda, eu imaginei que estava atravessando o luto bem. Mas, com o tempo, entendi que ser forte diante da dor não significava necessariamente ter elaborado aquela dor.

 

Pelo contrário.

 

Eu tinha extrema dificuldade de me desapegar do meu irmão, de compreender a sua partida, de aceitar a morte.

 

Foi então que entendi que precisava trabalhar isso dentro de mim.

 

O luto, embora precise ser vivido inteiramente, profundamente, intensamente, respeitando cada fase e cada tempo, também exige que, em algum momento, nos permitamos avançar. E avançar inclui a aceitação.

 

Não podemos forçá-la. Não podemos determinar quando ela chegará.

 

Mas, quando ela começa a chegar, precisamos nos permitir recebê-la.

 

Depois de muito trabalho em terapia e também de uma intervenção medicamentosa em razão do quadro depressivo que desenvolvi após o luto, entendi que precisava retornar ao lugar de onde eu havia partido sem conseguir me despedir.

 

Eu precisava voltar ao lugar da despedida.

 

Ao cemitério.

 

Aquele lugar havia se tornado um grande tabu dentro de mim. Uma barreira. Uma ferida. Um lugar assustador, aterrorizante, no qual eu jamais gostaria de colocar os pés novamente.

 

Eu havia jurado a mim mesma que não voltaria.

 

Mas, um dia, compreendi que precisava voltar justamente para me permitir viver, de fato, a despedida do meu irmão.

 

Depois de muito processo, consegui.

 

Voltei àquele lugar.

 

E ali, finalmente, tive um momento de despedida.

 

Chorei debruçada e prostrada sobre a lápide com o nome do meu irmão. Chorei, chorei e chorei tudo aquilo que eu ainda tinha para chorar.

 

E, depois de tanto chorar, comecei a agradecer.

 

Agradeci a Deus pela vida do meu irmão. Agradeci pelos vinte e um anos que Ele havia me permitido viver ao lado dele. Por tudo o que meu irmão havia sido para mim. Por tudo o que havíamos vivido.

 

E foi naquele momento de gratidão que compreendi: era hora de deixá-lo partir.

 

Não pensem que fui ao cemitério como um ato místico.

 

Eu sabia que aquele corpo mortal não pertencia mais ao meu irmão. Eu já compreendia que ele não estava mais ali. Durante o meu luto, o próprio Deus havia falado ao meu coração que meu irmão já estava com Ele, reinando em perfeita alegria.

 

Era isso que Deus havia colocado em meu coração.

 

Por isso, eu sabia que aquele corpo era apenas um corpo mortal. Meu irmão já não estava ali.

 

Voltar ao cemitério não foi, portanto, uma tentativa de encontrá-lo.

 

Foi uma tentativa de me permitir despedir-me dele.

 

Foi um ato de fé.

 

Um ato de entrega.

 

Foi a maneira que encontrei de, finalmente, liberar o meu irmão para partir.

 

E foi ali que o meu coração entendeu que era hora de deixá-lo ir.

 

Naquele momento, algo dentro de mim também começou a ser curado.

 

Havia uma ferida que permanecera aberta por muito tempo. Uma ferida que eu sentia inflamar cada vez que me aproximava da realidade da sua morte. Eu havia aprendido a conviver com aquela dor, mas isso não significava que ela estivesse cicatrizada.

 

Eu apenas havia aprendido a carregá-la.

 

E, naquele dia, ao me despedir do meu irmão, senti que aquela ferida finalmente podia começar a fechar.

 

Talvez tudo tenha acontecido no tempo certo.

 

Não no tempo em que eu queria, nem no tempo em que eu teria imaginado, mas no tempo em que Deus sabia que eu estava pronta.

 

Ele sabia quanto eu ainda precisava caminhar.

 

Sabia quanto eu precisava chorar.

 

Sabia quanto eu precisava lutar para compreender a morte, elaborar o luto e aceitar a perda.

 

E, quando finalmente chegou o momento em que meu coração estava preparado para soltá-lo, eu pude fazê-lo.

 

O que aconteceu no dia seguinte tornou aquele momento ainda mais marcante para mim.

 

No dia seguinte à minha ida ao cemitério, perdi o meu WhatsApp. Perdi o meu chip antigo, justamente aquele em que estavam todas as conversas que eu tinha com o meu irmão.

 

Durante muito tempo, eu havia usado aquelas conversas como um lugar de apego. Era como se, através delas, eu pudesse manter a sensação de que meu irmão ainda estava aqui.

 

Eu sabia que aquilo não era saudável para o meu processo.

 

Sabia também que, em algum momento, precisaria apagar aquelas conversas como parte de um processo de liberação. Mas eu não conseguia.

 

Eu revisitava aquelas mensagens quase todos os dias.

 

Ouvia os áudios do meu irmão. Relia nossas conversas. Escrevia para ele como se ele ainda estivesse aqui e pudesse me responder.

 

Eu sabia que precisava deixar aquilo ir.

 

Mas não conseguia.

 

No dia seguinte à minha ida ao cemitério, inexplicavelmente, perdi o acesso ao meu WhatsApp antigo. Perdi o meu chip. Não consegui mais entrar naquela conta. E, com ela, todas aquelas conversas foram embora.

 

Foram apagadas.

 

Eu tentei de tudo para recuperá-las.

 

Não consegui.

 

E, depois de tanto tentar recuperar aquele WhatsApp antigo, desesperada para não perder as conversas com meu irmão, algo despertou dentro de mim.

 

Um alerta.

 

E eu entendi que aquilo também fazia parte do processo.

 

Para mim, era como se Deus estivesse sendo misericordioso comigo e fazendo por mim aquilo que eu não teria forças para fazer sozinha.

 

Ele sabia que eu não conseguiria apagar aquelas conversas, mesmo sabendo que precisava fazê-lo.

 

Então, de alguma forma que eu não consigo explicar, as coisas aconteceram para que eu não tivesse mais acesso àquele WhatsApp e para que aquilo se tornasse irrecuperável para mim.

 

Eu não escolhi apagar aquelas conversas.

 

Eu precisei perdê-las.

 

E, naquele momento, compreendi que até aquela perda fazia parte da minha despedida.

 

Foi como se, depois de tanto tempo segurando aquilo que restava do meu irmão, eu finalmente tivesse as mãos abertas.

 

Ali estava a concretização de um processo que havia começado muito antes: liberar o meu irmão, aceitar a morte, aceitar a partida.

 

E, junto com isso, permitir que uma ferida antiga finalmente começasse a cicatrizar.

 

Não significava esquecê-lo.

 

Não significava amá-lo menos.

 

Não significava deixar para trás tudo o que vivemos.

 

Significava apenas compreender que amar alguém também pode significar aprender a entregá-lo.

 

Eu precisei aprender que a despedida não apaga o amor. Ela apenas muda a forma como carregamos aquilo que amamos.

 

Meu irmão continuaria fazendo parte da minha história. Continuaria existindo nas minhas lembranças, nas coisas que me ensinou, nas histórias que eu contaria sobre ele e no amor que permaneceria em mim.

 

Mas eu não precisava mais mantê-lo preso à minha dor para provar que o amava.

 

Naquele dia, pela primeira vez, eu consegui abrir as mãos.

 

E deixá-lo partir.

 

E, enquanto eu o deixava partir, Deus começava a curar em mim aquilo que durante tanto tempo eu não havia conseguido sequer tocar.

 

A despedida que um dia eu não consegui viver finalmente aconteceu.

 

E, depois de tanto tempo tentando aceitar a perda, eu finalmente entendi que aceitar não era deixar de amar.

 

Era permitir que o amor permanecesse, enquanto a dor começava, enfim, a cicatrizar.

 

-Sarah M.

Author & Storyteller

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