Cerca de dois meses depois que meu irmão morreu, eu ainda estava perdida dentro do luto.
Eu não conseguia orar.
Não conseguia tocar meus instrumentos.
Não conseguia ouvir música.
Eu não conseguia fazer muitas das coisas que antes faziam parte de mim. Era como se, junto com ele, alguma parte de quem eu era também tivesse desaparecido.
Eu ainda não acreditava completamente que aquilo estava acontecendo.
Era cedo demais para compreender.
Cedo demais para aceitar.
Eu estava vivendo aquela fase estranha do luto em que a gente sabe que a pessoa morreu, mas o coração continua esperando que, de alguma forma, aquilo deixe de ser verdade.
E foi nesse lugar que outra dor começou.
Meu irmão, Alef, era crente em Jesus.
Ele cria no Senhor. Já havia vivido experiências com Deus, experiências com Jesus. Era uma pessoa pura, exemplar. Eu conhecia a fé dele. Conhecia a pessoa que ele era.
Mas, nos seus últimos dias, ele não estava frequentando a igreja.
E, no meio da confusão em que eu estava, aquilo começou a me fazer pensar.
Para onde ele foi?
O que aconteceu com ele depois da morte?
Alef está com Jesus?
Ele realmente viu o Senhor?
E se eu estiver enganada?
Eu não sabia.
E aquela falta de resposta começou a doer quase tanto quanto a própria ausência dele.
Era uma dor que não vinha apenas da saudade.
Era a dor de não saber.
Eu estava tentando compreender a morte de alguém que eu amava mais do que conseguia explicar, enquanto, ao mesmo tempo, tentava imaginar aquilo que existe depois dela.
E eu não conseguia.
Eu estava triste, revoltada, confusa, em negação.
Até um pouco zangada com Deus.
Não porque eu acreditasse que Deus tivesse feito alguma coisa errada. Eu sabia que Ele era bom. Sabia que Ele era perfeito. Sabia que Ele continuava sendo Deus.
Mas eu não entendia.
E a falta de compreensão começou a invadir lugares da minha fé que antes pareciam tão firmes.
Até que, um dia, enquanto eu lavava louça, no meio de uma tarefa completamente comum e de uma vida que continuava acontecendo apesar de eu sentir que a minha tinha parado, pensei em uma oração.
Eu nem cheguei a falar.
Apenas pensei:
"Deus, me dê a paz de que o Alef está com o Senhor."
Foi só isso.
E então comecei a sonhar.
Foram quatro sonhos.
Quatro dias seguidos.
E, nos quatro, acontecia algo muito parecido.
Alef voltava.
Ele voltava de onde quer que estivesse.
E não voltava como alguém que havia escapado da morte.
Voltava como alguém que havia atravessado alguma coisa e agora sabia.
Ele estava feliz.
Alegre.
Radiante.
Inteiro.
E eu tinha uma pergunta que parecia ser mais importante do que todas as outras:
"Alef, você viu o Senhor?"
"Você esteve com Ele?"
E ele sorria.
"Sim."
"Eu vi o Senhor."
Eu perguntava mais.
Como Ele é?
Como é lá?
Como é a eternidade?
O que você viu?
Como foi estar com Jesus?
E ele me respondia algumas coisas.
Poucas.
Sempre de maneira superficial.
Ele dizia que tinha visto o Senhor.
Que tinha estado com Ele.
Que Jesus o havia abraçado.
E em um desses sonhos, quando eu perguntava como Jesus era, Alef simplesmente sorriu e disse que Jesus era... fofo.
E eu lembro disso até hoje porque, no meio de algo tão grandioso, tão misterioso, tão impossível de compreender, havia uma coisa tão simples, tão característica dele.
Mas então eu fazia mais perguntas.
Queria saber tudo.
Queria que ele me contasse o que havia visto.
Queria entender a eternidade através dos olhos dele.
E era justamente aí que acontecia algo que, até hoje, me impressiona.
Ele não respondia.
Às vezes ria.
Às vezes apenas sorria.
Era como se algumas coisas não pudessem ser ditas.
Eu perguntava de novo.
E ele não me contava.
Não porque não soubesse.
Mas porque parecia não poder me revelar.
E, estranhamente, eu entendia isso dentro do próprio sonho.
Havia coisas que eu simplesmente não podia saber.
Coisas que pertenciam a um lugar ao qual eu ainda não tinha chegado.
E talvez exista algo muito profundo nisso.
A própria Bíblia nos diz que, agora, conhecemos apenas em parte. Há coisas que Deus nos revelou e há coisas que ainda permanecem como mistério para nós. Paulo diz que hoje vemos "como em espelho, obscuramente", mas que um dia veremos face a face.
Talvez fosse isso.
Eu queria conhecer o que ainda não me havia sido dado conhecer.
Queria que Alef me explicasse aquilo que, para mim, ainda era mistério.
Mas ele só conseguia me dar aquilo que eu precisava.
"Eu vi o Senhor."
Era como se todas as minhas perguntas pudessem se resumir àquela única resposta.
Ele viu.
Ele esteve com Ele.
Ele olhou para o Senhor.
E isso começou a trazer paz para dentro de mim.
Não foi uma paz que apagou a minha saudade.
Não foi uma paz que fez a morte deixar de doer.
Eu continuava no início do luto.
Continuava sem conseguir orar.
Continuava sem conseguir tocar.
Continuava sem conseguir ouvir música.
Continuava sendo uma versão de mim mesma que eu mal reconhecia.
Mas aquela pergunta específica parou de me perseguir.
Onde está o Alef?
Ele está com o Senhor.
Depois do quarto sonho, nunca mais sonhei com Alef retornando de onde estava para me contar aquilo.
Nunca mais tive aquele tipo de sonho específico.
Como se a conversa tivesse terminado.
Como se aquilo que precisava ser dito já tivesse sido dito.
E eu nunca mais duvidei.
Hoje, quando penso nesses sonhos, ainda não sei explicar completamente o que aconteceu.
E talvez eu não precise.
Não sei explicar por que foram quatro dias.
Não sei explicar por que ele voltava sempre feliz.
Não sei explicar por que ele sabia coisas que eu não sabia.
Não sei explicar por que, quando eu perguntava demais, ele apenas sorria.
Mas existe algo naquela experiência que ficou profundamente marcado em mim.
Eu pedi uma coisa a Deus em silêncio.
Pedi paz.
E, em meio à fase mais escura e confusa do meu luto, comecei a sonhar com meu irmão me dizendo que tinha visto o Senhor.
Talvez eu nunca consiga traduzir completamente aquilo em palavras.
Talvez algumas experiências tenham mesmo uma parte que precisa permanecer em silêncio.
Afinal, até sobre a eternidade nós sabemos apenas aquilo que Deus decidiu nos revelar.
Sabemos que existe uma realidade que os nossos olhos ainda não contemplaram.
Sabemos que um dia não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor.
Sabemos que estaremos com o Senhor.
Mas ainda não sabemos como é estar lá.
E talvez seja por isso que, nos meus sonhos, Alef nunca conseguiu me contar tudo.
Eu queria detalhes.
Ele me dava uma certeza.
Eu queria conhecer a eternidade.
Ele me dizia apenas:
"Eu vi o Senhor."
E, naquele momento, aquilo foi suficiente.
Porque eu não precisava conhecer o céu inteiro.
Eu precisava apenas saber que ele estava com Jesus.
E foi essa certeza que ficou.
Até hoje.
Um dia, finalmente, não haverá mais perguntas.
Não haverá mais morte.
Não haverá mais separação.
Não haverá mais lágrimas.
E então, aquilo que hoje conhecemos apenas pela fé, veremos face a face.
E talvez, naquele dia, eu não precise mais perguntar:
"Alef, você viu o Senhor?"
Porque eu também O verei. E se você crer, também verá.
-Sarah M.
Author & Storyteller
